Somos quem podemos ser

28 05 2009
A liberdade um pouco acima e a independência, são duas matizes que andam lada a lado em qualquer pessoa

A liberdade um pouco acima e a independência, são duas matizes que andam lada a lado em qualquer pessoa

Eu adolescente ouvia discos de vinil. Num dos que eu mais gostava, Humberto Gessinger cantava o verso acima. Nessa música ele falava das descobertas que foi fazendo ao crescer. Quando descobriu, por exemplo, que as nuvens não eram de algodão. Ganhou liberdade com o tempo e aparentemente passou a tomar suas próprias decisões.

Por que aparentemente? Justamente pelo verso inicialmente separado. Em nossa vida não somos quem realmente somos ou gostaríamos, mas sim quem podemos ser. Vários fatores influenciam a nossa ação e o nosso pensamento. Sejam os amigos, os livros, as viagem que fazemos, filmes que assistimos e qualquer coisa que vivenciamos nos ajuda a ser quem somos.

As nossas frustrações é que nos limitam. Elas que acabam dando o limite dos moldes que seguimos. Conforme dito em outros posts, nossos ídolos e a forma como eles nos tocam também modificam nossa formação. As escolhas das tribos que cada um pretende ingressar, frases soltas que surgem nos nossos ouvidos em momentos delicados. Os fatores são tantos que é praticamente impossível uma pessoa conseguir mostrar ao mundo apenas a sua essência.

Essa é mais uma vertente de nossa falsa liberdade. No fundo nossas escolhas todas acabam sendo definidas por limites que não nos pertencem. E ai eu chego perto de começar uma discussão levantada pela Eve. A relação entre liberdade e independência. Não somos totalmente livres porque nossas escolhas são sempre dependentes de variáveis externas a nossa vontade, mas sempre somos independentes nas escolhas que fazemos após termos a liberdade definida.

Vejo, nesse caso, a independência como fruto das escolhas coletivas e a liberdade como a escolha pessoal. Assim encaro a independência como um ideal democrático e a liberdade como um ideal anárquico. Dentro dessa minha limitada linha de pensamento, os homens só são livres dentro de uma realidade definida, nesse caso o tão aclamado sentimento de liberdade é apenas a sensação de comodidade em perceber-se dentro das regras sociais do local onde se está inserido e ai então a possibilidade de se agir tranquilamente de acordo com novas escolhas, as escolhas independentes.

Quando começamos a crescer, essa situação aparenta ser mais confusa em nossas mentes. Quem não foi um adolescente questionando regras? Quem nunca ficou irritado por não poder fazer aquilo que queria? Uma brincadeira de amigos é que na adolescência todos temos em nossas mentes o furor revolucionário das esquerdas tradicionais, por isso tanta revolta e briga popular dentro de grupos estudantis, que se espelham em ídolos bastante padronizados como Che Guevara e Fidel Castro, no caso dos estudantes brasileiros.

Ai o tempo passa e as idéias políticas e sociais de cada um mudam, ampliando o leque de escolhas, quando um pouco mais velhos nos sentimos mais livres para fazer nossas reais escolhas, podemos sair da tribo e ai, realmente independentes podemos escolher se voltamos para a tribo dos esquerdistas ou se mudamos para outra, tudo dentro da nossa pequena liberdade limitada.

Reparem nas canções adolescentes, a inquietude com o sistema é recorrente, bem como o amor, o desejo e o prazer. Os mesmos autores, quando um pouco mais maduros, mudam seu discurso e as letras passam a falar de inquietudes pessoais, as reclamações sociais são outras, já não se quer derrubar todo o sistema, mas sim reclamar de pontos determinados dele, as revoluções deixam de ser totais e passam a ser pontuais.

Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente

Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente

Para mim, o entendimento da independência é mais lento do que o desejo de liberdade, talvez por isso eu ache que as pessoas mais maduras são as que conseguem situar-se bem com esse tipo de sentimento. São pessoas que conseguem tranquilamente aceitar a existência de limites sociais para seus desejos e conseguem brincar com esses limites ampliando sua parca liberdade, mostrando-se independentes.

Você se acha uma pessoa independente neste conceito? Gostaria de ampliar sua liberdade em que aspectos? No próximo texto, eu provavelmente deva falar um pouco dos meus limites e da forma como eu lido com eles.





