London, London – Caetano Veloso

31 07 2009
Poderíamos ser como as aves que não reconhecem fronteiras

Poderíamos ser como as aves que não reconhecem fronteiras

Hoje as fronteiras diminuíram, é muito mais fácil chegar ao outro lado do mundo, seja através de um computador, seja fisicamente. Ficou muito mais barato, rápido e acessível se aventurar por cidades, estados, países distantes. Muita gente nasce numa região do globo e por motivos diversos acaba em outro lugar.

Essa facilidade deveria diminuir as diferenças entre os povos. As pessoas deveriam respeitar-se mais, aceitar mais o modo de ser e pensar dos outros, os costumes de cada um deveriam ser aceitos. Infelizmente não é o que ocorre. Poderia hoje falar do que ocorre no Oriente Médio, mas deixarei essa discussão para a próxima semana. Quero me prender ao preconceito religioso mais adiante.

Hoje eu quero falar das pessoas que passam por situações embaraçosas fora de sua terra natal. Tenho vários amigos que saíram ou do país ou mesmo de suas cidades aqui dentro do Brasil e em maior ou menor grau se envolveram com algum tipo de preconceito (ou para com ele ou por parte deles). Para isso, uso a música London, London (clique aqui para ver um clipe) do Caetano Veloso. A música fala de como ele se sentiu exilado em Londres durante a ditadura no Brasil.

Justamente essa música serve de ponte para falar de uma amiga minha (e leitora desse blog) que mora na Alemanha (clique aqui para ler as histórias dela sobre a vida na Alemanha). Resumindo sua história, ela casou-se com um alemão e mudou-se para uma pequena cidade alemã, vale a pena ler o que ela fala sobre seu período de adaptação. Retirando de seu blog, cito um fato curto pra explicar o modo como as diferenças são grandes. Aqui enviar os idosos para um asilo causam uma briga familiar fortíssima, os idosos ficam com a família, lá mandar para asilo é o mais comum. Aqui a gente se cumprimenta com beijo e abraço, anda agarrado mesmo, lá, até marido e mulher não são tão grudados assim.

Imaginem as complicações, você é visto como um diferente e vê os outros como diferentes. Você é visto como dado e fácil por querer beijar todo mundo no rosto num país mais reservado e vê os outros como frios. Essa é uma impressão geral, claro que com o tempo isso muda. Aliás, segundo a flor (dona do blog, acredite vale mesmo a pena ler), só quando ela resolveu parar de reclamar e cair de cabeça na cultura diferente a coisa facilitou.

Ela fala de viver como turista, aquele que se diverte com tudo. Infelizmente não é bem assim. Amigos meus foram para países da Europa a passeio. Falam da forma como alguns foram mal unanimidade. Apesar de falarmos a mesma língua, a comunicação não é fácil. A forma de tratamento parece trazer ainda resquícios coloniais e o comportamento dos povos é extremamente diferente. As pessoas que conheço e para lá foram de mala e cuia relatam que a demora para serem aceitos é muito grande. Por outro lado, quando você vai de uma nação mais economicamente poderosa, o tratamento é outro.

Isso ocorre aqui também. Veja como tratamos os bolivianos do Bom Retiro e a forma como tratamos os turistas europeus em Copacabana. Tratamos de forma diferente, infelizmente. Idéias de dominação e dominado ainda persistem nessa convivência. Estende-se o tapete vermelho a quem traz os bolsos cheios e trata-se como lixo quem vem de regiões periféricas.

Algo que ainda bem não é tão comum aqui é o massacre cultural. Aqui se permite que os bolivianos falem em castelhado, os coreanos em seu idioma nativo e os turistas em geral não são recriminados por sua língua. Os costumes também são liberados, aliás, acho que deveríamos até dar um pouco mais de valor ao que nós produzimos, nessa confusão perdemos um pouco da nossa própria história cultural.

Em alguns países, até mesmo manifestações culturais são perseguidas. Vistas como coisa de terceiro mundo. Como se só a cultura do dominante valesse a pena. Algo que gosto é ver aqui diversos bairros étnicos, mas mais interessante que isso, ver nesses bairros tudo misturado. Sushi man nordestino. Tocador de sanfona árabe, esfiharia dejaponeses. Essa miscelânea deveria ser o mundo moderno. Infelizmente não é.

