Long Long Journey – Enya

21 01 2010

Hora de parar de chorar e tentar mudar esse mundo que eu odeio

Para encerrar as minhas impresses sobre Watchmen, vale a pena falar do meu herói favorito na história. Nite Owl, na pele de Dan Dreiberg, é o personagem que mais me agrada, principalmente pela fragilidade. Confesso que fiquei pensando no que escrever sobre o personagem, em que música utilizar. Acabei optando por uma música da Enya Long Long Journey (clique para ouvir). Ando bastante triste e queria também demonstrar isso, até porque o personagem tem uma tristeza parecida com a minha.

Dan Dreiberg herdou uma fortuna de seus pais e usou seu conhecimento para criar um maquinário baseado nas corujas para combater o crime. Com a proibição ele abandonou a vida heróica e pela forma como se apresenta, abandonou a própria vida. Não se matou, mas estagnou, seu único compromisso era o de visitar o primeiro Nite Owl uma vez por semana.

Muitas vezes penso que minha vida travou em alguns pontos como o de Dan Dreiberg. Na verdade a vida de todo mundo trava em alguns pontos, mas aqui estou para escrever de semelhanças minhas. Eu também sou fanático por corujas. No tempo da faculdade era notório o fascínio que esses animais de sistema sensorial fantástico despertavam (e despertam) em mim. Sou talvez mais tímido do que o Nite Owl e também alguém que tem um gosto latente pela ciência e de certa forma se refugia em alguns tipos de conhecimento.

Isso me ligou bastante ao personagem, tanto no filme quanto na primeira vez que li a história na minha adolescência, época em que minha adoração pelas corujas era mais evidente (não maior). O jeito triste e resignado, a necessidade de sempre agradar ao próximo de forma quase subserviente e a falta de grandes sonhos são outras características marcantes do personagem que talvez eu tenha também.

O fato mais interessante é que Dan Dreiberg só se sentia realizado vestindo uniforme e saindo a caça de criminosos. Era seu momento. As vezes penso que tenho que encontrar o meu momento. Conheço e vejo muita gente assim. Gente que como eu vive, faz as coisas que tem que fazer, mas nunca encontra esse momento, essa fagulha que faz com que tudo pareça interessante mesmo que o mundo esteja acabando diante dos seus olhos.

Aliás, essa busca por prazer é a grande busca humana. Encontrar aquilo que nos faça realmente felizes, aquilo que nos mantém vivos além de todas as conquistas. Pode ser ver o sol nascer, ter um filho, casar-se, ter um grande amor, fazer uma viagem. Cada um tem a sua motivação, por mais simples que possa parecer aos olhos de outrem, cada um sabe o que sente.

Este é, inclusive, um ponto que merece uma breve discussão. Nessa semana ouvi uma pessoa me dizer que tenho medo e sou mimado. Palavras ditas numa conversa em que eu disse de que forma encaro a vida. Pra mim ela não é realmente tudo isso. De início confesso que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Depois resolvi realmente pensar sobre o assunto (até por isso atrasei este texto) e tirei algumas conclusões. Discordo totalmente do mimado, o medroso aceito sob alguns aspectos.

Eu tenho medo sim, muito medo de assumir algumas coisas que deveria assumir. Deveria sim deixar mais claro aquilo que penso. Devo ir atrás dos meus sonhos, por mais absurdos que eles sejam. Eu acho mesmo esse nosso planeta podre, acho sim que nós seres humanos não valemos nada e o que tenho feito pra mudar isso? Pouco, muito pouco.

Eu dou aulas, ensino jovens, mas será que estou fazendo isso direito? Será que o que eu transmito a esses jovens os faz pessoas melhores? Provavelmente as aulas sirvam mais ao meu bolso do que a uma real mudança no lugar onde eu vivo. Fora do ambiente de trabalho, vivo, vejo e convivo com gente extremamente medíocre. A maioria das pessoas querem apenas o seu bem estar. Reclamam do que lhes faz mal, mas esquecem que seus atos acabam prejudicando também os outros.

Eu confesso tenho medo dessa gente. Tenho muito medo também de muita gente que trabalha comigo. Tenho paúra da grande maioria das pessoas e sou obrigado ainda a assumir que por vezes tenho medo de perder algumas pessoas que eu sei que nada valem. Pessoas que ligam pra você apenas quando é necessário, quando o calo aperta, mas quando você precisa de um sorriso que seja, está pedindo demais. Pessoas assim, aliás somos todos nós. A humanidade é assim. Eu não consigo me acostumar com isso. Sei que por vezes devo ser assim, mas isso me incomoda e muito.

Por isso, a tal bronca talvez consiga algum efeito e eu mude. Vá atrás do sonho máximo que é viver como se deve. Tentar transformar esse mundo cão nessa viagem longa, muito longa. Eu sei que vou morrer, mas que morra fazendo algo que eu realmente acredite. Que eu faça isso até cansar e quando cansar pare de reclamar da possibilidade da morte. Aliás morrer tentando criar um lugar em que eu acredite não será má ideia.

Que todos sejamos como Nite Owl, encontremos nosso caminho e sigamos por ele até o fim, de forma honesta e verdade com a única pessoa que importa. Nós mesmo.

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24 01 2010
Solange

Em Korczak, filme sobre o pedagogo H. Goldszmit, o mesmo deixa evidente sua opnião de que apenas nas crianças a “humanidade” pode ser encontrada, capturada e preservada ( por um curto tempo) intacta e ilesa…” Talvez fosse melhor mudar os costumes do mundo e tornar nosso habitat mais hospitaleiro à dignidade humana, de modo que amadurecer não exija o comprometimento da humanidade de uma criança”. Concordo com Rubem Alves e Edward Eastlin Cummings , poeta norte-americano disse que “mundos melhores não são feitos ; eles nascem” Nascem de onde? O amor é o único poder de onde as coisas nascem… É isso que eu procuro como educador: desejo ensinar o amor. Se não amarmos a natureza não existe a menor possibilidade de que ela venha a ser preservada…Não me entusiasma, no momento, o aumento do conhecimento. Já conhecemos demais, muito mais do que usamos… O que nos falta não é conhecimento. É amor. Por isso sou educador. Quero companheiros na tarefa de plantar árvores e construir balanços…
Por isso sou educadora. Tenho a ambição de melhorar o mundo.
Solange




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