Tribos

26 05 2009
No fundo todos pertencemos a uma ou mais tribos

No fundo todos pertencemos a uma ou mais tribos

Nos últimos posts os ídolos apareceram como tema central. A forma como os vemos e o tratamos. A busca de um modelo perfeito que possa servir de amparo para a busca de mudanças profundas na nossa sociedade.

Bem ou mal, de certa forma todos temos ídolos, o que muda é a forma como lidamos com estes ídolos. Alguns apenas sentem uma empatia leve por este ou aquele modelo apresentado, outros chegam a uma devoção histérica e religiosa pela pessoa, associando tudo o que acontece de bom ou mal em sua vida aos humores do seu ídolo.

O blog O Estranho Mundo de Camila (na lista dos que eu indico) trouxe um texto interessante sobre o tema.  A Camila não discute exatamente a idolatria, mas a liberdade falsa que acaba interessando a grande maioria da população.  Vale a pena dar uma lida e refletir sobre o que ela postou lá.

Hoje eu vou me ater a outro aspecto da idolatria, o da necessidade que temos de ter ídolos. Afinal o que nos faz seguir um corte de cabelo (como os Beatles fizeram com grande parte dos jovens ingleses e americanos nos anos 60), mudar o time de futebol (muita gente está acompanhando jogos do Corinthians por causa do Ronaldo), mudar até a sua visão política (aqui no Brasil pessoas saem da direita e vão pra esquerda e vice-versa, de acordo com o humor do seu candidato).

nas tribos poucos são os que realmente criam as regras

nas tribos poucos são os que realmente criam as regras

Essa necessidade de ter alguém que sirva de exemplo chega a ser estranho, e como citado pela Camila no seu texto, chega a ser uma forma de não liberdade dentro da liberdade. Afinal, em teoria, todos somos livres para fazer as escolhas que quisermos dentro dos limites que permeiam a vida em sociedade, ou seja, se não prejudicar a liberdade do outro, a minha liberdade é valida.

A impressão que fica é que temos a necessidade de diminuir as particularidades individuais e cada vez mais criarmos um único modelo padrão. Parece que buscamos, apesar das diferenças, sermos todos iguais. Seja corte de cabelo, roupa que veste, música que ouve e até preferências gerais.

Mesmo aqueles com gostos mais distantes do padrão, acabam formando pequenos guetos sociais e nesses guetos procuram disseminar suas idéias. Por exemplo, os brasileiros fãs de uma desconhecida banda lituana vão todos se unir e se possível tentar captar mais fãs para a banda que julgam ser a melhor do mundo. Os torcedores de um time de futebol acabam criando certos hábitos comuns nas partidas de sua equipe. Camisetas muitas vezes identificam os eleitores de determinado grupo político.

 Ai cabe uma breve história sobre o tema. Uma amiga querida algumas vezes brinca comigo por eu ser um eleitor tipicamente neoliberal, totalmente em cima do mundo como ela já me disse algumas vezes. Ela, muito mais próxima da esquerda. Sendo uma mulher muito bonita e até certo ponto vaidosa, gosta de estar sempre bem vestida e arrumada (eu pelo menos nunca a vi desajeitada). Certo dia numa conversa sobre política, disse-lhe brincando que era um fetiche meu vê-la de camiseta branca, cabelo preso, óculos, calça jeans e tênis al star surrado. Justamente o estereótipo do eleitor de esquerda, cultivado inclusive por pessoas que querem voto dessa parcela da população, como a ex-senadora Heloísa Helena.

E podemos extrapolar isso para qualquer outro grupo, como se todos fôssemos distribuídos por tribos. Aliás, tribos é o nome de um programa do canal de TV a cabo GNT que procura tratar do assunto de forma até bastante divertida. Tendo como apresentadora a atriz Daniele Suzuki, a cada programa um grupo é dissecado, mostrando o que une cada tribo. Vi alguns programas e confesso que achei a fórmula interessante, no fundo ele mostra como somos todos robotizados, programados para agir conforme o grupo que nos inserimos.

Parece-me óbvio que em muitos casos pertencemos a mais de uma tribo. Um advogado pode ser também motociclista. Durante a semana ele usa terno e jargões do direito, mas aos finais de semana, pega sua moto e desbrava as estradas com sua jaqueta de couro, mostrando as tatuagens escondidas em busca de shows de rock junto com outros motociclistas.

