Sobre o Tempo – Pato Fu

22 11 2009

Eu devia ter dito que ela estava realmente linda...

“Tempo, tempo, tempo mano velho” Este trecho da música do Pato Fu chamada Sobre o Tempo, é o resumo dessas minhas últimas semanas. Eu sempre briguei com o tempo, ele sempre foi meu inimigo máximo. Na maioria das vezes ele passa devagar demais, ou pelo menos da forma errada no tempo errado. Coisas que deveriam durar uma eternidade acabam durando segundos.

O tempo nessa semana voou enquanto eu tentava dormir, demorou a passar quando eu tive coisas chatas e situações complicadas, se evaporou quando eu precisava terminar algo em pouco tempo e congelou quando eu precisei esperar o tempo necessário para fazer algumas coisas. Eu sei que isso acontece com todo mundo, todo mundo vez ou outra reclama das mesmas coisas que eu, só mudam as ações que levam a reclamação.

Na verdade, só me lembro de uma pessoa que conheci e que fazia questão de dizer que o tempo sempre passou na velocidade certa, a gente é que tem que se acostumar com ele. A frase extremamente sábia eu ouvi de um pescador que saia todos os dias pro mar com seu barco na Ilha Grande, encontrei-o duas vezes em visitas que fiz à ilha. Gente boníssima, saia pela praia distribuindo os peixes que pegava em excesso e sabia que iam estragar, nós que acampávamos por ali adorávamos esse acréscimo em nossa refeição. Aqui vale um bom adendo, finalmente comecei a ler O Velho e o Mar do Hemingway. Peguei emprestado e acho que vou curtir muito o livro.

Mas voltando ao tempo, a forma como ele atua em cada um de nós a cada instante é extremamente irritante. Ainda mais quando existe uma diferença clara de expectativas em relação ao que vai se passar naquele momento. É como dar aulas pra uma turma, você num ritmo alucinante, e os alunos achando tudo aquilo lento e maçante, não encaixa e não funciona pra nenhum dos lados.

Ontem, especificamente ontem eu briguei com o tempo. Reclamei dele de forma rabugenta. Vivi momentos em que eu queria que ele passasse mais devagar e momentos em que sonhava com a ampulheta extremamente veloz que foram separados por segundos, milissegundos. Até entendo que algumas limitações pessoais tornaram essas brigas mais fortes do que realmente deveriam ser, mas foi o que senti.

Primeiro o lado da pressa, fiquei feliz com meus alunos, o que eles produziram foi de qualidade, mas confesso que ficar o dia todo (principalmente durante a manhã) num lugar extremamente lotado me fez um mal tremendo. Não reclamo do trabalho, eu até curto, o que não curto é passar mal por besteiras como essa, quem sabe me livro disso em breve.

O lado oposto tem muito a ver com minha timidez. Eu uma vez pensei em escrever versos falando da minha relação com o tempo (na verdade eu vou fazer isso, apenas agora preciso estudar mais o assunto). Um dos pontos que mais me intriga é algo que eu costumo chamar de tempo exato. Algumas coisas possuem o momento exato para serem feitas e vividas. Se um segundo antes atrapalham tudo e nada funciona a contento, se um segundo depois perdem a força e podem soar até de forma ofensiva e jocosa.

Passei pela perda do momento exato ontem, senti isso de forma bem próxima. De início, vi alguém que merecia um elogio e fiquei com uma baita vergonha de fazê-lo, primeiro porque eu não queria dizer que a pessoa estava bonita ontem, mas sim que ontem ela estava mais bonita que de costume, apesar de ser já muito bonita. E queria fazer isso de forma leve, sem parecer cantada barata. Pensei, pensei, pensei e acabei nem fazendo isso, perdi o momento. E tive sim meus momentos pra isso. Aliás, em certo momento até estive a sós com a pessoa, mas por timidez o papo não fluiu, fiquei sem saber o que falar e nem consegui caminhar na direção desejada, como dito posts atrás, entender e conhecer melhor alguém que me gera curiosidade (quem é eu não cito o nome nem adianta perguntarem, talvez a pessoa até saiba que é ela, enfim tempo ao tempo…rs).

Aliás nesse momento, que eu queria até certo ponto que fosse mais longo (principalmente se eu tivesse aberto a boca como imaginado), pareceu extremamente imenso quando percebi que parecia ser inconveniente naquele momento. Ai as pessoas se afastam. E o tempo que eu queria que durasse muito, acabou parecendo longo demais.

É com essa dualidade que não sei lidar, com o jogo que envolve o outro, com a forma como a expectativa do outro altera a minha noção temporal, ainda mais quando não consigo fazer uma leitura clara da outra parte. Conheço gente que lê as pessoas como lêem um livro estilo Fogo no Céu ou o Rabo do Gato, livrinhos infantis com poucas frases, utilizados para alfabetização. Por outro lado, eu faço parte daqueles que encontram na leitura das pessoas a mesma facilidade que teria ao ler Ulysses do James Joyce numa versão em aramaico ou russo.

Quem sabe um dia eu aprenda. Quem sabe eu consiga também aprender a manusear de forma correta o tempo, e pare de perder estes instantes decisivos (justo eu que me considero um fotógrafo razoável perco instantes decisivos). Quem sabe eu aprenda que a ter o timing, faça o tempo realmente correr macio e ser um amigo legal pra mim, parando de reclamar.

E você? Reclama muito do tempo? Quais as suas grandes reclamações temporais? Aguardo seu comentário.

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One response

13 01 2010
Solange

Gostei muito deste tópico…parabéns pelo blog também. É de grande sensibilidade… O tempo é mesmo nossa maior dificuldade. E quantas vezes não experimentamos essa sensação do tempo desperdiçado, do não feito??? Suas palavras me acertaram em cheio, havia justamente postado no orkut este trecho de Fernando Pessoa:” Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” tenho pensado muito no tempo perdido, que escorre entre os dedos, nas oportunidades desperdiçadas e na rotina que escraviza. Como bem escreveu Clarice :” Eu mesma me surpreendo ao perceber quantas horas por ano tenho para gastar.Capacito-me de que na realidade tenho mais tempo do que penso – e isso significa que vivo mais do que imaginei. Isso se fizermos as contas das horas do dia, da semana, do mês, do ano.Quem fez o cálculo foi um inglês, não sei seu nome.Um ano tem 365 dias – ou sejam, 8.760 horas. Não é enganoso não, são oito mil setecentas e sessenta horas.Deduzam-se oito horas por dia de sono. Agora deduzam-se cinco dias de trabalho por semana, a oito horas por dia, Durante 49 semanas (descontando férias e feriados). Deduza duas horas diárias empregadas em condução, para quem mora longe do trabalho.
Nessa base sobram-lhe 1930 horas por ano. Mil novecentos e trinta horas para se fazer o que quiser, ou puder.
A vida é mais longa do que a fazemos. Cada instante conta.” Clarice Lispector
Parabéns e muita sorte e realização neste ano que desponta.
Sol




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