Samba do Approach – Zeca Baleiro e Zeca Pagodinho

25 04 2010

As aves apesar de possuirem belas vozes demoram gerações para criar pequenas alterações em sua linguagem, nós fazemos isso a todo momento, para o bem e para o mal.

Ouço diariamente gente reclamando das palavras que acabam chegando em nossa língua nessa pós modernidade. Um aportuguesamento de expressões de outros idiomas aparentemente sem muito critério. Alguns creditam isso a uma necessidade de parecer chic falar outro idioma. Outros dizem que isso é normal, se preocupar com isso é preciosismo.

O que eu penso? Me apego apenas ao valor da língua, servir de aparato para a comunicação entre as pessoas. Pessoas de um mesmo grupo social (aqui falo de país) deveriam fazer uso da mesma estrutura linguística. As mudanças vão ocorrer enquanto a língua existir, algumas não pegam (ainda bem) como o imexível cunhado nos tempos do Collor pelo então Ministro Magri. Outros neologismos, entretanto, caíram no gosto popular, como deletar.

Estou longe de ser um professor Pasquale, aliás, nem dessa área eu sou. Considero-me apenas um usuário meia-boca da nossa língua. Cometo vários erros, mais do que gostaria. Mas gosto de brincar com a nossa língua, acho que ela tem um valor emocional tremenda e sou dos que acredita que o acordo ortográfico pode sim ser bom para todos os países de língua portuguesa.

Diminuir as pequenas diferenças ortográficas tornaria muito mais barata a produção de material escrito nas 7 nações, o mesmo livro poderia ser comercializado em qualquer local e mesmo programas de computador não precisariam mais ter a opção português brasileiro ou português de Portugal. Confesso que com um pouco de boa vontade dá pra entender facilmente as duas versões da língua. As diferenças nem são tão grandes assim.

Sobre as diferenças eu as vejo como pequenas variações locais e dialetos específicos. Eu como biólogo, uso uma série de expressões vinculadas a minha formação. Advogados possuem uma linguagem própria, assim como engenheiros, arquitetos, jogadores de futebol, e por ai vai. Cada tribo cria suas expressões como forma de identificação do grupo.

E assim as variações surgem em bairros, cidades, regiões. Era de se esperar que surgissem também de país pra país. O importante é perceber que não existe um jeito certo e um jeito errado. No fundo, o que vale é o que é considerado correto pela maioria. Não só na escrita padrão como também na inclusão de novas palavras.

Zeca Baleiro de certa forma brincou com isso na música Samba do Approach (clique para ver). Várias expressões estrangeiras, usadas de maneira desenfreada em nossa língua, fazem a graça da música. O questionamento a se fazer é estas expressões são necessárias? Com certeza não, mas se a maioria das pessoas passar a fazer uso delas. Logo elas estarão em nossos dicionários (até acho que algumas delas já estão).

Nessa linha eu chego ao internetês. Confesso que não gosto da linguagem que uma parte dos jovens fazem uso. É um tal de miguxo pra cá, fofuxa pra lá, vc pra um lado, tb para o outro. Enquanto as contrações e palavras estranhas ficam apenas nos chats e programas tudo bem, o problema é ver que esta forma de escrita está chegando a qualquer texto produzido, mesmo que não estimulemos isso.

Essa linguagem virtual pode sim trocar com a linguagem dita oficial, e isso é aceito e natural. O que, entretanto, acontece atualmente é uma ruptura grosseira e de apenas parte de um grupo. Sempre existiu uma linguagem dos jovens, cheia de gírias que variaram de período para período. O problema, é que raramente essa linguagem chegava a formas oficiais de comunicação. As palavras criadas, quando adicionadas a língua, sempre seguiam os padrões vigentes. O que se busca agora, nessa nova escrita é justamente mudar os padrões vigentes de escrita. De uma maneira até certo ponto radical.

Reitero o que disse antes. A língua deve servir pra comunicar, e de preferência de maneira clara e eficiente. O duro dessas contrações e expressões é que elas a meu ver repetem os mesmos problemas de comunicação como ocorre com LIBRAS, por exemplo. Você reduz tanto as formas de comunicação que faltam expressões dentro das regras que se criam. Assim ao invés de facilitar a comunicação. Algumas variações na língua dificultam muito mais do que facilitam aquilo que propõem, que é a comunicação clara entre os homens. Será que as mudanças na língua podem torná-la menos variada e capaz de gerar comunicação?

Fico imaginado poemas e músicas escritos com essa forma corrida e veloz de se comunicar. Fico imaginando romances produzidos nessa matriz. Tudo para consumo imediato e veloz, sem nuances e profundidade. Não vejo o estrangeirismo como problema e sim a perda de expressividade com as constantes contrações na escrita.

I vc ki axa?

