Final Eyes – Yes

10 01 2010

Nunca seremos livres porque a liberdade plena nos amedronta

Umas quase férias de fim de ano, pouca gente pela internet, resolve dar um tempo nos textos. Hoje eu retorno falando de mais um personagem de Watchmen. Falo hoje da Silk Spectre, uma personagem a meu ver bastante interessante. Praticamente forçada a se fazer heroína pela mãe, nunca curtiu a ideia de sair por ai com roupas provocantes batendo em bandidos. Acabou se tornando namorada do ser mais poderoso do planeta e relegou-se a esse papel por um longo período de sua vida.

Inicialmente podemos imaginar uma discussão sobre a visão e o papel da mulher. Visto que ela é a única heroína dessa fase da história. Numa fase anterior tinham mais, sua mãe e até uma heroína que foi assassinada por ser lésbica (Silhouette). A primeira Silk Spectre é tão singular quanto a filha. Entrou na vida de heroína pela fama e glamour. Foi uma garçonete que mudou de vida. Apaixonou-se por um homem que tentou estuprá-la (e foi o pai de sua filha). Acabou casando-se com seu agente quando se aposentou da vida heróica.

Quando penso nas duas, a canção Final Eyes do Yes (clique para ouvir) me vem a cabeça. Sempre imagino, principalmente a segunda Silk Spectre cantando essa música. Na sua busca por uma vida simples comum e lógica. Apesar da música falar de um mundo equilibrado, de certa forma pregar troca positiva entre os seres de ambos os sexos, um aprendizado constante (e nessa parte eu acho que tem tudo a ver com a segunda Silk), vejo as duas heroínas como um subproduto submisso de uma visão machista da sociedade.

A primeira viveu sonhando com o sucesso e curtiu ter sido vista como mulher objeto. Seu amor pelo Comediante que tentou violentá-la é algo também marcante. A segunda, filha da primeira e do Comediante, é totalmente levada pela história. Totalmente submissa, virou heroína porque a mão definiu. Abandonou a carreira depois que se casou com o homem mais poderoso do mundo e viveu a sua sombra, sem vontades, sem desejos, sem intencionalidade.

Apenas quando se rebela e acaba tendo um envolvimento com Nite Owl é que aparece algum traço de poder de decisão em suas ações. Somente alguém tão inseguro quanto Dan Dreiberg pra fazer aflorar algum mínimo de esforço em ação dela. Na verdade, raros são os momentos em que ela apresenta algum resquício de vida. Parece sempre morta, um boneco nas mãos dos outros. Alguém que demora para se reencontrar.

Outra coisa que me chamou a atenção é a ausência de personagens femininos fortes, as duas Silk Spectre são bastante interessantes, mas nenhuma das duas tem força. Silhouette que é citada rapidamente aparece apenas pra mostrar a cultura altamente conservadora do povo retratado, sendo morta por sua orientação sexual. Aliás, Ozymandias em vários momentos aparenta uma figura andrógina, em alguns momentos parece homossexual, tudo de forma extremamente velada, como se fosse para levantar mesmo a questão do tabu nessa sociedade.

Penso que muitas vezes o nosso mundo é mais conservador e preconceituoso do que deveria. Os papéis muitas vezes são extremamente bem marcados. De certa forma para sair da fantasia imposta pela sociedade a cada grupo que se faz parte, precisamos de um esforço tremendo, super-humano. Homens fazem A, mulheres fazem B, pessoas que moram no bairro tal fazem C, torcedores do time tal fazem D. Tudo parece um script escrito a tempos e decorado por todos, sendo passado de geração em geração como um ritual mágico.

Dentro desse sistema, infelizmente se torna difícil realmente viver. Agimos como bonecos pré programados. Robôs com uma curta autonomia na programação. Quando alguém foge dos padrões esperados chama a atenção bem mais do que deveria e invariavelmente de forma muito mais depreciativa do que positiva. Temos medo do diferente e por mais que busquemos mudanças em nosso modo de ver e agir, essas mudanças devem estar previstas nesse sistema pré-determinado. Os limites são mais claros e fortes do que imaginamos. Nos iludimos ao dizer que somos livres porque em nossa vida, toda liberdade é relativa.

No fundo, a ideia de uma vida simples, de um jeito simples onde se dá um passo de cada vez é o ideal que todos esperam encontrar. E no fundo, é justamente disso que fugimos, ninguém quer ver-se preso, mas ninguém realmente sabe ser livre. É duro viver assim. Por vezes vejo que não consigo me situar nesse universo dessa forma. E você? Até que ponto é livre? Até que ponto consegue fugir dos estereótipos comuns que a sociedade nos prega? Consegue ser feliz dentro desse sistema?

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One response

13 01 2010
Dona Flor

Nossa… Watchmen ainda está na minha “to see list”… uma hora eu chego nele! Tenho uma lista de documentários e outros filmes ainda pra ver, mas seus posts me encheram de curiosidade!

E a frase “Nos iludimos ao dizer que somos livres porque em nossa vida, toda liberdade é relativa.” tem tudo a ver com meu modo de pensar agora. Já fui mais radical, preto ou branco, mas estou descobrindo os tons de cinza… é a idade e a maturidade chegando! =)

Beijos




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