O mesmo olhar – Suzana Félix

7 08 2009
Nesse campo cada uma das flores é de um jeito, mas todas ainda são flores, por que não agirmos assim com os humanos?

Nesse campo cada uma das flores é de um jeito, mas todas ainda são flores, por que não agirmos assim com os humanos?

Para este post precisei de ajuda, o blog da Lak serviu para que eu encontrasse subsídio técnico e também a música que serve para ilustrar o post. Falar das pessoas com deficiência no Brasil é falar de um grupo que a sociedade tenta esconder e fazer de conta que não existe. É falar de um grupo que raramente é tratado como merece. Afinal são pessoas como qualquer outra, diferindo por ter alguma deficiência facilmente observável. Eu sou daqueles que crê  que todo mundo possui em maior ou menor grau algum tipo de deficiência, visível ou não aos olhos dos outros.

Mas voltando a invisibilidade aparente, é estranho como a nossa sociedade parece ignorar os deficientes. A ausência de programas de acessibilidade se dá pelo fato de que pessoas não acreditam que eles existam, ou pior, acham que eles não deveriam sair de casa. Famílias com PcDs (pessoas com deficiência) sofrem da falta de estrutura e da cegueira social. Quando essa cegueira atinge também os familiares, torna-se quase impossível ao PcD conseguir uma vida minimamente normal.

A meu ver, o que torna as coisas complexas é que muita gente não aceita a possibilidade de (peço desculpas aos PcDs, mas vou usar os termos mais coloquiais para expressar o que penso) que um surdo apenas não ouve (nem vou discutir graus de deficiência), um cego apenas não vê, se alguém não tem uma perna pode muito bem fazer milhares de coisas. Deficientes mentais não são inúteis que devem ficar escondidos, aliás, pior é ver gente que acha que todo deficiente é mental.

A música selecionada foi indicada por uma leitora do blog da Lak. É da cantora portuguesa Susana Félix, para a associação Raríssimas. Se chama O mesmo olhar (clique aqui para ver o clipe). Fala de algo que eu acho ser o mais importante em relação a esse tipo de preconceito. A forma como olhamos os PcDs. É comum vermos essas pessoas tratadas como coitados, super protegidos e mesmo escondidos do convívio social. Quando alguém encontra qualquer PcD, a primeira palavra a ser dita em geral é coitado. Nem se sabe o motivo, mas a pessoa já é vista como alguém numa escala menor de habilidade e por isso coitado. Por mais genial, ativo e sociável que seja essa pessoa.

É difícil aceitar o diferente, e pior, é difícil aceitar que alguém que você acha inferior a você possa fazer coisas que você sequer imagine. Cria-se uma aura de eu sou melhor, de tal forma que não se aceita que aquele “menos habilidoso”produza mais do que você. E ai se repete o que citei para os negros, sem empregos, sem salários, sem acesso a educação, e isso até hoje, a transformação é lenta e morosa, mais do que para os negros.

A legislação diz que o acesso a educação deve ser universal, mas não oferece escolas. Uma grande amiga possui um filho autista, ele precisaria ficar o dia todo na escola, sendo estimulado, fazendo atividades, produzindo para aos poucos se encaixar. Escolas públicas assim não existem, e as particulares, são caras. Cadeirantes não freqüentam as aulas simplesmente porque as escolas não possuem rampas ou formas de acesso. Cegos não recebem apoio, nem material produzido em braile.

Como alguém vai lutar em igualdade de condições assim? Mesmo aqueles com maior possibilidade e estrutura familiar, com acesso a educação de qualidade, sofrem preconceitos de possíveis empregadores. Dependendo muitas vezes de cotas (e salários menores) para conseguir algum tipo de emprego.

Até hoje não consigo entender o que uma cadeira de rodas atrapalha alguém que trabalha o dia todo sentado, ou o que a falta de audição atrapalha na produção de um ilustrador. Talvez o que atrapalhe seja o medo das pessoas ditas “normais” serem superadas por pessoas que eles julgam incapazes.

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5 responses

8 08 2009
Dona

Uma vez me peguei pensando porque aqui na Alemanha eu vejo mais deficientes e estava pensando se aqui existem mais… então cheguei à conclusão de que aqui eles saem mais às ruas (bem pavimentadas, limpas, seguras…). Uma amiga nossa também tem uma filha autista e fiquei surpresa ao saber que a prefeitura paga até o taxi (ela não tem carro, só vai de bicicleta aos lugares que precisa, mas aqui, por lei, é proibido carregar alguém na garupa) pra buscar e trazer a menina pra casa. Ah: também pagam terapias diferenciadas. Uma vez por semana a menina vai cavalgar, como parte de sua terapia.
Aqui os impostos são altíssimos, mas pelo menos a gente vê que é bem usado… seria tão bom que no Brasil fosse assim.

8 08 2009
olharesdispersos

Flor, aqui infelizmente pagamos muito imposto e temos pouco retorno, nosso estado é muito caro.

Sobre as PcDs, simplesmente ai não sentem vergonha deles. No geral países que passaram por guerras se acostumaram a conviver com mutilados, talvez isso torne o preconceito menor, pois aquele mutilado pode ter sido um herói local.

8 08 2009
Lak

Uma amiga, fisioterapeuta – ela mesma, não tem deficiência nenhuma – sugeriu ao Boninho colocar um cadeirante no BBB, que seria uma ótima maneira do Brasil ver como uma pessoa com deficiência é tão real quanto qualquer outra.
As alegações pra “nem pensar”:
– A casa não é adaptada (como se fosse difícil fazer isso, né?)
– Todos os concorrentes tem que ter a mesma chance (só não disse se um cadeirante teria mais ou menos ou por quê)
– O telespectador não está preparado (uai, não é assim que se prepara?).

Mas, tudo bem, a Aline Moraes vai viver uma tetraplegica na próxima novela das 20hs!!

hehehe a gente engatinha, rala os joelhos, mas chega lá.
Beijoquinhas

9 08 2009
kelly

Olha essa questao do preconceito ao deficiente é tão visivel e fechamos tanto os olhos pra isso, porem ha um aspecto positivo: hj em dia, na cidade de sp, ha passeatas, oficians de teatro, grupos alternativos para ddeficientes fisicos aque batalham por suas ideologias e isso eh lindo, no fundo, esse preconceito imundo é o que os move.

bjitos

http://www.pequenosdeleites.blogspot.com

9 08 2009
Fabíola

Amigo, adoooorei o post e você sabe porque e você fechou com chave de ouro.
” Talvez o que atrapalhe seja o medo das pessoas ditas “normais” serem superadas por pessoas que eles julgam incapazes.”

sem comentários.

:*




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