O Homem é esperto, mas a morte é mais – Ira

30 12 2009

Fugir é mais corajoso do que fazer o outro pagar por seus erros

Teve gente que me perguntou porque eu estava demorando tanto pra escrever. A bem da verdade era pra este ser meu último texto, mas algumas coisas (in)felizmente mudaram. Continuo falando da minha visão a partir da observação dos personagens de Watchmen. Hoje é a vez de Ozymandias, o tal homem mais inteligente do mundo. Enquanto escrevo, três músicas tocam alternadamente e uma delas dá nome ao post. O homem é esperto mas a morte é mais do Ira (clique para ver e ouvir), Trip at the brain do Suicidal Tendencies (clique para ver e ouvir) e a bastante divertida e mordaz(quase virou título do tópico) Elza dos Mulheres Negras (clique para ver e ouvir).

Tendo largado a vida heróica antes da proibição governamental e sendo extremamente rico, Adrian Veidt sempre se vendeu como o homem mais inteligente do mundo, com total controle do seu corpo era tão veloz que conseguiu até pegar balas com as mãos. Uma figura estranha e bastante manipuladora. No fundo Adrian é o grande vilão da história, vai aos poucos caçando (e desacreditando) aqueles que ele julga poderem atrapalhar seu plano de “salvamento” do mundo.

Para ele, desastres globais fariam o homem deixar suas diferenças de lado e levariam ao fim das guerras, no caso da história, a Guerra Fria seria findada e o mundo entraria num período de paz. Mas a que custo? Ao custo de milhares de vidas que nem saberiam o que estava acontecendo, tudo porque Adrian Veidt acreditava ser este o caminho.

Por acaso a sua forma de ação acaba funcionando, pelo menos até certo ponto, e isso até onde a história termina. O leitor é levado à dúvida pela cena final. Mas confesso que isso não importa. A análise que quero fazer aqui é outra. Quero levar a discussão para a pressunção de Veidt. Ele realmente acredita poder decidir por todo o mundo o que é certo e o que é errado. E nesse ponto consegue ser mais insensível que o Dr. Manhattan. Sua verdade está acima da verdade de todos os outros porque ele é mais inteligente do que todos os outros e ele carregará o fardo da escolha que não disponibilizou a mais ninguém.

Em uma escala menor, quantas vezes não agimos de forma parecida e a meu ver covarde? Quantas vezes não acreditamos que a nossa visão sobre determinado tema é a correta e o mundo todo deve acatar isso sem questionamento algum? Não sei se enxergo isso como prepotência ou covardia. Provavelmente um pouco dos dois e recheado com bastante medo, medo de ouvir uma opinião diferente da nossa num assunto que diga respeito a mais pessoas.

Porque falar disso agora? Eu sinceramente tinha em minha cabeça a idéia de me matar agora na virada do ano. Sem motivo especial para escolha da data mas com motivos pessoais mil pra encerrar uma situação que me incomoda a muito tempo. Vendo Ozymandias sacrificar outras pessoas ao invés de resolver o problema da forma mais honesta me pareceu covardia. Se ele (assim como eu) não se acostuma e nem gosta do mundo em que está inserido mas percebe que as pessoas ao seu redor gostam, quem deve se retirar do mundo? As pessoas que gostam dele? Óbvio que não.

Já deve ter dado pra perceber nos diversos posts desse blog que eu não consigo me sentir a vontade aqui. E confesso que não culpo ninguém por isso. O problema é apenas meu, o lugar não me agrada eu deveria ter o direito de me retirar dele e deixar espaço pra quem se sente confortável e adora isso aqui. Afinal as escolhas deveriam ser sempre pessoais. No meu caso, pelo menos por enquanto tenho que abortar o projeto, algumas pessoas precisam de mim nesse momento e simplesmente não posso cair fora como gostaria. O jeito é tentar me incomodar o mínimo possível com a forma como esse mundo e eu nos relacionamos. Depois de quase 35 anos, acho pouco provável começar a apreciar a vida de forma plena como vejo a maioria das pessoas fazendo, então é fazer o que deve ser feito da melhor maneira possível enquanto o tempo passa.