Pouco espaço sobra nessas tribos para sermos quem somo se é que sabemos quem somos

Pouco espaço sobra nessas tribos para sermos quem somo se é que sabemos quem somos

E isso levanta outra questão, a nossa mutabilidade. De acordo com o grupo e o interesse momentâneo, temos ações que se modificam, fazendo com que sejamos selecionados sempre pelo meio. Mas isso é um assunto longo e tema pra outro post dessa série que pretende chegar na idéia de liberdade x independência citada pela Eve num comentário de um post anterior.

Paro por aqui, só deixo uma pergunta a quem me lê. Nesse tempo todo viajando de tribo em tribo, em que momentos conseguimos ser realmente quem somos? Totalmente Livres? As mensagens e comentários são muito bem vindos. Percebo que muita gente passa por aqui, mas poucos emitem sua opinião, acreditem, eu respondo a todo mundo…rs





Vale a pena ser herói?

24 05 2009
Um músico não pode ser julgado só por sua música?

Um músico não pode ser julgado só por sua música?

Hora de terminar o que comecei a alguns posts. No último eu disse que nós costumamos relevar nossos heróis da ficção. Atualmente os heróis ficcionais estão mais humanos, procuramos pequenas falhas de caráter neles para validá-los. Essa aproximação entretanto muitas vezes foge do mundo real.

Quem são os nossos grandes heróis? Pelé, o maior atleta do século é questionado por sua vida fora dos campos. Ronaldo fenômeno sofre do mesmo mal. Vários atores são questionados sobre sua opção sexual. Qualquer candidato a ídolo possui sua vida recheada de perseguidores, atrás de falhas de caráter que façam com que toda e qualquer idolatria seja derrubada instantaneamente.

Ai as coisas começam a complicar, eu imagino que quem tem Pelé e Ronaldo como ídolos, idolatra o que eles faziam com a bola nos pés, exigir qualquer outra coisa deles é absurdo. Cazuza é outro bom exemplo, um poeta genial, fez letras bastante interessantes. Tinha uma vida pessoal muito mais conturbada do que a maioria aceita, sexualmente falando sempre se definiu como bi sexual, transou com quem quis como quis, usou drogas, quebrou regras, fez tudo do seu jeito, sem ligar muito pras regras do momento.

Cazuza sempre foi um ídolo pra mim, mas só por seus versos, eu nunca liguei se ele usava drogas, com quem ele transava, o que ele fazia além das músicas que eu ouvia nunca foi problema meu, o ídolo era apenas musical.

Aurélio Miguel é outro exemplo dessa linha pra mim. Treinei judô muito tempo, adoro o esporte até hoje. Aurélio foi um dos maiores heróis da minha infância/adolescência. A medalha de ouro olímpica me marcou muito. Hoje ele é político na cidade em que voto, isso nunca me fez nem pensar em votar nele. Eu idolatrei o atleta, não o político, que tem idéias bastante opostas as minhas.

Aliás falando em políticos, essa classe de anti-heróis nacionais parece ser a única que não sofre com os problemas citados aqui. É incrível como falhas em outros ídolos resvalam na grande maioria dos políticos. Filhos fora do casamento geralmente prejudicam numa eleição, passado o fato, voltam como se fosse a coisa mais normal do mundo (eu honestamente acho que um filho fora do casamento não mede a honestidade de um administrador, mas nosso país é extremamente conservador). Escândalos para eles têm curta duração e o pior, em alguns casos, eles simplesmente não são levados a sério por serem em cima de pessoas populares, vide a quantidade de denúncias que caíram sobre o governo do nosso atual presidente.

O que torna os políticos livres do julgamento popular mesmo quando falham na execução daquilo que foram eleitos para fazer?

O que torna os políticos livres do julgamento popular mesmo quando falham na execução daquilo que foram eleitos para fazer?

É nesse ponto que tudo fica nebuloso, aquele ser que deveria ser reverenciado apenas por fazer uma coisa boa e somente por essa ação seja ela cultural, social, esportiva ou o que quer que seja, nunca escapa do julgamento por tudo o que faz. O atleta que não teve acesso a educação deve dar opiniões coerentes sobre a variação cambial ou ter uma posição socialmente aceita sobre o massacre chinês no Tibet. Não pode ser visto embriagado numa festa, nem mesmo trocar de namorada ou envolver-se num relacionamento mais fugaz sem ser julgado e culpado por isso. Mas um político pode enriquecer na vida pública, pode dizer palavrão em discurso oficial, pode até mesmo roubar que não será julgado. E por que? Simplesmente porque políticos nunca serão heróis e nem modelos.

