Cotidiano – Chico Buarque

28 11 2009

entender e ajudar a minimizar a dor do outro deveria ser algo extremamente simples e comum, pena que não é...

Como eu havia prometido, começo agora a dissecar um pouco os personagens do livro “Uma Longa Queda” de Nick Hornby. Repito que adorei o livro e recomendo a leitura, me fez pensar num monte de coisas diferentes. Me fez entender e talvez me ajude a elaborar algumas de minhas neuras e o que é melhor, fez isso me divertindo. Fazendo meu cérebro trabalhar.

Aliás, falando nesse tema, fazer o cérebro trabalhar, escolhi pra começar a personagem aparentemente mais frágil do grupo dos suicidas. Maureen, mãe solteira de uma criança portadora de deficiência, o livro não deixa claro qual, mas sabe-se que seu filho não interage com o mundo ao seu redor. A dor que ela sente me remete até certo modo a uma música do Chico Buarque, Cotidiano (clique no nome da música para assistir a um vídeo dele cantando a música).

Apesar de a música falar da mulher sentir certa alegria em todo dia repetir as ações com e para o seu homem (sem discussões sobre machismo, ok? O assunto é outro), nem todo mundo se sente bem com essa falta de mudanças e perspectivas. Maureen se sente mal com o que vive. Não aguenta mais dedicar todo o seu tempo aos cuidados de Matt, seu filho. Não aguenta mais perceber que não vive mais sua vida, não faz nada e nem vê a possibilidade de voltar a fazer. Quantas vezes não nos sentimos presos dessa forma? Quantas vezes parecemos escravos do cotidiano fechado que nos cerca.

Acordar cedo, correr para o trabalho, ao fim do dia correr para a faculdade, chegar em casa cansado e adormecer para repetir tudo no dia seguinte, chega-se ao final de semana e é hora de limpar e arrumar a casa, ir ao mercado, fazer o que ficou pra trás durante a semana. Tudo é feito quase mecanicamente. Bem vindo a vida moderna diriam alguns, mas será que isso tudo é necessário? Conheço um número relativamente grande de pessoas que se sente oprimida o suficiente para se queixar de sua agenda e alguns até poderiam mesmo se matar pela forma como são oprimidos diariamente pelas obrigações. Falta tempo para conseguir ser quem realmente se é.

Até poderia dizer algo sobre falta um culto ao ócio ou algo do gênero, mas não é isso, muitas vezes a falta de atividade pode ser tão dolorosa quanto o excesso de atividade. O desemprego causa suicídios, causa desgosto e muitas vezes sair de uma situação dessas é muito mais difícil do que se pensa.

Nesse ponto Maureen acaba atuando como a voz mais forte de uma multidão insatisfeita com a própria vida. Alguns podem simplesmente dizer, mude sua vida e siga adiante, pare de encher a paciência. A questão é que muitas vezes não se sabe como fazer isso, ou não é possível mudar. Maureen mudou de alguma forma, não conto como foi para que você não desista de ler o (ótimo) livro.

Eu tentei me colocar no lugar dela. Confesso que parte da dor dela acaba sendo minha também, mas em outra instância. Algumas coisas eu poderia e deveria fazer de modo diferente, outras acredito mesmo ser esta maneira repetitiva a melhor possível e até a maneira necessária. Por outro lado, a ignorância (aqui no sentido de ignorar, desconhecer) de Maureen para alguns temas óbvios, me deixou extremamente pensativo.

Fiquei um tempão pensando nisso. O tamanho do mundo de uma pessoa varia de acordo com o que ela vive. Seus sonhos e desejos provavelmente vão ser limitados pelo tamanho de seu mundo. Como o mundo de Maureen era extremamente pequeno se comparado aos outros suicidas, seus desejos mais fortes pareciam bobeira aos olhos dos demais, só que para ela eram algo extremamente importante e forte.

Tentando chegar um pouco mais fundo nessa linha, como cada pessoa conhece e vive coisas diferentes, cada um possui um mundo diferente do outro. Os desejos de um, nesse caso, podem parecer extremamente ridículos e simples para o outro e vice-versa. Ai meu lado mais humanista e Pollyana (sim eu li Pollyana e Pollyana moça, mas não espalhem, por favor) me diz que o correto seria um ajudar o outro a chegar aos seus sonhos e resolver seus problemas, é bem mais fácil resolver a dor do outro do que a sua. O que pega é que infelizmente não é dessa forma que agimos, assim, diariamente mais e mais Maureens se suicidam, eu posso falar por mim, já pensei nisso algumas vezes e por motivos que a grande maioria das pessoas acharia banal.

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2 responses

28 11 2009
Dona Flor

Eu adorei esse livro do Nick Hornby. Já li quatro livros dele, mas esse é imbatível. Também gostei do Slam!
Acho que a vida cotidiana pode mesmo nos tornar prisioneiros de uma vida sem grandes perspectivas ou esperanças. Quando a gente para de sonhar e de esperar algo melhor, é o fim. Acho que Maureen estava nessa… a vida dela era totalmente insípida, sofrida e ela não via um modo de mudar isso.
Assisti ontem de novo um filme assim, o Revolucionary Road (com Leonardo Di Caprio, infelizmente não sei o nome em português). Pude sentir o vazio da personagem principal…

29 11 2009
Marcelo Grazzini

Realmente o cotidiano é sufocante. É mais complicado ainda quando não conseguimos enxergar algo de bom nele, ou seja, usar o nosso lado Pollyana (não li o livro). Penso que muitas vezes mudamos quem somos para nos adaptar a um determinado cotidiano (trabalho, família, etc.) e isso, além de difícil, mexe com nossa identidade, com quem somos. Fazemos isso por conta de alguma esperança que temos… quando isso não é mais possível, a esperança vira desespero.




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