Aqui vale retornar ao pensamento maluco do Adrian Veidt. Ele escolheu um modelo, acreditava que poderia ser até maior do que ele e de certa forma foi a única pessoa com quem se relacionou. Eu não sou nem tão pirado e muito menos tão “inteligente” quanto Ozymandias, me relaciono com mais gente, interajo mais, só não me sinto feliz com isso. Poucas vezes fui feliz, pra ser bem honesto.

Talvez a nossa maior diferença seja o fato de que eu não consiga ver as pessoas de cima (e nem poderia fazer isso, sou como qualquer um). Esse achar-se superior a mim parece mais uma defesa do que realidade. Uma forma de fugir do seu verdadeiro mundo é tentar controlar o mundo dos outros, não aceitando as falhas que se tem e muito menos reconhecendo os diversos erros que cometemos.

O problema maior é conviver com a nossa pequenez diante de tudo o que nos cerca. Situações corriqueiras nos mostram que simplesmente aquela situação não é para nós e o máximo que podemos fazer é sairmos da situação ou aceitarmos o meio e apesar de toda dor sentida continuarmos existindo dentro desse mundo. Cada um faz as suas opções. Eu tive que refazer as minhas.





Who Wants to Live Forever – Queen

23 12 2009

não adianta ver uma bela paisagem é preciso saber senti-la, e isso infelizmente é mais difícil do que parece

Hoje é dia de falar do único personagem da história que realmente tem superpoderes, o dr. Manhattan. Um físico fica preso dentro de uma máquina que não pode ser desligada e seu corpo é destruído. Tempos depois ele reaparece como um ser com o poder de controlar os átomos, alguém que pode fazer praticamente qualquer coisa.

Nessa realidade alternativa, a presença do Dr. Manhattan faz com que a Guerra do Vietnã seja vencida pelos americanos, que Nixon seja reeleito e se torne uma espécie de herói popular, a Guerra Fria alcança níveis terríveis e a antiga U.R.S.S não invadiu o Afeganistão. Com todo esse poder geopolítico em suas mão, entretanto, o personagem em questão parece cada vez mais alheio a esse mundo onde está inserido. Aliás a cada momento ele parece cada vez menos humano.

Tendo conhecimento sobre seu futuro, ele simplesmente ignora o que acontece ao seu redor. Sentimentos, pessoas, sensações não passam de fatos diante dos seus olhos. Ele enxerga tudo como átomos interagindo, apenas isso. É imortal e me fica a pergunta, será que ele quer isso ou se toca a respeito disso? Por isso a música do Queen, who wants to live forever (clique aqui para ver o clipe) faz parte da trilha de Highlander, um filme que traz homens que são imortais a menos que lhes arranquem as cabeças.

Dr. Manhattan não corre nem esse risco. Na verdade, acredito que mesmo que corresse não faria diferença alguma. Essa sua postura meio autista em relação a tudo o que o cerca, essa sua visão limitada a aquilo que ele quer e consegue perceber e entender não é algo totalmente estranho ao ser humano. Eu mesmo já me peguei diversas vezes fugindo do mundo que me cerca, tendo uma visão totalmente limitada sobre o que acontece e acreditando que aquilo que eu via era o suficiente para entender e viver bem no mundo em que estou.

Aliás, acho que isso acontece comigo o tempo todo. Tenho uma visão muito pessoal e particular da vida e muitas vezes acabo, como o Dr. Manhattan, me fechando dentro desse pequeno universo particular e deixando de lado sensações e emoções simplesmente por não entendê-las de forma clara e coerente. Faço das minhas limitações um recurso para isolar-me ainda mais do resto. Não tenho uma “Silk Spectre” ao meu lado para magoar com minha postura muitas vezes absurda. Mas convivo com pessoas e estas pessoas acabam vendo-se afastadas de mim, ou pelo menos de aspectos importantes de minha vida simplesmente pelo meu jeito peculiar de ser e agir.

O padrão de comportamento robótico, ou multifuncional como sou chamado pela psicóloga…rs é real e é a forma mais segura que eu encontrei para não sucumbir a loucura e tornar-me um Comediante, mas eu estou longe de ser um Dr. Manhattan, não tenho saberes e nem poderes que me tornem acima ou mesmo capaz de estar realmente isolado e a parte do resto da população.