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Fake Plastic Trees – Radiohead

18 04 2010

estar tão longe de casa faz todo o entorno parecer de plástico...

No último post eu comentei da força do twitter (que confesso preciso usar mais) e outros grupos sociais que faço uso (preciso aprender a usar de forma correta o facebook). Tudo em nome da comunicação rápida e precisa entre as pessoas. Na lista esqueci de falar de uma rede social bem divertida e que eu faço parte, o Skoob uma rede social que tem a leitura em sua base, gosto também do Last FM, que usa músicas, mas o problema do last FM é não ter achada um aplicativo bom pra blackberry, facilitaria muito atualizar meu perfil, eu raramente escuto música no PC.

Deixo de lado, entretanto as redes sociais para falar de outro aspecto da comunicação, aliás para falar da própria base da comunicação que é a linguagem. Existem diversas formas de se comunicar, sinais, desenhos, letras, signos diversos que podem ou não ser compreendidos por todo mundo. A língua, é claro, acaba sendo o principal modo de comunicação.

As pessoas se agrupam e se reconhecem pela língua. Já ouvi histórias de colegas no exterior. Pessoas que em algumas situações do nada ouviram um som peculiar, a língua falada aqui no Brasil, com sotaque de gente daqui e ficou desesperado pra saber de onde vinha o som. E quando encontraram brasileiros, sentiram-se como se tivessem encontrados irmãos. Uma sensação de proteção e proximidade estranha, mas compreensível. Afinal, se você era de São Paulo, o interior do Maranhão vai parecer muito mais próximo a você do que as pessoas que passam apressadas falando uma língua estranha em Praga.

Outro fator interessante dessa linha é que no geral as saudades se tornam parecidas. É o feijão, aquela música que você odiava e de repente passa a ser menos ruim, ela passa a ter um quê de saudade. E te reconforta ouvir. Se você odiava novela, ver uma cena tipicamente brasileira na TV vira algo que te aproxime do seu povo. E nessa, se formam grupos. As pessoas vão se juntando onde se encontram. Viram amigos, parentes, conselheiros.

Aqui em São Paulo temos um bairro japonês, um bairro coreano, comunidades judaicas, árabes, de diversas nações. Diferentemente de ser uma forma de segregação, já que salvo raros casos estas pessoas não se isolam do resto da sociedade.  Estes bairros funcionam como um refúgio, onde cada um pode encontrar um pouco de sua origem, falar a sua língua, cultivar as suas brincadeiras, sua música, sua comida e os seus. É uma forma de manter-se ainda parte do país de origem. O pior é quando nos sentimos assim incomunicáveis mesmo em nosso país, nossa cidade e em nosso grupo. Isso é comum e infelizmente dói mais ainda.

Imagino como deve ser duro sentir-se separado de tudo aquilo que lhe é mais caro. Ver-se sozinho num lugar onde as coisas até podem parecer ter algum sentido, mas infelizmente não são do jeito que seu povo faria ou que sua crença pede que seja feito. A Alegoria que faço disso é a de um animal preso num zoológico, ele está bem alimentado, tem certo espaço, até certo tipo de liberdade. Mas aquilo tudo que o cerca no fundo é falso. Não lhe pertence, as pedras do recinto não são iguais as da lagoa, as plantas não são as mesmas. A cor do céu é diferente e até os medos e riscos fazem falta.

Eu de certa forma me sinto um pouco assim perdido, os motivos são outros, mas entendo quando as coisas não parecem fazer sentido onde você está. A música Fake Plastic Trees do Radiohead (clique para ouvir) mostra como essas sensações falsas nos incomodam. Tudo parece falso, as flores não tem mais perfume e vivemos numa jaula que na verdade nos protege, pois tudo aquilo que está do lado de fora das grades, na verdade não nos pertence, não somos parte daquilo que vemos.Ai está uma música tão forte pra mim quanto o filme Rain Man

E a solução é prender-se aos pontos positivos do passado. Numa atitude meio autista e protetora. Onde se busca ouvir uma voz interna que fale a sua língua. Algo que se comunique com seu íntimo. Afinal, quem nunca se emocionou ao ouvir uma voz amiga num momento de solidão e desespero? Você sabe onde encontrar essas vozes? Sente falta delas?





Virtual Insanity – Jamiroquai

11 04 2010

Vivemos como se cada uma dessas flores só soubesse da existência das outras duas pelo mundo virtual

Nesses tempos de força das redes sociais virtuais, acabamos nos encantando cada vez mais por autores diversos, alguns desconhecidos, outros famosos que se colocam de forma cada vez mais próxima da de um ser humano normal. E mais engraçado do que isso. Cada vez mais nos sentimos próximos de gente que provavelmente nunca vamos ver ao vivo. Ou ainda nos apaixonamos por coisas que lemos mais do que por coisas que vivemos, ou no caso convivemos.