Aliás, já que falei de nordestinos, alguém consegue me explicar o porquê das idéias separatistas do sul? Porque falam tanto mal dos nordestinos? Afinal somos todos brasileiros e iguais. Talvez falte coragem para admitir isso, mas é a mais pura verdade





Inclassificáveis – Arnaldo Antunes

28 07 2009
Preconceitos nos isolam de tudo e todos

Preconceitos nos isolam de tudo e todos

Depois de falar de perdas escolho outro tema ácido. O comportamento que temos diante daquilo que não conseguimos entender perfeitamente ou aceitar. O preconceito que  todos carregam em maior ou menor grau e em situações diversas. Uns separam as pessoas pela cor, outros, pela orientação sexual, outros segregam por características físicas diversas. Tem quem invente os mais diversos motivos para segregar as pessoas. Time de futebol, religião, cor da roupa, modo de falar, modo de andar, conta bancária e por ai vai.

Não consigo ver um motivo plausível para as reações que se observam nas pessoas. Não consigo encontrar nada aceitável que leve a algum tipo de segregação. Não estou dizendo aqui que é preciso amar todas as pessoas, adorar todos, mas sim de que não existe motivo para tratar mal por algum motivo realmente superficial. Em alguns casos parece que as pessoas querem simplesmente um motivo para exterminar um determinado grupo do qual não gosta mas não sabe bem o motivo.

A música que escolhi para hoje, do Arnaldo Antunes, ex-membro da banda Titãs, foi sugestão de uma grande amiga minha. Inclassificáveis (clique aqui para ver um clipe da música) fala nas entrelinhas que o homem não é passível de classificação, é apenas homem, Homo sapiens.

Eu tenho os meus preconceitos imbecis também. A vergonha me impede de citá-los. Eu me policio o tempo todo para não ser mais um imbecil que trata os outros de maneira errada sem motivo justo pra isso. Mas para tanto, tenho que reconhecer que tenho os preconceitos. E é ai que a coisa pega. Muita gente simplesmente não aceita que tem preconceitos.

São pessoas que não sentam próximas a negros no metrô, gente que é contra itens de acessibilidade em locais públicos, não contrata gente que more em determinados bairros, acha que os homossexuais não deveriam andar nas ruas. A pessoa que ataca outra pessoa porque ela veste uma camisa de time diferente e acha isso normal. Quem acha que idoso não deveria ter assento preferencial, aliás, pra que velho sair de casa?

Alguns talvez achem que estou fazendo defesa das minorias, não estou. Apenas levantei alguns pontos que estamos cansados de ver. E muitas vezes são situações que passam despercebidas. Nossas ações podem aos nossos olhos parecerem corretas, mas será que são mesmo? Será que não temos mesmo nenhum preconceito?

Como disse antes, eu tenho os meus e os assumo, até por isso evito que eles aflorem no meu dia a dia e eu acabe fazendo besteira. Tento sempre melhorar e até destruir esses comportamentos que vez por outra aparecem na minha mente. Tento ser alguém melhor. Mais tolerante, mais afável. Se eu consigo? Nem sempre.





It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) – R.E.M.

26 07 2009
Temos que ter coragem para seguir adiante buscando uma nova fonte de luz

Temos que ter coragem para seguir adiante buscando uma nova fonte de luz

Falei da dor das perdas que sentimos. De como é duro sobreviver a isso. Entretanto, sempre tem um entretanto, é possível tirar algo de positivo dessa dor toda. Geralmente, nos momentos de maior dor e desespero é que surgem as grandes mudanças. Saber aproveitar esses momentos de dor de forma produtiva é difícil, mas necessário.

A morte de um ente querido, a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, qualquer coisa que cause dor não pode nos deixar inertes para sempre. Na verdade, após o desespero inicial, é preciso que sejamos fortes o suficiente para mudarmos o mundo. A música que escolhi hoje fala um pouco disso. Gosto bastante do som produzido pelo R.E.M., banda americana que nasceu em 1980. Escolhi It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) (clique aqui para ver o clipe), porque a música fala de um mundo novo. Diz que chegou o fim do mundo que nós conhecemos e nós gostamos disso.

No fundo a proposta ideal é essa mesma. Acontecem tempestades diversas na nossa vida, coisas que mudam a direção do vento que nos empurra adiante. Essas tempestades não estão ai pra nos atrasar. Acontecem porque coisas ruins infelizmente acontecem e se nós conseguimos mudar de direção quando diante de situações críticas então significa que somos plásticos o suficiente para sobreviver nesse mundo maluco.