Sei de diversas outras pessoas que também são assim, presas em seu mundo, sem conseguir perceber coisas simples que se situam ao alcance de seus olhos. Gente que como eu não consegue ainda entender o que está fazendo neste planeta, gente que vive e faz aquilo que acha certo dentro do seu padrão, sem entender os padrões e funcionamento dos outros. Gente que parece não ter sentimento algum. Mas que infelizmente chora e muito por não entender os sentimentos mais simples que tem.

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Jokerman – Bob Dylan

21 12 2009

As vezes só uma piada nos mantém a sanidade

 

Continuando a saga dos Watchmen, hoje falo do Comediante, Eddie Blake com certeza é o personagem que melhor encarna a preocupação da população que picha paredes com a frase Who Watches the Watchmen (traduzindo como algo parecido com quem vigia os vigilantes). Até a escolha de seu codinome é ácida. O tal senso de humor desse comediante é corrosivo e perigoso. A forma como ele vê o mundo funciona como uma caricatura de tudo o que acontece.

Partindo para uma linha mais popular de quadrinhos, alguns aspectos do Comediante lembram o Batman pós Cavaleiro das Trevas (lançado no mesmo ano, 1986). Uma tentativa de tentar criar um tipo de entretenimento mais adulto. O Comediante tem um quê de Batman e um quê de Coringa. O sarcasmo é forte, o riso apocalíptico escondido em seus comentários lembra bastante o palhaço do crime. A trilha sonora escolhida segue essa linha. O bardo Bob Dylan cantando Jokerman (clique aqui para ver e ouvir). Os versos parecem traduzir a mente tortuosa do Comediante. Alguém que conhece tão bem o lado obscuro da alma humana que se vale do sarcasmo para manter o que lhe resta de sanidade.

O único momento em que ele parece sucumbir ao peso que carrega e ao olhar questionador que tem do mundo. Quando visita seu antigo inimigo Moloch. O seu choro sincero e o aparente desespero (mais visíveis nos quadrinhos do que no filme) o tornam mais real e factível. Não diria mais humano, porque encaro o seu sarcasmo violento como uma leitura totalmente humana e válida da sociedade.

Ao rir da sociedade doente, o Comediante não está fazendo nada diferente do que fazer uma análise crítica também do mundo em que nós vivemos. Uma sociedade em que notícias como essa (clique para ler) aparecem. Alguém é atacado numa livraria sem qualquer motivo e sem ter tempo algum para reagir. Coisas de um mundo doente que me fazem acreditar mesmo que momentaneamente, numa frase do Comediante: “Nós os protegemos deles mesmos.”

Entrei em férias a poucos dias e tirando a minha famosa fobia social do centro da conversa, caminhei por alguns locais perto de casa. Fui ao mercado para ser mais exato. No caminho, fui hostilizado devido a camisa que eu vestia. E vendo o rosto das pessoas, percebia-se o medo estampado em alguns e o desejo de violência em outros, esperando que eu respondesse algo para que existisse na mente tacanha de alguns, motivo suficiente para se iniciar uma briga.

É nesse mundo pesado que estamos inseridos. Vale a pena viver nele? Esse é um questionamento maluco, mas que merece ser feito. Vale a pena existir num lugar assim tão opressivo? Vale a pena cuidar de um grupo para que ele não se mate? Vale a pena investir nosso esforço nisso?

A sensação que muitas vezes tenho é a de que só sendo meio pirado como o Comediante é para conseguir manter-se minimamente tranqüilo nessa nossa realidade torpe. Você tem que fazer aquilo que tem que ser feito e não se envolver emocionalmente com nada. Você observa gente que poderia fazer (falo de uma cena específica da história, quando você ver vai se lembrar) acaba se omitindo por motivos diversos.

Eu nesse contexto me sinto um completo inútil e assumo que não gosto de viver num lugar como esse. As opções pra pessoas que pensam como eu são duas. Desistir e abraçar o suicídio (ou a vida suicida que o Comediante de certa forma adotou) ou tentar mudar, o problema é descobrir como mudar  e principalmente o pior é descobrir que a maioria não quer que nada muda.