Ai me vem a pergunta, vale a pena ser herói? Vale a pena se destacar em uma área? Afinal você acaba sendo julgado em todos os aspectos da sua vida só por ser bom em algo. Me pergunto se isso é devoção mesmo ou simplesmente inveja, muitas vezes acredito mais na inveja.

A impressão que tenho é que as pessoas invejam aquilo que gostariam de saber fazer como ser um atleta habilidoso, um artista famoso, um cientista competente e por isso procuram falhas em qualquer coisa que estes façam, como a maioria das pessoas não enxerga glamour na política, estes ficam livres do julgamento popular.

O que você acha?





Superperfeitos?

22 05 2009
Não bastava ao herói voar, ser forte e resolver os problemas, ele tinha que ser perfeito.

Não bastava ao herói voar, ser forte e resolver os problemas, ele tinha que ser perfeito.

Dando continuidade a linha de pensamento do último post, agora quero dar um pequeno passo adiante. Se discuti o fato de que temos dificuldade em definir certezas e verdades, hoje tento brincar com outra idéia a da mudança do modelo de perfeição social vista a partir dos super heróis.

Já disse antes que gosto muito de ler histórias em quadrinhos. Ainda hoje, já passado dos 30, gasto parte do meu salário comprando revistas como Batman e Liga da Justiça.  E como em quase tudo que me chama a atenção, sempre gosto de entender a origem das coisas, como elas surgiram e como mudaram. A partir deste ponto, acabo começando minhas viagens mentais, que agora derramo aqui no blog.

Pois bem, depois desse início quase enrolador, acredito que valha a pena dizer o que estou querendo. Não vou partir para o começo das histórias em quadrinhos e nem mesmo para o início das histórias de super heróis. Vou até o período da segunda guerra, naquele tempo tinhamos como personagens, superman, capitão america, batman e outros. Algo que se destacava em todos eles era a forte dualidade entre bem e mal. No caso do capitão américa desse período, o inimigo era o regime nazista e Hitler a figura a ser derrotada.  A idéia era simples, todas as virtudes estavam do lado americano e todos os defeitos nos vilões nazistas.

No caso so superman, a idéia era a mesma, o personagem kriptoniano possuia todas as qualidades possíveis e seus bandidos eram a encarnação de tudo que era mal. A humanidade também de certa forma era reverenciada como qualidade, visto que vários de seus inimigos como brainiac e a primeira versão de lex luthor eram ou fruto ou ligados a alta tecnologia, sem traços marcantes de humanidade.

Batman passou por situação parecida, quando criado, o jovem queria apenas vingar a morte de seus pais com justiça, seus inimigos eram quase cômicos, talvez tenha surgido em sua séria o primeiro caso de dualidade a ser observado. A mulher-gato, bandida com uma relação dúbia com o homem-morcego.

Isso’, é claro, no período clássico das histórias em quadrinhos, nesse tempo, e na sociedade provavelmente, herói era visto como herói. Não tinha essa coisa de você ser um herói e cometer falhas de caráter, qualquer falha levaria o herói a perder toda a sua credibilidade.

Ai o tempo passou, anos 80, 90, atual década e muita coisa aconteceu. O capitão américa continuou sendo o cara mais bonzinho do universo até ser morto e em seu lugar, um antigo parceiro assumiu seu uniforme. Agora o novo capitão usa até revólver. O superman continua o mesmo escoteiro de sempre (aliás escoteiro é uma expressão que aparece nas suas histórias), mas acaba sempre sendo de certa forma zombado por ser certinho demais sempre. Batman é quase o primeiro dos grandes anti-heróis. Passa por períodos mais violentos sempre, tem demônios internos e comete erros como todo mundo. Aliás essa mudança é que alavancou as vendas da revista.

Wolverine, um dos personagens mais populares da atualidade (filme em cartaz nos cinemas) é o próprio anti-herói, bebe, fuma, fala palavrão, faz uma série de coisas, mas naquilo que ele é bom, continua sendo ótimo, ele resolve o problema.