Um mundo, aliás, que muda a todo instante. O que é certo agora será errado daqui a uma semana. O que amamos agora será motivo de ódio daqui a algum tempo.  Essa mudança repentina de direções deixa qualquer um fragilizado, ainda mais quando se sofre algo ruim enquanto as coisas mudam e não temos tempo de nos adaptar a essas mudanças.

É como estar num longo relacionamento, de repente ele acaba e a gente não sabe mais o que fazer. Não sabe mais paquerar, não sabe mais sair de casa, não sabe nem mais ir o que comer sozinho. O mundo muda nesse tempo em que você. É a sensação de chegar num novo emprego, onde não se conhece ninguém. As pessoas todas parecem apressadas aos nossos olhos, por mais receptivas que sejam. Demora até que estejamos preparados para esse mundo novo, mas temos que entrar de cabeça. Porque o mundo que conhecemos acabou, é hora de aproveitar o novo.

Acompanhar essas rápidas mudanças (ainda mais porque só sentimos as rupturas quando elas nos causam dor) é extremamente difícil. Fico pensando em crianças que perdem os pais, em pais que perdem os filhos, chefes/as de família que perdem o emprego ou simplesmente pessoas que perdem seus sonhos e desejos. Gente que tem que encontrar força para continuar seguindo em frente.

Fico pensando em mim. Nos meus sonhos irrealizados. Confesso que muitos deles ainda povoam a minha mente. Mesmo aqueles que hoje sei serem impossíveis de realizar. Tem coisas desse novo mundo que ainda são impossíveis para mim. Eu ainda vivo preso ao mundo antigo, ou pior, vivo preso a desejos antigos que sei que não vão se realizar. Fiquei pensando muito nisso durante esta semana. Será que vale a pena sonhar ou lutar por algo que não está mais ao seu alcance? Vale a pena sentir essa dor? Vale sofrer?  Às vezes penso que eu gostaria de ser tão forte quanto as pessoas que vi chorando nessa semana. Gente que certamente em breve se lembrará das lágrimas que derramou e fará delas combustível para seguir adiante no novo mundo que se formou. Será que um dia eu consigo seguir adiante?





Return To Innocence – Enigma

23 07 2009
Não temos o controle sobre a dor que sentimos

Não temos o controle sobre a dor que sentimos

Continuo a semana falando de perdas. Ainda com a dor da morte na cabeça procuro seguir adiante no tema. A morte provavelmente é a perda mais traumática e a mais difícil de ser aceita, pois é a única que não tem volta. Todas as outras de uma maneira ou de outra podem ser revertidas até certo ponto. Conviver com a dor das perdas também é algo inevitável em nossa existência. Duro é encontrar a maneira correta de sobreviver a dor. Cada um cria sua forma e cada um sofre de um jeito.

Uma forma de atenuar o sofrimento por uma perda pode ser buscar dentro de si mesmo a força necessária. Eximir-se de culpa, aceitar o medo sem fazer dele um opressor. Aceitar-se como um ser humano normal que sofre como todos os outros. A música  Return To Innocence do projeto Enigma (clique aqui para ver o clipe), fala bastante nessa linha. “Não chore por ser fraco, não se orgulhe por ser forte”. Frases como essas me fazem pensar ser este o caminho mais calmo e real para agüentar toda a dor que paira sobre a gente.

O motivo que causa a dor pode ser diverso. Confesso que para o texto de hoje isso não importa. Importa é a forma como lidamos com isso. Não digo no momento inicial ou mesmo no instante máximo de dor. Mas sim depois que a crise inicial passa. No momento em que mesmo com a dor já temos que retomar as nossas idéias racionais.

Eu confesso que tenho dificuldade de lidar com algumas das dores que sinto. Provavelmente não tenha elaborado ainda o final do meu último namoro e nem sei quando isso vai acontecer ou se vai, mas isso não me impede de produzir, não chegou a me impedir de produzir nem mesmo no dia seguinte ao término. Conheço gente enterrou alguém especial de manhã e a tarde está trabalhando a toda no escritório como se nada tivesse acontecido. E também conheço gente que por queimar a resistência do chuveiro e ter que terminar um banho com água fria ficou uma semana toda fora do eixo.