Falo isso pensando no twitter, ferramenta bastante interessante, eu confesso que uso o meu basicamente pra 4 coisas, divulgar meu blog, desabafar, encontrar descontos em coisas que quero comprar e encontrar rapidamente notícias de assuntos de meu interesse, a saber, esportes, ciência, música e quando tenho que ir pra Sampa, trânsito. Porém, confesso que tenho obtido outras diversões com o passarinho azul.

Sigo também pessoas, alguns amigos, outras pessoas influentes e gente que me segue também. Nessa troca de seguidores, me espanta o quanto conseguimos conhecer de pessoas próximas com pequenos textos de 140 caracteres. Eu normalmente até que me exponho bastante aqui, mas falo de pessoas que no dia a dia não se expõem tanto. Existem nesse caso, como em qualquer situação como essa, coisas que nos aproximam e coisas que nos fazem querer distância das pessoas. A exposição excessiva em muitos casos acaba sendo negativa.

Entretanto, quero me prender a outro aspecto. Quando passamos a admirar pessoas por sua humanidade. Eu sigo pessoas que se mostram muito mais humanas no microblog do que em outras oportunidades de contato. Gente que apresenta medos e falhas, alegrias simples e inteligência divertida e elevada a ponto de se tornar apaixonante. Gente que me cativa nos pequenos comentários que faz.

Penso agora nesse mundo virtual, loucamente virtual. Os contatos acabam sendo mais próximos com gente que está a continentes de distância do que com as pessoas mais próximas. A solidão se amplia cada vez mais nos grandes centros, onde existem milhares de pessoas reclamando do vazio que sentem (eu me incluo nesse meio). É mais fácil saber o que seu colega de trabalho, seu vizinho ou um conhecido pensa e sabe através do que ele coloca em seu blog, dos seus comentários no Orkut, ou Facebook, ou Twitter ou qualquer outro grupo social virtual do que numa conversa ao vivo.

No passado já disseram que o telefone afastava as pessoas, o tempo provou que não era bem assim. Vieram os celulares e cada vez mais gente se comunicando. A internet criou uma nova forma de se relacionar. Nos comunicamos cada vez com mais gente e cada vez conhecemos menos pessoas. Sintomas dessa loucura virtual em que vivemos. Onde eu declaradamente me sinto encantado por alguém que leio e não consigo expressar isso ao vivo de forma clara. Onde pessoas de vários lugares lêem o que eu escrevo e até se encontram nos meus textos e fotos, mas mesmo me conhecendo não tem coragem de discutir ao vivo aquilo que pensam.

Levar essas relações do virtual para o real seria o ideal, mas isso raramente ocorre. Seja pela distância física, seja pela falta de tempo, seja por medo (talvez esse seja o meu caso). Pouco realmente fazemos para possibilitar contatos humanos reais e verdadeiros. Até por isso eu escolhi a música do Jamiroquai que dá título ao post. Adoro a banda e essa é minha música predileta. Virtual Insanity (clique para ouvir), fala da loucura virtual que a tecnologia traz, de como isso afeta as diversas relações humanas.

Afeta tanto para o bem quanto para o mal, mas afeta. Muda o olhar que temos sobre o mundo que nos cerca. O bairrismo perde sentido, parece que finalmente todos somos cidadãos do mundo, entretanto, essa comunicação toda também acentua as diferenças. As línguas passam a ter valor de união entre as pessoas. Muitos falam mais de uma língua, a sua local e alguma língua universal (principalmente inglês). Muitos escrevem suas ideias em várias línguas assim como possuem acesso a informações do mundo todo.

Eu tenho que agradecer a existência dessa loucura virtual porque ela me permite conhecer gente e situações que levando em conta a forma como vivo e minhas limitações pessoais, com certeza eu não teria acesso. Sou muito mais sociável do que seria sem a internet, mas e as pessoas que se isolam mais e mais por causa da rede? A discussão sobre se isso vale ou não a pena é grande, eu por enquanto evito tomar partido de um lado. Só procuro usar o que tenho a disposição para me comunicar. Aliás, se alguém quiser me seguir no twitter, está ai meu endereço http://twitter.com/alexmartinsfoto





Muros e Grades – Engenheiros do Hawaii

4 04 2010

nós criamos nossa própria prisão e jogamos a chave fora

No meu último post eu comecei a fazer uma leitura pessoal do filme Rain Man. Como escrevi, este é provavelmente o filme que mais me toca e talvez seja o filme que mais tem coisas que me tocam. No último post, eu tratei do fato de sentir-me usado em alguns momentos. Nada contra a necessidade do outro ser chamada a conversa principal. O problema é quando você percebe que a importância de sua existência reside no fato de você ser necessário em algum momento para o outro. Quando não está sendo necessário, muitas vezes sua presença sequer é tolerada. Eu de certa forma estou cortando esse tipo de contato da minha vida.