Esse gosto por heróis de comportamento questionável é que se torna interessante. Na ficção passamos a aceitar que os ídolos não precisam ser perfeitos, até talvez seja essa imperfeição dos perfeitos o que aproxima os homens dos personagens. Você não espera que o Wolverine pare de fumar, mas ele tem que continuar detonando os bandidos (que podem até ser bandidos, mas que hoje possuem requintes de humanidade como cuidar da mãe doente).

Hoje o mundo virou e já se aceitam heróis tão imperfeitos como nós, mas só na ficção

Hoje o mundo virou e já se aceitam heróis tão imperfeitos como nós, mas só na ficção

Destes heróis dúbios, o primeiro que me vem a cabeça é Han Solo, da série Guerra nas Estrelas. Tudo bem que Luke Skywalker era o jedi, o todo poderoso e tal, mas quem fez sucesso com a mulherada foi o personagem de Harrison Ford, que talvez seja até o mais popular do filme.

Aceitamos isso facilmente no mundo ficcional, mas porque não no mundo real? Voltando ao post anterior, não conseguimos aceitar pequenas falhas das pessoas que nos cercam. Mesmo que essas falhas sejam realmente pequenas e que essas pessoas sejam muito importantes para nós.

No próximo post eu termino essa linha de raciocínio quando falar dos nossos heróis de carne e osso, da relação que costumamos ter com eles e do que exigimos deles. Acho muito estranha essa relação de busca de perfeição idealizada.





O certo e o errado

19 05 2009
minha avó até hoje não entende que eu não curta entrar numa igreja

minha avó até hoje não entende que eu não curta entrar numa igreja

Modelos de certo e errado fazem parte da nossa formação desde o primeiro choro. Essa definição é bastante sutil e em alguns casos difícil de definir. Até porque a verdade de cada um é variável. Cada pessoa acredita agir da maneira mais correta segundo seus preceitos e crê piamente na sua linha como a mais correta para toda a humanidade. Provavelmente essas diferenças de pensamento são o principal motivo pra maioria das brigas que encontramos por ai. Certamente os dois lados de uma guerra acreditam que a sua luta é justa.

Essa diferença de valores, entretanto, é sutil demais pra ser definida claramente. E ai as leis se fazem necessárias. Em alguns casos leis mais simples, em outras leis complexas com interpretação mais difícil ainda. E isso não vale só para as nações, também se enxergam problemas no relacionamento diário que temos com as pessoas. Algumas pessoas podem achar normal cumprimentar todo mundo com beijos e abraços de manhã, outras pessoas simplesmente sentem ojeriza do toque alheio. Basta isso para que as famas de pegajoso e anti-social sejam imediatamente criadas no ambiente de convívio.

Até porque temos uma dificuldade imensa de aceitar o diferente e principalmente de aceitar a diferença naquilo que temos como básico no nosso comportamento. Minha avó até hoje estranha o fato de que eu me recuso a assistir uma missa ou mesmo que eu coma carne normalmente numa sexta-feira santa. Eu tenho dificuldade em aceitar também algumas coisas, mesmo racionalmente sabendo que é escolha da pessoa e que cada um tem seus motivos pra agir como age, sempre existem coisas que me incomodam.

E muitas vezes é difícil conviver com esse diferente, não é possível simplesmente se afastar da pessoa, as vezes ela acaba se tornando mais próxima do que você gostaria. É o chefe que você acha imbecil, é o amigo que não sabe guardar segredos ou a namorada que demora duas horas pra definir a roupa que vai usar e depois decide passar a noite em casa.

Enquanto isso, o seu chefe aguenta os erros no seu relatório, seu amigo suporta seu mau humor quando o seu time perde e a sua namorada suporta o seu gosto duvidoso para os restaurantes (é sempre o mesmo e sempre o mesmo prato). E no fundo achamos isso normal, buscamos os erros dos outros e não observamos os nossos.

eu acho a moda fútil, mas tenho amigos que adoram

eu acho a moda fútil, mas tenho amigos que adoram

Pode até parecer mea culpa em relação aos últimos dois posts, mas não é. É apenas um assunto que eu gostaria de tratar aqui e que trará nova discussão. Quando, no próximo post, eu discorrer sobre a falta de heróis no nosso povo. Só quis abrir a linha de pensamento falando um pouco sobre como é duro perceber que aquilo que me agrada incomoda terrivelmente o outro.