Justamente nesse ponto penso na música que escolhi e no clipe da mesma. Tem horas em que é preciso fazer o caminho de voltar e realmente retornar a inocência, buscar o lado mais puro e honesto que possuímos para que tudo volte aos eixos o mais rápido possível. Admitir os pontos em que falhamos e entender que muita coisa está além do nosso controle. Aceitar essa imperfeição humana talvez seja o ponto mais duro. Mas sem aceitar isso se torna impossível aceitar qualquer perda, não somos imortais, não somos perfeitos e muito menos tão inteligentes como imaginamos. Somos apenas humanos que carregam em si milhares de qualidades e defeitos.

Como diz a música é preciso retornar a si mesmo para entender o que causa cada dor. Com isso em mãos, melhorar e buscar uma cura torna-se mais fácil. Eu sei que tenho ainda minhas curas, que algumas perdas ainda me incomodam. Diariamente eu me pergunto em que posso melhorar. Muitas vezes sublimo sim os medos que aparecem. Procuro crescer nesse ponto a cada dia. Procuro sempre voltar pra dentro de mim mesmo e ai ter forças para superar cada nova dor que surge.

Eu vi o sofrimento no rosto de algumas pessoas essa semana e confesso que isso me machucou muito. Espero que eles tenham força para seguir adiante. Foi uma perda forte, daquelas difíceis de se apagar. A única coisa que posso fazer hoje é oferecer meu ombro e meu apoio.Confesso que essa incapacidade também me incomoda. É duro aceitar que não podemos resolver os problemas que surgem diante dos nossos olhos e também dói saber que não podemos viver a dor do outro. Que essa dor seja breve.





Epitáfio – Titãs

21 07 2009
Que as pétalas aplaquem a dor da saudade

Que as pétalas aplaquem a dor da saudade

Hoje foi um dia triste, aliás, não foi, está sendo. Acabei de vir de uma cerimônia de cremação.  A morte de uma pessoa conhecida. Esse tipo de evento sempre choca e tira o ânimo. A dor da perda é sempre forte, principalmente para as pessoas mais próximas. Ver o sofrimento do outro hoje doeu muito em mim.

Desde que nascemos sabemos que a única certeza é a da morte. Desde que abrimos os olhos sabemos que um dia não mais perceberemos que o tempo passa. Eu particularmente encaro a minha morte como algo totalmente normal. Tenho uma relação dúbia com a vida. Porém, confesso que a dor do outro me incomoda muito. Ver alguém chorando por uma pessoa que partiu machuca.

Depois de deixar as pessoas que me acompanharam em parte do trajeto, vim para casa pensando. Eu iria falar nessa semana de preconceitos, tinha até bolado a sequência, mas confesso que o que vi hoje me fez mudar de idéia. A primeira música também foi até que óbvia. Confesso que fiquei com ela na cabeça. Sempre gostei dos Titãs e das mais recentes, Epitáfio (clique aqui para ver o clipe) é uma das que mais gosto.

Essa idéia de aproveitar melhor a vida, viver ao máximo é instigante. Confesso que pensei nisso durante todo o dia. Sempre me parece que a dor da separação está mais ligada a sensação de que não se viveu tudo o que se poderia ao lado da pessoa. Esse sentimento de perda não está só na morte, mas em tudo aquilo que nos é caro, seja um relacionamento, seja um emprego, seja uma idéia.

A dor é maior quando percebemos que nada mais pode ser feito. Tudo aquilo que foi pensado e planejado simplesmente é tirado da gente. E sem chance de retomar. Tem quem consiga levar isso de forma tão leve que não se abala com nada. Tem que se desmonte a cada derrota.

As pessoas que conseguem levar a vida as últimas conseqüências, procurando aproveitar todos os segundos e tirando o máximo de proveito de cada ação talvez sejam as mais corretas. Estas nunca poderão dizer que não aproveitaram ao máximo tudo o que viveram. Estes estão sempre prontos para a morte, porque buscam a intensidade na forma de viver.

Estas pessoas vistas por muitos como irresponsáveis, talvez estejam elevando ao máximo a sua responsabilidade. A responsabilidade que cada um carrega para com a própria existência. Justamente por isso assumem riscos, tudo em nome do prazer e de marcar a sua vida como algo positivo, independente do tempo em que ela dure.