The Sound of Silence – Simon & Garfunkel

20 12 2009

Quando o som do silêncio nos traz medo e desespero é sinal de que o limite está chegando

Hora de buscar outras fontes pra escrever. Infelizmente acabou a sequência em cima do Uma Longa Queda do Nick Hornby. Agora as ideias estão fluindo a partir de uma história em quadrinhos que virou filme. Eu adoro quadrinhos, acho uma linguagem super divertida. E como gosto de ver filmes, quando juntam as duas linguagens geralmente procuro saber qual foi o resultado final.

Só consegui assistir Watchmen hoje, e isso porque o final já saiu em DVD a um certo tempo (quase um mês). Eu adorei a história criada por Alan Moore, junto com Sandman e talvez Hellblazer é o que eu já li de mais interessante no universo dos quadrinhos. Confesso que fiquei com medo do filme. Fiquei imaginando se iriam dar uma pasteurizada nos personagens, tirar muito peso da história ou se a mesma perderia a magia ao mudar de mídia.

O bom disso é que o resultado foi em grande parte satisfatório, gostei tanto que pretendo usar o filme e os quadrinhos pra mais uma sequência de posts aqui no blog. Começo de onde terminei a sequência anterior. O tema suicídio e morte ainda vai pairar por aqui um tempo. Talvez por ser um tema que me chame bastante a atenção, talvez pela insuspeita falta de criatividade que surge em alguns momentos na criatividade de qualquer pessoa.

Para começar, escolhi uma das músicas da trilha sonora, a música que toca durante o enterro do Comediante Sound of Silence de Simon & Garfunkel (clique aqui para ver um clipe da música). Aqui já surge algo divertido, durante o filme, a versão que toca é a original da dupla dos anos 60/70, mas no Youtube você vê e ouve a versão de uma banda de Death Metal chamada Atrocity (clique para ver essa versão) com várias cenas do filme. Vale ouvir as duas e comparar, gostei das duas.

Apesar de ter citado a morte do Comediante, não é ele que começa essa série. Prefiro primeiro dar uma geral sobre como enxergo essa história. Situando o povo, numa realidade alternativa onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Nixon não passou pelo Watergate, tendo se mantido popular como presidente até 1985 pelo menos, ano em que a maior parte da história se passa.

Existe um cenário bastante apocalíptico, com a Guerra Fria chegando ao limite máximo e o medo rondando a população. Nesse mundo, os heróis são seres comuns, sem super poderes, inicialmente policiais mascarados que faziam uso desse artefato para caçar os bandidos que se mascaravam para não serem reconhecidos. Depois surgiu uma nova geração de heróis que aparentemente se divertia com isso. Porém, a população pediu o fim desses heróis e o presidente assinou um decreto onde todos foram proibidos de agir.

Três deles mantiveram suas atividades. O Comediante, que trabalhava para o governo, o Dr. Manhattan, único com super poderes e no caso dele poderes praticamente divinos, também trabalhando para o governo e Rorschach que se manteve o tempo todo no submundo.

Viver nesse sistema é complicado. Todos os personagens parecem oprimidos. Todo mundo parece a beira da loucura, a população parece precisar ser protegida dela mesma. É como se todo mundo estivesse esperando a morte chegar de alguma forma e procurando levar as sensações sempre ao extremo e sempre da pior forma possível. Essa loucura e medo fazem você esperar uma morte a todo instante. A mensagem mais clara de toda a história é a de que não existe esperança. Justamente o que a meu ver é o suficiente para fazer com que alguém se mate. Por outro lado, essa sociedade doente não é muito diferente da que vivemos hoje, talvez a grande diferença seja a possibilidade de sonhos que ainda nos mantém vivos. Quando os sonhos deixam de existir, o peso da realidade cai nos ombros e o som do silêncio nos leva a perceber que a morte pode sim ser um caminho razoável.





Cure for Pain – Morphine

18 12 2009

O caminho mais seguro é sempre o que leva em consideração o que a gente sente

 

Hoje é dia de terminar a minha sequência de posts sobre o livro Uma Longa Queda do Nick Hornby (de novo eu recomendo fortemente a leitura deste livro). É hora de falar do JJ. Talvez o personagem que mais tenha a ver comigo em suas crises existenciais. Eu diria que em diversos aspectos eu e ele temos graus de loucura parecidos. Ambos caminhamos um bom tempo por ai buscando a cura para a dor. Uma dor mental que acaba se tornando física.