Inspiração para escrever isto? Ser síndico no condomínio onde moro. Acho que esse tipo de convivência mostra claramente como não sabemos respeitar as diferenças e acreditamos que a única verdade realmente válida é a nossa. Infelizmente muita gente pensa assim. E como professor, percebo que infelizmente muitos jovens hoje são criados a pensar assim, o que vale é a sua verdade e não a do outro.

Vamos brincar um pouco, que tal me contar algo que te irrita profundamente no comportamento das pessoas. Eu começo dizendo que a falta de clareza, a preguiça e o descaso de algumas pessoas me irrita muito, e você?





“… toda vez que falta luz o invisível nos salta aos olhos …”

17 05 2009
As vezes a luz está tão distante que só nos restam as trevas

As vezes a luz está tão distante que só nos restam as trevas

Neste post quero dar continuidade a idéia da mudança de comportamento que as vezes nos atinge. Ontem estava lendo uma revista do Batman (poxa pessoa não levem a mal, eu adoro quadrinhos, leio bastante, chego quase a colecionar). Numa das histórias, a que abre a revista, a trama gira em torno de uma armadura que quando vestida faz com que quem a vestiu passe a ter ações mais violentas. No caso do homem-morcego, o que aflorava era uma vontade imensa de matar os bandidos e não prendê-los.

E o que isso tem a ver com o último post? Tudo. No último post, eu discuti o que o sentimento de traição causava em mim e a forma como eu me sinto incomodado com uma situação que de certa forma estou vivendo. Tudo bem que o traidor sou eu mesmo, mas a traição me incomoda e me faz agir de forma diferente.

Existem sempre os gatilhos que nos tiram do eixo e que parecem liberar o nosso lado mais sombrio. As pessoas mais ponderadas que eu conheço, em determinados momentos de sua vida, acabam cometendo atos que parecem ser realização de outras pessoas. Seja um ato intempestivo, uma discussão fora de hora, cenas de choro e desespero ou até mesmo violência.

Em alguns momentos os fantasmas conseguem se libertar de sua prisão em nossa mente

Em alguns momentos os fantasmas conseguem se libertar de sua prisão em nossa mente

Ai fiquei pensando em meus fantasmas. Tudo aquilo que escondo no meu lado mais sombrio. No geral, quando saio do eixo, a violência que uso é mais verbal, por sorte tive juízo pra evitar nomes e acusações diretas no último post. Uma atitude constante nos meus momentos de falta de controle é me isolar. No geral eu costumo fugir de qualquer pessoa que se aproxime, e quando essas pessoas se aproximam, torno-me altamente mal educado e ácido. Conseguir evitar besteiras no trabalho (afinal trabalho com pessoas) confesso que é algo complexo demais.

Nesses momentos costumo ser frio com as palavras, escrevo de forma mais ácida e crítica, confesso que precisei de muita calma pra não citar nomes no último post. Confesso ainda que mais engraçado foi ter recebido pedidos de desculpas de pessoas que nada tinham a ver com o post. Admito que depois disso também fiquei com vontade de pedir desculpas para algumas pessoas, gente com a qual certamente pisei na bola da mesma maneira como pisaram no meu calo mais sensível a ponto de me fazer escrever o que escrevi.

Teve gente que me perguntou se a pessoa que me causou tamanha raiva se desculpou, bom eu nem sei se a pessoa lê esse blog, provavelmente não. Mas isso não importa, até porque o que eu queria levantar mesmo era a traição universal, não o sentimento que EU sinto, mas o que TODOS sentem.

E agora assumo o medo real que sinto de vestir a tal armadura do batman, de liberar meus fantasmas e agir de formas que eu imagino não serem corretas. Como o homem-morcego, também tenho medo de num apagar de luzes eu perceba que na verdade esses fantasmas que eu prendo são a minha verdadeira essência e que a prisão que eu criei para estes fantasmas seja apenas uma máscara.

Provavelmente eu seja um pouco dos dois lados, algo na linha nada é 100% bom nem 100% ruim. Provavelmente o que sirva de prisão pra uma parte desse lado sombrio seja apenas convenção social. Afinal muito do comportamento vem da relação com o outro, como um espelho (e ai que eu sinto raiva e a idéia de traição ganha forma, todo mundo joga esse jogo, mas alguns seguem apenas as regras que lhes convém).