Hoje, com a dor que eu estou sentindo, a única coisa que posso recomendar ao meus leitores é que procurem viver bem o tempo que possuem, procurem encontrar o prazer existente em tudo o que fazem. Deixe boas lembranças em quem convive com você e não deixe nada incompleto. É claro que quando você partir as pessoas vão chorar por você, mas se você fizer isso, o choro será um choro de saudade como o que vi hoje e não de desespero, medo ou ódio como vi em outras situações.

Rest in Peace.





The Invisible Man – Queen

19 07 2009
O inseto se aproveita da semelhança de cor e aparente textura entre ele e a folha para se proteger de predadores

O inseto se aproveita da semelhança de cor e aparente textura entre ele e a folha para se proteger de predadores

Todos temos nossos ídolos. Eu tenho vários, e essa semana tenho falado de alguns. Como gostaria de finalizar a semana falando do que mais me atrai, deixei Bates para o final. Ele de certa forma acabou se tornando o maior exemplo humano para mim. Fez o que tinha que ser feito, para os padrões de sua época tinha quase nenhum tipo de preconceito, falava com negros e índios numa época em que ambos eram considerados sub-raças pelos brancos europeus.

Darwin e em menor instância Wallace ficaram famosos pela teoria da Evolução usando seleção natural. Porém, os trabalhos de Bates com os insetos amazônicos foram fundamentais para que as idéias de Darwin se tornassem aceitas. E nem mesmo assim ele figura entre os mais famosos, até mesmo entre as pessoas da área. Na faculdade de Ciências Biológicas ouvimos sim falar de mimetismo, mas pouco ou nada ouvimos falar do homem que organizou o conceito a partir de suas observações.

Escolher a música pra servir de trilha hoje foi difícil, ficou horas fuçando na internet até achar alguma idéia legal. Ai acabo revisitando uma banda que gosto pra caramba. O Queen é uma das bandas de rock mais famosas de todos os tempos. Infelizmente acabou com a morte de Freddie Mercury, vitimado pelo HIV. The Invisible man (clique aqui para ver o clipe), é um rock gostoso de se ouvir o o clipe me remete também a minha infância (o vídeo game do garoto com certeza é um Atari), mas isso é papo para outra postagem.

Acho que vale a pena falar do que Bates descobriu. Coletando insetos na Amazônia, ele descobriu que animais de grupos diferentes eram muito parecidos entre si. E que sempre um dos grupos era venenoso, pouco palatável ou causava medo em possíveis predadores. Essa imitação ficou conhecida por mimetismo.

É claro que esse é um processo longo, nem vamos entrar no mérito de como isso acontece, mas vale a pena ressaltar que isso realmente é observável na natureza e ocorre. Vale também ressaltar que o nosso comportamento dentro da espécie também tende em muitos casos a ser mimético.

É comum imitarmos nossos ídolos, aliás, é por isso que os temos. É comum vestir algo que seja da moda, comer o que todo mundo próximo como, agir como um grupo, para ser reconhecido como parte dele e forçar a uma leitura prévia sem que seja preciso aproximação e conversa. É o que ocorre na natureza, seres imitam outros querendo passar a mensagem de que são como os imitados, venenosos, amargos ou poderosos, ou ainda, como no caso de uma aranha que imita uma flor, atrativos a ponto de enganar possíveis presas. Ou ainda, tornar-se invisível aos olhos, como sugere a música do Queen.

Essa descoberta foi algo super importante para a história da ciência que eu mais curto. Porém não é esse o motivo principal de Bates ser meu ídolo máximo. Gosto do Bates por, segundo seus biógrafos, ele ter sido um cara normal dentro de um meio onde sempre existiram pessoas afetadas e cheias de si.

Bates era comum, caminhava com os negros e índios, trabalhou numa fábrica antes de vir ao Brasil. Quando voltou para a Inglaterra teve um trabalho burocrático que lhe permitiu manter a sua família. E ainda fez descobertas, cerca de 8000 novos animais só na Amazônia e principalmente o mimetismo. Mesmo assim, nunca foi tão famoso a ponto de ser celebrado.

Com certo romantismo em minha fala, chego a vê-lo imitando o homem comum, passando praticamente invisível de toda a badalação de seus colegas mais famosos como Darwin e Wallace.