A trilha sonora, é claro continua sendo Morphine e mais óbvia impossível, Cure for Pain (clique para ver e ouvir). Posso também afirmar que este post tem uma ligação forte com o anterior onde usei uma música do Jethro Tull (clique para ler o post anterior) para fazer uma homenagem para alguém que realmente tem me encantado como pessoa. O Mark Sandman sempre fazia uma homenagem ao público na abertura e nas músicas que considerava especiais em seus shows, eu de certa forma fiz isso.

Primeiro a homenagem, agora o texto. JJ é um músico americano que viu sua vida mudar totalmente de uma hora para outra sem aparentemente grande influência sua. Sua banda que tinha fãs e algum sucesso de crítica implodiu, perdeu sua namorada e num país distante se viu trabalhando como entregador de pizza. Tudo o que ele fazia ruiu de uma hora para outra. O que mais chama a atenção aqui é o fato de que claramente ele sofre mais a perda da parceria que tinha na banda do que a perda da namorada, porém, uma frase que ouviu de sua namorada parece ser o grande motivo de sua tristeza e descaso com a própria vida.

JJ se considera músico. É alguém que tem algum talento e alguém que gosta de cultura, lê muito, ouve muita coisa, aparentemente gosta muito de arte e não é alienado (fato raro, geralmente os norte-americanos são vistos como alienados e os europeus mais culturais, isso em filmes e livros, não conheço norte-americanos e europeus bem o suficiente pra ter uma opinião consistente sobre o tema. JJ é aquele cara que aparentemente tem tudo pra dar certo e por algum motivo alguma coisa não dá certo. Essa é a primeira impressão.

Procurando adentrar um pouco mais no universo do personagem algumas coisas ficam claras e ai é que eu me encontro totalmente com JJ. Primeiro ele me parece ter dificuldade com algumas leituras de outras pessoas. Nesse ponto eu sou mais analfabeto emocional do que ele, mas digamos que em alguns casos ele conseguiu ser tão raso quanto eu na informação que coletou. Outro defeito que ambos partilhamos é o de sempre achar que a culpa por algo não funcionar é nossa e ainda nessa linha, ao inferir qualquer coisa sempre acreditar que das possibilidades existentes quando algo não está exatamente em nossas mãos, é sempre a pior que vai acontecer.

Essa falta de auto-estima me mata tanto quanto quase mata o personagem e mata tanta gente por ai. Não é achar que o mundo todo existe contra você. Muito pelo contrário, a sensação é outra. É a de que você não faz parte do mundo. Você é o errado e por isso as coisas não funcionam.  Esse tipo de pensamento parece imbecil, até certo modo é imbecil, mas sejamos sinceros, muita gente se sente assim. Eu assumo, me sinto assim o tempo todo. Parece que a culpa é sempre minha.

Nessa linha, a dor de se manter vivo parece imensa. Porque as vitórias acabam funcionando apenas como obrigação, você faz bem feito e pronto, o resultado está ai. Se algo não funciona a contento, a culpa é sempre sua. Morphine mandou bem na letra. É preciso achar a cura para a dor, seja qual for a dor que se sinta.

Tem outro ponto em JJ que me fez pensar muito na vida que levo. JJ em momento algum canta para o grupo, toca ou compõe, ele parece brigado com a música. Porém, ele nunca deixou de ser o músico que é. Antes de se considerar qualquer coisa, ele é um músico. Eu falei bem por cima disso no texto homenagem. Homenageei alguém que é sem precisar mostrar nada a ninguém. Eu muitas vezes me pergunto se deixo minha essência tão clara quanto a pessoa homenageada e JJ deixam.

Um lado interessante está além da qualidade. JJ é músico mesmo que não tenha a qualidade e o carisma de um mega astro, ele é quem é, não precisa sonhar em ser John Lennon. Eu, bem ou mal, me considero um artista, um poeta (não sonho em ser Drummond, mas quero ser eu mesmo) e um fotógrafo (que não quer ser o Ansel Adams). Preciso entender que eu sou apenas eu. No que isso tem de bom ou de ruim.

Até acredito que JJ tinha sim motivos convincentes para se matar. Se a coisa está ruim, essa seria uma mudança bastante radical, mas uma mudança. Não sei se eu fugi de mim mesmo de forma semelhante a ele. Espero que não, mas também me sinto muitas vezes oprimido, sozinho e perdido. A solidão vem do fato de eu simplesmente não conseguir ler e ser lido nesse mundo que me cerca. E ai falo não dos meus textos (tá eu confesso que adoro ler os comentários de quem visita este espaço), mas sim falo dos sentimentos que eu deveria sentir e entender.





