Superperfeitos?

22 05 2009
Não bastava ao herói voar, ser forte e resolver os problemas, ele tinha que ser perfeito.

Não bastava ao herói voar, ser forte e resolver os problemas, ele tinha que ser perfeito.

Dando continuidade a linha de pensamento do último post, agora quero dar um pequeno passo adiante. Se discuti o fato de que temos dificuldade em definir certezas e verdades, hoje tento brincar com outra idéia a da mudança do modelo de perfeição social vista a partir dos super heróis.

Já disse antes que gosto muito de ler histórias em quadrinhos. Ainda hoje, já passado dos 30, gasto parte do meu salário comprando revistas como Batman e Liga da Justiça.  E como em quase tudo que me chama a atenção, sempre gosto de entender a origem das coisas, como elas surgiram e como mudaram. A partir deste ponto, acabo começando minhas viagens mentais, que agora derramo aqui no blog.

Pois bem, depois desse início quase enrolador, acredito que valha a pena dizer o que estou querendo. Não vou partir para o começo das histórias em quadrinhos e nem mesmo para o início das histórias de super heróis. Vou até o período da segunda guerra, naquele tempo tinhamos como personagens, superman, capitão america, batman e outros. Algo que se destacava em todos eles era a forte dualidade entre bem e mal. No caso do capitão américa desse período, o inimigo era o regime nazista e Hitler a figura a ser derrotada.  A idéia era simples, todas as virtudes estavam do lado americano e todos os defeitos nos vilões nazistas.

No caso so superman, a idéia era a mesma, o personagem kriptoniano possuia todas as qualidades possíveis e seus bandidos eram a encarnação de tudo que era mal. A humanidade também de certa forma era reverenciada como qualidade, visto que vários de seus inimigos como brainiac e a primeira versão de lex luthor eram ou fruto ou ligados a alta tecnologia, sem traços marcantes de humanidade.

Batman passou por situação parecida, quando criado, o jovem queria apenas vingar a morte de seus pais com justiça, seus inimigos eram quase cômicos, talvez tenha surgido em sua séria o primeiro caso de dualidade a ser observado. A mulher-gato, bandida com uma relação dúbia com o homem-morcego.

Isso’, é claro, no período clássico das histórias em quadrinhos, nesse tempo, e na sociedade provavelmente, herói era visto como herói. Não tinha essa coisa de você ser um herói e cometer falhas de caráter, qualquer falha levaria o herói a perder toda a sua credibilidade.

Ai o tempo passou, anos 80, 90, atual década e muita coisa aconteceu. O capitão américa continuou sendo o cara mais bonzinho do universo até ser morto e em seu lugar, um antigo parceiro assumiu seu uniforme. Agora o novo capitão usa até revólver. O superman continua o mesmo escoteiro de sempre (aliás escoteiro é uma expressão que aparece nas suas histórias), mas acaba sempre sendo de certa forma zombado por ser certinho demais sempre. Batman é quase o primeiro dos grandes anti-heróis. Passa por períodos mais violentos sempre, tem demônios internos e comete erros como todo mundo. Aliás essa mudança é que alavancou as vendas da revista.

Wolverine, um dos personagens mais populares da atualidade (filme em cartaz nos cinemas) é o próprio anti-herói, bebe, fuma, fala palavrão, faz uma série de coisas, mas naquilo que ele é bom, continua sendo ótimo, ele resolve o problema.

Esse gosto por heróis de comportamento questionável é que se torna interessante. Na ficção passamos a aceitar que os ídolos não precisam ser perfeitos, até talvez seja essa imperfeição dos perfeitos o que aproxima os homens dos personagens. Você não espera que o Wolverine pare de fumar, mas ele tem que continuar detonando os bandidos (que podem até ser bandidos, mas que hoje possuem requintes de humanidade como cuidar da mãe doente).

Hoje o mundo virou e já se aceitam heróis tão imperfeitos como nós, mas só na ficção

Hoje o mundo virou e já se aceitam heróis tão imperfeitos como nós, mas só na ficção

Destes heróis dúbios, o primeiro que me vem a cabeça é Han Solo, da série Guerra nas Estrelas. Tudo bem que Luke Skywalker era o jedi, o todo poderoso e tal, mas quem fez sucesso com a mulherada foi o personagem de Harrison Ford, que talvez seja até o mais popular do filme.

Aceitamos isso facilmente no mundo ficcional, mas porque não no mundo real? Voltando ao post anterior, não conseguimos aceitar pequenas falhas das pessoas que nos cercam. Mesmo que essas falhas sejam realmente pequenas e que essas pessoas sejam muito importantes para nós.

No próximo post eu termino essa linha de raciocínio quando falar dos nossos heróis de carne e osso, da relação que costumamos ter com eles e do que exigimos deles. Acho muito estranha essa relação de busca de perfeição idealizada.

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4 responses

22 05 2009
cycy

Não é curioso que nossos atuais super heróis estejam tão parecidos com o que foram os deuses gregos? Sei lá, foi o que me ocorreu…rs.

22 05 2009
olharesdispersos

cycy, interessante o seu ponto de vista.

acho que isso merece um post mais pra frente, adorei a relação.

23 05 2009
cláudia

o problema está em exigir coisas do outro…

talvez aceitemos melhor as fraquezas dos heróis por se tratarem de personagens. com os seres reais costumamos ser extremamente impiedosos.

24 05 2009
Érika

Talvez a questão seja também a de conseguir definir quais as falhas que devem ser relevadas. Assim, não caímos nos extremos: relevar tudo ou nada. Não sei se é mais difícil deixar de ser tão generoso ou tornar-se mais maleável. Talvez a primeira condição, não sei…




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