Aceitar ou não

12 05 2009
Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...

Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...

Dois comentários sobre meu último post fizeram pensar. Cada um a seu modo trata justamente do que acho mais importante na existência humana. A capacidade de ter opiniões pessoais e a partir delas  tecer comentários que podem ou não ser aceitos. Eu, particularmente neste blog, e confesso que em todos os aspectos da minha vida, não quero apenas ser aceito.

Não me vejo como criança mimada que não pode ser contrariada, muito pelo contrário, tento ser um adulto que sabe que vai ser questionado, aliás é o que mais busco aqui neste espaço.

Posto isso, vale a pena retomar as duas idéias, tanto a Lak, quanto a Eve levantaram pontos discordantes passando por dois conceitos que possuem relação estreita com o que discutia. A Lak disse que podemos sim ter uma alma livre e a Eve procura me lembrar da diferença entre liberdade e independência. Ambos os assuntos serão tratados em  breve, provavelmente nessa semana ou na próxima. Porém, preciso ainda refletir um pouco mais antes de começar a falar de cada um deles.

Hoje, com base nessas leves e saudáveis discordâncias, quero falar de outro tema. O não ser contrariado. Acredito que sempre que mostramos qualquer coisa a outro ser (e nem precisa ser da nossa espécie) estamos nos apresentando a um tipo de julgamento. Seja a ração que você resolveu comprar para o seu cão ou o novo livro que você apresenta a seu editor. Tanto a ração quanto o livro podem ser aceitos por seus interlocutores como podem ser odiados. Isso é normal e faz parte da vida.

Uma amiga minha diz sempre no meio de nossos papos mais filosóficos que todas as ações só ganham significado a partir da interpretação do outro. Você só escreve porque alguém vai ler, se veste porque alguém vai ver, se cuida porque vai conviver com alguém. Ela pauta seu pensar em teorias do discurso, presentes em sua formação.

Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...

Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...

Minha formação é bastante diferente, sou o tipo de pessoa que analisa o comportamento humano da mesma maneira que observa o comportamento de uma formiga. Para mim somos apenas animais. Nos demais animais, fica clara essa urgência em se fazer presente no outro. Nas aves os machos cantam para serem aceitos pela fêmea, em alguns grupos de mamíferos, ser aceito no grupo garante a alimentação, todos os rituais de corte são fortemente impregnados pelo desejo de ser aceito.

Em nosso íntimo é claro que todos queremos que nossas idéias prevaleçam, todos querem ser aceitos dentro do seu grupo, seja por sua beleza, inteligência ou ações. Alguns de nós até mudamos nosso comportamento natural só para ser aceito no grupo. Quem não se lembra de uma ação que foi feita só para conquistar a pessoa amada? Quem nunca se pegou agindo de forma diferente diante de pessoas diferentes?

Minha psicóloga (segunda vez que a cito no blog, espero que ela não resolva me cobrar uma sessão a mais) já me perguntou mais de uma vez se eu não tenho medo de não ser aceito. A resposta sincera sempre foi não, realmente não tenho de forma exacerbada. Como todo mundo, sinto-me confortável ao saber que estou agradando.

A questão aqui, entretanto, passa a ser outra. Você pode ser contrariado e ser aceito ao mesmo tempo. Discordar é saudável, doentio é não permitir que discordem daquilo que você pensa. Pessoas que não aceitam isso tendem a uma ação ditatorial e principalmente deixam de aprender. Talvez deixar de aprender seja um dos meus maiores medos. Para quem age assim, talvez o medo maior seja o de perceber que ainda é preciso aprender.

Algumas verdades para nós são tão presas que dificilmente conseguimos julgá-las. Seja a fé, seja o time do coração ou mesmo a opinião sobre o aborto. Discutir isso de forma racional é que é difícil. Deixar algum espaço para que outras opções sejam apresentadas.

Leio muitas vezes no mundinho azul (Orkut) discussões que nascem e ganham corpo apenas porque os envolvidos assumem a postura de a minha verdade é a que vale e parece que ganhar essa disputa virtual tem o mesmo peso de uma vitória na vida real. Tudo para sentir-se aceito.

Na vida real, mulheres passam anos sendo maltratadas por maridos violentos e escondem o fato com medo de serem vistas como vadias. Pessoas de ambos os sexos entregam-se pelo mesmo motivo a ditaduras de beleza, comportamento ou ação apenas para agradar ao outro, mesmo que não agrade a si próprio.

No fundo todos somos iguais

No fundo todos somos iguais

Aceitar a crítica muitas vezes é doloroso. Principalmente nessas verdades irredutíveis que criamos, mas aprender a quebrar esses pontos é necessário. Sei que se faz necessário um aprendizado constante e longo para que consigamos superar nossos medos e vaidades, mas é necessário aprender a ser questionado.

Confesso que foi a primeira coisa que pensei antes de criar este blog. Estou pronto para que as pessoas digam que não gostam do que eu produzo? Só quando eu tive a certeza interna de que a resposta para isso é sim, é que tomei coragem para me aventurar nesse universo de escrita. Em alguns pontos infelizmente ainda não cheguei ao ponto de agüentar ser questionado, nesses pontos o que faço? Simplesmente não os ponho a prova. E você? O que faz? O que pensa a respeito?

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