Too Old To Rock’n roll Too Young To Die – Jethro Tull

15 12 2009

A calma e a perseverança que nos levam a sempre fazer o que a gente faz da melhor maneira possível

Mudo hoje o tema para um breve texto. Sei que ainda falta fazer o texto do JJ pra fechar a série sobre o livro Uma Longa Queda. Só que hoje me deu vontade de fazer um post diferente, sobre outro livro que li e de certa forma também uma breve homenagem a quem me emprestou esse livro.

Terminei nesse final de semana a leitura de O Velho e o Mar do Hemingway, a melhor definição que eu tenho sobre esse livro é a de que foi uma leitura especial, providenciada por alguém também especial. Alguns detalhes do livro me fizeram pensar no livro do Hornby que estou citando no blog e também na pessoa que me emprestou o livro. A história do velho pescador pra mim tem uma trilha sonora fácil, nem é o chavão clássico de se utilizar algo gravado por músicos cubanos, principalmente os que participaram do filme Buena Vista Social Club. Eu confesso que sou mais rock (apesar de adorar esse filme e esses músicos). Escolhi Jethro Tull, uma banda de rock progressivo que adoro e a música Too Old To Rocknroll Too Young To Die (clique para ver o clipe).

Como relacionar a aventura de um velho e pobre pescador, com uma música do Jethro Tull e com uma de certa forma homenagem a alguém que eu acho legal? Tudo pode parecer confuso, mas possui a sua lógica. Primeiro porque eu recomendo fortemente 3 coisas, ler este livro, ouvir esta música e banda e conhecer essa pessoa. Não que isso seja razão suficiente para um post, na verdade não é mesmo, mas já serve de início pra minha escrita.

Vale lembrar alguns fatos do texto de Hemingway. O pescador perde seu ajudante por estar a vários dias sem conseguir pescar nada. O jovem o adora, mas sua família o obriga a ir com outro pescador, isso, no entanto, não diminui o entusiasmo e nem o respeito sentidos pelo jovem com seu primeiro mestre. O pescador, mesmo velho, castigado pelo tempo e sem sorte, parte todo dia. Reconhece sua sorte e mesmo assim nunca desiste de tentar o melhor. Sua luta com o gigantesco peixe e com os tubarões o faz ir até seus limites e mesmo assim ele não desiste. Ao retornar, exausto, age como se apenas tivesse sido mais um dia comum.

A música do Jethro Tull fala um pouco da passagem do tempo, de como é difícil encarar a realidade. O tempo passa para todo mundo, mesmo que tentemos esquecer ou fugir disso, o tempo passa. Como passou para o velho pescador. Porém, mesmo assim, ele nunca deixou de ser quem é, de acreditar e ser quem ele realmente é. Você pode até sentir-se velho para o que fazia com vigor antes, mas deve lembrar-se que ainda está jovem para morrer, na verdade deve apenas diminuir o ritmo e se adequar a sua realidade. Eu gostaria de poder me dar tão bem com o tempo como o velho pescador, mas confesso que o tempo é provavelmente meu maior inimigo. Vez por outra falo disso por aqui. Quem sabe um dia essa briga não tem um vencedor.

E quem me proporcionou essa leitura? O que tem a ver com o livro? Muita coisa. Primeiro o fato de ser uma pessoa extremamente humana e até certo ponto transparente, o que é extremamente raro nos dias de hoje. Todos temos dias de bom e mau humor, aceitar isso é simplesmente aceitar-se humano, aceitar-se como realmente se é. Algo que eu confesso, gostaria de fazer com mais facilidade do que faço hoje. Eu seria alguém mais tranquilo se soubesse me comunicar com um olhar ou um sorriso, da mesma forma que essa pessoa faz.

O pescador também se preocupa muito com a qualidade daquilo que faz, irritar-se com falhas no processo as vezes parece medo, eu enxergo isso como responsabilidade. Quem não se chateia quando algo foge do controle? Eu, dentro de uma linha de raciocínio pessoal, acabo me preocupando demais com possíveis soluções ou porquês que geralmente me esqueço de perceber aquilo que sinto. Ai está mais uma coisa para aprender.