De certa forma eu procuro isso para minha vida, o prazer em fazer o que tenho que fazer, sem esperar reconhecimento e glória, apenas a satisfação por fazer bem feito. E principalmente tento ser gente comum, gente como a gente, alguém que se policia buscando expurgar todos os preconceitos que infelizmente ainda tenho.





Homeworld – Yes

16 07 2009
Kepler imaginou que encontraria a força divina em suas observações, mesmo a negação de suas crenças não o fez desistir

Kepler imaginou que encontraria a força divina em suas observações, mesmo a negação de suas crenças não o fez desistir

Finalmente vou poder fazer uso da minha banda predileta. Aquela que eu gosto de ouvir sempre que fico nervoso, irritado ou pensativo. A maioria das músicas do Yes, não possuem, digamos assim, um sentido muito claro para alguém declaradamente cético como eu. As músicas são em geral bastante pautadas em cima do fantástico, só falta citarem gnomos e fadas em versos soltos bastante Nova Era. Entretanto as melodias produzidas me fascinam. Gosto de ouvir mesmo. E justamente para o que eu quero falar hoje uma das músicas serve perfeitamente.

O personagem de hoje é Kepler, matemático e astrônomo/astrólogo alemão que viveu entre os séculos XVI e XVII. Ficou famoso por formular as 3 leis fundamentais da mecânica celeste. Sua história sempre me fascinou, a ponto de eu fazer dele um de meus ídolos. Isso, graças a forma como ele chegou em sua principal descoberta, a forma como ele viveu.

Justamente por isso Homeworld do Yes (clique aqui para ouvir a música). A letra fala da busca por uma luz verdadeira. Justamente uma busca parecida com a que Kepler teve. Eu, em brincadeiras com amigos comento que gosto do Kepler por ele ser o cara mais “zicado” da história da ciência. Pela versão de sua vida que eu ouvi de uma professora de física no colegial (hoje chamado ensino médio), Kepler foi alguém que sempre se deu mal em sua vida, mas nunca desistiu e até sua maior vitória lhe trouxe dor, pois derrubou aquilo que ele acreditava.

Kepler era um protestante que perdeu emprego num mundo onde católicos e protestantes brigavam. Perambulou até chegar a Tycho Brahe, uma pessoa que ele não gostava (segundo a versão que ouvi e agora repasso). Com a morte de Brahe, um exímio observador apesar de seu comportamento questionável, ele acabou recebendo seus dados e com as observações de Marte conseguiu perceber que a órbita desse planeta é uma elipse.

Ai está a grande perda de Kepler. Uma de suas frases é “Os céus contemplam a glória de Deus.” Ele acreditava cegamente que pelo fato da circunferência ser a forma geométrica perfeita, Deus só poderia fazer com que as órbitas de todos os planetas fossem também circunferências, pois seriam a representação da força divina.

Ainda pelo que conheço da história de Kepler, ele sofreu em diversas outras áreas de sua vida. Teve problemas de pele, sua mãe foi acusada de bruxaria e viu seus entes mais próximos morrerem, fora a perseguição religiosa que sofreu. Mesmo com tudo contra ele ainda conseguiu produzir muita coisa e seguir a sua vida.

Ter publicado seus dados mesmo sendo algo muito doloroso para si, pois mexia com aquilo que lhe era mais caro (sua crença), faz de Kepler um herói para mim. Ele entra no rol dos personagens estilo super-heróis antigos, que fazem as coisas que tem que ser feitas, independente sofrerem por isso. Essa postura é algo que eu busco, tento fazer aquilo que acredito ser certo, mesmo que respingue em mim, confesso que nem sempre consigo.

É claro que muitos biógrafos dizem que ele era uma pessoa de difícil trato, chato pra caramba pra ser mais honesto, que como professor era péssimo e talvez a perda do emprego por motivos religiosos tenha sido bom para seus alunos de matemática. Claro também que sou o oposto dele, eu sou cético e ele era um religioso fervoroso, além de acreditar na astrologia, algo que confesso não me atrai. É correto também, afirmar que em sua época todos os astrônomos eram também astrólogos e fazer previsões para os reis era uma de suas atribuições.

Porém, eu reitero o que já disse em outros posts, transformo em ídolos pessoas por pequenas coisas, cada um tem algo a ser visto com ótimos olhos. No caso de Kepler, o sentido de dever, algo que busco sempre conseguir. Continuo esperando os ídolos de vocês que visitam este blog. No domingo falarei de outro cientista.