O de certa forma acontece justamente pelo tema do post de hoje. Algo que eu a uma semana tinha me proposto a escrever, mudei de ideia no meio do caminho e fiquei assim, sem saber se escrevia ou não por dias a fio. Talvez por tratar de assuntos mais pessoais do que eu gostaria, talvez por expor de direta demais alguns medos e sentimentos que eu tenho. Enfim, depois desse tempo todo remoendo, acabei decidindo ao menos dar uma pincelada no tema, da forma como eu conseguir tratar. Provavelmente isso sirva como forma de desabafo ou até como uma justificativa real para aqueles que eu simplesmente deixei de manter contato pelos motivos descritos no post anterior.

A música que eu escolhi é uma música dos Engenheiros do Hawaii, chamada Muros e Grades (clique para ouvir). A letra fala que o medo que sentimos acaba levando toda a nossa essência, nossos sonhos e desejos se perdem nessa disputa entre o medo e a vontade. Eu entendo bem isso, afinal, certamente nessa disputa entre medos e desejos, o medo está ganhando de goleada e a tempos. Meus medos mais banais definem de forma clara a forma como eu atuo em cada momento da minha vida.

Voltando ao filme, o personagem de Dustin Hoffman, acometido por comportamento autista, acaba agindo de forma parecida. Vive encarcerado em seu mundo. Tudo o que escapa de sua compreensão é visto como estímulo aversivo grave. É sentido como algo doloroso, um ataque a sua segurança. De certa forma é assim que eu vivo. Aliás, de certa forma não. De todas as formas possíveis e imagináveis.

Nesses tempos sombrios pra mim, eu tenho pensado muito em minhas atitudes. Percebo que me enclausurei numa prisão pessoal. Por opção e por incapacidade minha acabei sim me isolando do mundo. Até ai, nada demais nisso. Afinal, é preciso ser honesto, que mal existe nisso? Se foi uma opção pessoal, qual o drama da história? O drama reside na percepção tardia disso.

Sabe quando você fica grande parte de sua vida procurando algo e de repente percebe que não existe uma possibilidade real de atingir isso? É dessa forma que eu estou me sentindo agora. Pelo menos o personagem de Dustin Hoffman nunca se preocupou com o que faltava, apenas se prendia a aquilo que estava ao seu alcance em todos os momentos e refutava cada contato diferente.

Como qualquer pessoa normal, tem coisas que eu consigo fazer e tem coisas que eu não consigo. O que me incomoda é não conseguir fazer coisas extremamente simples socialmente falando. Ter um baita medo absurdo das pessoas, ter medo de situações sociais e me ver livre apenas quando estou produzindo algo que eu consiga entender (ou seja trabalho). Ir a uma festa chega a ser doloroso, ver um filme sem ter que relacioná-lo com algo que eu vá produzir depois é impossível, tudo tem que estar ligado a tudo e dessa forma eu acabo me vendo cercado por muros e grades dentro de um recinto que eu mesmo criei e me aceito. A vida só existe pra mim se fizer sentido. Isso não chega a ser ruim, também não é bom, isso é óbvio.

Conviver com essa limitação social é o problema, decidir se vale a pena aceitar viver dessa forma limitada é que torna a questão interessante. Eu juro que não sei até que ponto esse tipo de coisa vale a pena. Ter desejos e vontades que não compreendo e justamente por isso não consigo sanar é onde a coisa aperta. Entender o motivo que me leva a enjoar de determinadas situações comuns e me entregar facilmente a coisas que com certeza causam desgosto a maioria das pessoas parece ter explicação.

Explicação também surge para outro fato. Agora faz sentido a dificuldade que eu tenho de agir quando saio de minha zona de conforto profissional. Trabalhar sempre foi a parte fácil. Viver a impossível. Toda vez que eu tentei viver algo, me atrasei em todo o resto, pela simples incapacidade de entender o que exatamente é viver e sentir. Eu não sei ler sentimentos.

Por enquanto sigo no dilema, sem no entanto me irritar mais com isso. Sigo fazendo aquilo que eu sei fazer e provavelmente agora devo fugir mais ainda daquilo que não entendo. Como já disse diversas vezes, nada é para todos e entender e aceitar isso torna a nossa existência bem mais calma. Viver, trabalhar, sentir, falar, gritar, andar, existir, amar, odiar qualquer ação humana exige uma certa dose de habilidade individual, se você não possui essa habilidade, deve recolher-se a sua insignificância e não se martirizar por isso. Devemos nesse ponto ser como foi o personagem de Dustin Hoffman