Ainda poderia dizer muito mais, como o fato de não precisar mostrar ter conhecimento, somente ser o que se sabe, assim como o pescador, ou mesmo, a força pra continuar sempre tentando pescar o enorme peixe, mas ai vai parecer excesso de rasgação de seda…rs

Também não quero apagar tudo sobre o livro do Hornby, JJ de certa forma acaba aparecendo um pouco aqui também, mas isso fica pra um próximo post.

Sobre a música, bom a pessoa ainda está extremamente jovem e pode curtir o rock e está a anos luz de ter idade pra morrer.





Buena – Morphine

13 12 2009

A capa do meu livro talvez seja a maior expressão dos meus fantasmas exteriores, ao menos ao meu alcance

Chegou a vez da Jess, talvez a personagem mais engraçada da história toda. Uma típica adolescente dos filmes americanos que mostram jovens desajustados. Relacionamentos tortuosos, drogas, sexo, falta de sentido na vida e alguma busca por algum prazer irreal. Esse seria um bom resumo da Jess, faltando, é claro, citar que ela é filha do ministro da educação britânico, ou seja, chama, mesmo que não queira, os holofotes para si.

Menina que cresceu com vários demônios internos após o sumiço da sua irmã mais velha. Jess encontrou no desajuste uma forma mais fácil de se fazer percebida por seus pais e em menor escala por ela mesma como parte do mundo. Ao som de Buena (clique para ver o clipe), som do Morphine como a música escolhida para o post do Martin, consigo visualizar Jess caminhando por ai com seu demônio interior e o apresentando a todo mundo que ela conhece com a maior serenidade que um ato como esse pode ter.

Não vou falar dos desajustes da garota, nem vale a pena. Acho que o melhor agora é elocubrar sobre o que a levou a subir ao edifício, e ai nem falo dos fatos, mas das sensações envolvidas no processo todo. Os demônios interiores que cada um de nós vivemos carregando por toda a nossa vida.

Jess tem o fantasma de sua irmã pairando sobre ela e sua família. Nunca digeriu o sumiço de alguém que de certa forma dava equilíbrio a sua vida familiar. Dissecando a maluca inglesa eu fico pensando nos meus demônios, nas perdas que tive, não aquelas pequenas perdas diárias que temos todos os dias e no fundo nem deveriam contar como algo que altere o nosso humor, mas sim as grandes perdas. Aquelas que nos marcam profundamente, gerando cicatrizes bastante aparentes, ou, em casos mais graves, feridas que nunca se fecham.

Essas feridas profundas fazem com que a gente não consiga mais raciocinar direito, e de certa forma fazem com que o nosso comportamento todo mude em função das perdas. Esses demônios internos demoram a ser exorcizados. Infelizmente alguns deles persistem por toda a vida. Imagine o que é para um pai viver com a lembrança da morte de uma filha num acidente doméstico que ele poderia ter evitado? Ou uma criança que nunca brincadeira banal acaba causando feridas graves a um amigo? Difícil viver com essa carga. É claro que esses são casos extremos de culpa, mas servem para exemplificar bem o que eu penso.

Entretanto, vejo meus demônios de um jeito diferente. Seria uma enorme mentira minha sair por ai falando que adoro a vida e tudo mais. Tenho demônios demais pra isso. Só que, eu não quero de maneira alguma me tornar um demônio na vida de outras pessoas. Provavelmente é isso que me mantém vivo. A total falta de sanidade e o medo de fazer com que outras pessoas sintam as mesmas sensações tristes e pesadas que eu sinto são o combustível mais real e funcional que eu tenho pra não passar do suicídio teórico ao prático.

A culpa que as pessoas erroneamente carregariam pelos meus atos poderia gerar uma grande reação em cadeia. Por mais que se diga que a culpa nunca é de quem ficou, mas sim de quem partiu, dificilmente as pessoas conseguem se isolar dessa sensação. Nesse sentido, o suicídio acaba sendo algo extremamente irresponsável. Não vou me alongar muito nesse tema, porque quero voltar a falar disso depois do post do JJ que será o próximo, mas ainda quero falar bastante disso até o final desse ano.