Muros e Grades – Engenheiros do Hawaii

4 04 2010

nós criamos nossa própria prisão e jogamos a chave fora

No meu último post eu comecei a fazer uma leitura pessoal do filme Rain Man. Como escrevi, este é provavelmente o filme que mais me toca e talvez seja o filme que mais tem coisas que me tocam. No último post, eu tratei do fato de sentir-me usado em alguns momentos. Nada contra a necessidade do outro ser chamada a conversa principal. O problema é quando você percebe que a importância de sua existência reside no fato de você ser necessário em algum momento para o outro. Quando não está sendo necessário, muitas vezes sua presença sequer é tolerada. Eu de certa forma estou cortando esse tipo de contato da minha vida.

O de certa forma acontece justamente pelo tema do post de hoje. Algo que eu a uma semana tinha me proposto a escrever, mudei de ideia no meio do caminho e fiquei assim, sem saber se escrevia ou não por dias a fio. Talvez por tratar de assuntos mais pessoais do que eu gostaria, talvez por expor de direta demais alguns medos e sentimentos que eu tenho. Enfim, depois desse tempo todo remoendo, acabei decidindo ao menos dar uma pincelada no tema, da forma como eu conseguir tratar. Provavelmente isso sirva como forma de desabafo ou até como uma justificativa real para aqueles que eu simplesmente deixei de manter contato pelos motivos descritos no post anterior.

A música que eu escolhi é uma música dos Engenheiros do Hawaii, chamada Muros e Grades (clique para ouvir). A letra fala que o medo que sentimos acaba levando toda a nossa essência, nossos sonhos e desejos se perdem nessa disputa entre o medo e a vontade. Eu entendo bem isso, afinal, certamente nessa disputa entre medos e desejos, o medo está ganhando de goleada e a tempos. Meus medos mais banais definem de forma clara a forma como eu atuo em cada momento da minha vida.

Voltando ao filme, o personagem de Dustin Hoffman, acometido por comportamento autista, acaba agindo de forma parecida. Vive encarcerado em seu mundo. Tudo o que escapa de sua compreensão é visto como estímulo aversivo grave. É sentido como algo doloroso, um ataque a sua segurança. De certa forma é assim que eu vivo. Aliás, de certa forma não. De todas as formas possíveis e imagináveis.

Nesses tempos sombrios pra mim, eu tenho pensado muito em minhas atitudes. Percebo que me enclausurei numa prisão pessoal. Por opção e por incapacidade minha acabei sim me isolando do mundo. Até ai, nada demais nisso. Afinal, é preciso ser honesto, que mal existe nisso? Se foi uma opção pessoal, qual o drama da história? O drama reside na percepção tardia disso.

Sabe quando você fica grande parte de sua vida procurando algo e de repente percebe que não existe uma possibilidade real de atingir isso? É dessa forma que eu estou me sentindo agora. Pelo menos o personagem de Dustin Hoffman nunca se preocupou com o que faltava, apenas se prendia a aquilo que estava ao seu alcance em todos os momentos e refutava cada contato diferente.

Como qualquer pessoa normal, tem coisas que eu consigo fazer e tem coisas que eu não consigo. O que me incomoda é não conseguir fazer coisas extremamente simples socialmente falando. Ter um baita medo absurdo das pessoas, ter medo de situações sociais e me ver livre apenas quando estou produzindo algo que eu consiga entender (ou seja trabalho). Ir a uma festa chega a ser doloroso, ver um filme sem ter que relacioná-lo com algo que eu vá produzir depois é impossível, tudo tem que estar ligado a tudo e dessa forma eu acabo me vendo cercado por muros e grades dentro de um recinto que eu mesmo criei e me aceito. A vida só existe pra mim se fizer sentido. Isso não chega a ser ruim, também não é bom, isso é óbvio.

Conviver com essa limitação social é o problema, decidir se vale a pena aceitar viver dessa forma limitada é que torna a questão interessante. Eu juro que não sei até que ponto esse tipo de coisa vale a pena. Ter desejos e vontades que não compreendo e justamente por isso não consigo sanar é onde a coisa aperta. Entender o motivo que me leva a enjoar de determinadas situações comuns e me entregar facilmente a coisas que com certeza causam desgosto a maioria das pessoas parece ter explicação.

Explicação também surge para outro fato. Agora faz sentido a dificuldade que eu tenho de agir quando saio de minha zona de conforto profissional. Trabalhar sempre foi a parte fácil. Viver a impossível. Toda vez que eu tentei viver algo, me atrasei em todo o resto, pela simples incapacidade de entender o que exatamente é viver e sentir. Eu não sei ler sentimentos.

Por enquanto sigo no dilema, sem no entanto me irritar mais com isso. Sigo fazendo aquilo que eu sei fazer e provavelmente agora devo fugir mais ainda daquilo que não entendo. Como já disse diversas vezes, nada é para todos e entender e aceitar isso torna a nossa existência bem mais calma. Viver, trabalhar, sentir, falar, gritar, andar, existir, amar, odiar qualquer ação humana exige uma certa dose de habilidade individual, se você não possui essa habilidade, deve recolher-se a sua insignificância e não se martirizar por isso. Devemos nesse ponto ser como foi o personagem de Dustin Hoffman

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5 04 2010
Grandes Portugueses – Entender Salazar eo Estado Novo. | Abraço - abraços e beijos

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