A vida em sociedade é o que prende os comportamentos que nos envergonham

A vida em sociedade é o que prende os comportamentos que nos envergonham

É nessas horas que ao fechar os olhos para dormir, todos os fantasmas abrem suas celas na prisão da mente e surgem diante dos meus olhos, como descrito de forma indireta nos versos da música Pianobar do grupo Engenheiros do Hawaii que dá nome ao post.

Você também tem seus fantasmas? Quer falar sobre eles? Quer que algum tema seja discutido nesse espaço? Deixe um comentário.

Aliás, ainda não esqueci os dois temas que estou devendo, apenas estou coletando informações para falar deles com mais segurança.





“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

15 05 2009
nunca cause dor no outro por descaso

nunca cause dor no outro por descaso

Tem situações em que nós ficamos tomados pela raiva. Loucos de desejo de vingança. Algumas ações nos tiram do sério de tal forma que acabam expondo nosso pior lado. O bom senso se perde, junto com ele toda a tão bem desejada boa índole e respeito ao próximo somem de forma rápida e direta.

A sensação de sentir-se traído é uma dessas situações. Sentir-se enganado é terrível. E é justamente assim que tenho me sentido a alguns dias. Na verdade essa sensação incômoda vem e vai a algum tempo. antes das piadinhas maldosas, não é a típica dor de corno, afinal um solteiro não pode sentir esse tipo de dor.

Tem dias em que dói muito, como hoje. Sinto-me traído no ponto mais íntimo. O descaso as vezes é o que mais incomoda. É claro que fazer qualquer coisa esperando uma resposta específica de alguém é no mínimo burro e totalmente imbecil, mas algumas coisas são realmente padronizadas.

Espera-se encontrar carinho como resposta para carinho, respeito como resposta para o respeito e descaso como resposta para o descaso. Sei que essa linha é totalmente pavloviana, mas a não ser que ações absurdas tenham sido condicionadas no ser, a resposta padrão esperada é essa. Você não trata com descaso quem te trata com respeito. Ao menos eu não espero isso de ninguém que eu realmente respeite.

É ai que eu vejo traição. Falo da traição existente na quebra desse protocolo social. Me sinto traído algumas vezes por causa disso. Tem gente que se sente usado, eu nunca me sinto usado. Faço algo por alguém porque quero bem essa pessoa, faço algo por alguém porque de certa forma me faz bem ver o outro bem. O que incomoda muitas vezes é um tipo velado de descaso.

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

Até entendo o motivo deste descaso, dos tais sumiços e de certa forma respeito isso. é um direito de cada um agir como quiser, fazer o que quiser e buscar aquilo que lhe é necessário nos momentos em que surgem os problemas. A forma como isso é feito também é uma arma de cada um, cada pessoa faz o que acha justo e correto.

Se eu entendo a ação, por que me sinto traído? Nunca esperei prontidão, o carinho, ou o desapego com que trato algumas questões, isso é a forma como eu atuo, cada um tem a sua. Mas respeito é algo simples. Alguns sentimentos são absurdamente primários, principalmente os meus, eu sou sentimentalmente primário, não acesso sentimentos mais complexos em relação ao outro, vou pouco além do gosto e não gosto. Queria apenas saber o que realmente acontece, me sinto jogado no vazio muitas vezes.

ações simples podem salvar alguém

ações simples podem salvar alguém

E pior do que a traição do outro é a minha própria traição. Viver já não é fácil. Se traindo fica mais difícil ainda. E nesse aspecto eu me traio muito. Parece que acredito em contos de fadas que eu mesmo crio como falsas esperanças para um mundo aparentemente melhor, que na verdade não é melhor. Sei que deveria dizer não algumas vezes, mas também assumo que nunca vou fazer isso. Se assim o fizer fica a sensação de saber que poderia ter feito algo simples pra alguém que faria a diferença e não fiz, por mais que isso me magoe (e magoa no final), fazer é muito mais prático.

Nesse desabafo todo, no fundo eu acho que só queria que as pessoas todas se lembrassem da frase escrita por Saint-Exupéry (eu odiei ler o Pequeno Príncipe, mas tenho que admitir que ele merece ser lido): “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”