Early to Bed – Morphine

30 11 2009

O urubu-rei pode até ser rei, mas nunca deve esquecer que antes de tudo é um urubu

 

Hoje continuo falando do livro do Nick Hornby. Continuo falando dos personagens principais, da forma como eles foram parar no topo do edifício e de como isso pode a meu ver se refletir em mim e até em outras pessoas. O nome de hoje é Martin Short. Homem famoso, bem sucedido, pai de duas filhas, casado, apresentador de TV, figura para lá de pública. Tinha tudo para ter uma vida boa e tranqüila até que jogou tudo pela janela.

Não agüentou as investidas de uma menina de 15 anos, foi pra cama com ela e nessa mesma cama deixou toda a sua vida. E segundo falas do personagem, apenas por sexo. Não existia nenhum tipo de sentimento, apenas desejo e tesão. Martin perdeu emprego, amigos, família, foi preso e nem podia sair às ruas após, alvo que era de olhares e comentários das pessoas.

Fico imaginando o personagem caminhando por Londres ao som de alguma das músicas da banda que acho que melhor traduz o livro, Morphine. Um grupo norte-americano formado por bateria, baixo de duas cordas e sax, sem guitarra que infelizmente terminou em 1999 com a morte do band leader Mark Sandman num palco em Roma, vítima de infarto fulminante. Vasculhando as músicas da banda (que voltará nos demais personagens daqui pra frente), encontrei uma que acho que traduz bem isso Early to Bed (clique no nome da música para ver um clipe), que diz que dormir e acordar cedo limita a vida noturna das pessoas, limita a vida social, limita a própria pessoa a um microverso onde a companhia acaba sendo a tela da TV.

No fundo isso realmente aconteceu com Martin e provavelmente o peso disso tudo é que fez com que ele tivesse a idéia de se matar. Entretanto, é nesse ponto que vale a pena começar a brincadeira com as palavras. Uma análise mais rápida pode nos levar a um caminho mais rápido e simplista. Ele cometeu um erro e merece pagar, ele é o único culpado por seus atos. Até certo ponto isso é verdade, mas e o julgamento do crime? Até falei sobre o tema neste post de maio. Temos pesos e medidas diferentes para cada pessoa.

Talvez Martin tenha sofrido um pouco disso, o peso do julgamento me pareceu muito mais forte do que seria se ele fosse uma pessoa comum e desconhecida. É claro que isso não apaga a canalhice que ele cometeu. Pensando ainda nessa linha, talvez o fato dele não ser alguém comum também tenha criado em sua cabeça a falsa aura de proteção para qualquer ato imbecil que ele viesse a cometer.

Procurando ser mais claro. É comum vermos pessoas com algum tipo de pequeno poder, e ai chamo de pequeno poder coisas simples como um chefe de setor, um recém-promovido, uma pessoa desejada por várias outras, um aluno popular, um cantor de bairro, até os extremamente populares. Em uma ou outra instância, aliás, todo mundo é poderoso em algum ponto. O que pode causar problema é esse poder se tornar mais forte do que a razão, e a pessoa faz uso desse poder como se ele fosse uma capa protetora que o livrasse de qualquer besteira.

Quando a pessoa percebe que não possui esse poder todo, ou em alguns casos a importância que acredita ter naquele pequeno círculo, seu mundo cai. Tudo parece desabar e a sensação de desespero pode ser fatal. Procurando me colocar no lugar do Martin, provavelmente não seriam as perdas que me fariam querer pular do prédio, mas sim a descoberta de que depois de tantos anos me enganando eu não era nem 10% do que acredita ser. Era tudo uma fantasia criada por meia dúzia de bajuladores e principalmente pela cabeça do personagem.

Afinal, sejamos honestos. Temos orgulho das coisas que fazemos. As pequenas conquistas e muitas vezes gostamos de ser reconhecidos pelas nossas vitórias ou ações que acreditamos ser importantes. O problema muitas vezes está em reconhecer que essas situações só são verdadeiramente importantes para nós. Todo o resto do universo segue seu curso sem se importar muito com o que fazemos. Recolher-se a própria insignificância é algo extremamente difícil.

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