Dreamer – Marillion

30 05 2010

Alguns sonhos parecem tão belos e depois tão comuns

Semana passada eu falei dos sonhos que todos temos e que muitas vezes se perdem por diversos motivos. Seja algo por culpa de quem sonha, seja por fatores externos. Eu mesmo disse que vive e sonhei diversos sonhos que naufragaram. Alguns me deixaram parado, outros me deixaram decepcionado e uma pequena parcela dos mesmos nem foram sentidos.

Eu ainda tenho meus sonhos. Sonho muito como qualquer pessoa. Entretanto, já fui mais sonhador. Tenho que admitir que num certo período da minha juventude/adolescência os sonhos tinham um peso maior em minha vida. Eu achava que poderia mudar o mundo. Achava que poderia transformar tudo aquilo que eu via como errado em um lugar perfeito pra que se pudesse viver.

Engraçado que justamente nessa época, tinha uma música que eu adorava ouvir. Ainda me lembro de quando fui apresentado ao Supertramp e a música Dreamer (clique para ver e ouvir). Eu tinha meus 13 ou 14 anos e ouvi a música no walkman de uma amiga, uma daquelas paixonites adolescentes, mais um fora que tomei, mas isso nem vem ao caso e sim a música. É engraçado um moleque sonhador passar horas ouvindo uma música que de certa forma questiona essa postura. Maldita falta de conhecimento da língua inglesa nessa época. Eu só curtia a melodia e nem me tchum pra letra dela.

Aliás, vale a pena falar um pouco sobre com o que eu sonhava naquela época. Só pra realçar como o tempo faz a gente mudar. Não sei se pra melhor ou pior, mas faz a gente mudar.

Nessa época eu treinava judô, o esporte era uma parte importante da minha vida. Meu sonho era disputar uma Olimpíada (um sonho que sou obrigado a dizer que até hoje não digeri direito). Eu lutava bem, consegui medalhas em quase todas as competições que disputei, tinha técnica, força e estudava o esporte como arte. Só que me faltava cabeça. Sofri lesões e sem cabeça forte, cheio de medos, fui me afastando do esporte e das competições. Falha minha, mas derrota até hoje não tão digerida assim. Ainda mais quando vejo as competições do esporte e nas eliminatórias vejo nomes de pessoas que eu muitas vezes venci. No tempo do judô força até me sentia melhor, aquele judô não era o que eu praticava. Mas agora com a volta do judô mais técnico. Sinto sim uma ponta de dor ao perceber a minha própria incapacidade.

A coisa foi tão pesada pra mim, que depois disso, as ideias de me tornar um dia professor de judô foram abortadas, a anos que eu não passo parte de um tatame. E olha que foi um dos locais onde eu me senti mais a vontade em toda a minha vida.

Nessa época, eu ainda tinha outros sonhos. Achava o mundo injusto, queria mudá-lo. Esperava a chance de votar, dentre diversas outras coisas. Também queria ser escritor. Era um sonho profissional. Viver apenas da escrita (confesso que esse sonho não abortei totalmente). Me tornei autor. Tenho um livro já lançado, uma das páginas do meu blog é sobre ele, se quiser saber mais, entre em contato. Estou começando a produção do próximo livro e tenho alguns projetos na área, como uma revista de literatura. Esse sonho eu apenas adiei por diversos momentos, mas nunca realmente desisti dele.

Eu lia muito. Lia poesia (adorava Drummond), lia uns best sellers sobre guerra, espionagem, intriga internacional. Nada de literatura clássica ou a dita literatura de qualidade. Talvez os autores mais bem vistos que eu lia nesse período eram os infantis Monteiro Lobato e Júlio Verne. Curtia muito (curto ainda) Frederick Forsyth e Irving Wallace.

Não posso esquecer também das crônicas do Veríssimo e do Carlos Eduardo de Novaes. Aliás era ali que eu queria me incluir como escritor. Justo eu que sou alguém onde o humor não é uma característica marcante queria escrever humor. Por sorte envelheci e percebi que essa não era a minha praia. Escrevo melhor poesia e fotografo também de forma satisfatória. Meus livros inicialmente devem seguir essa linha. Até porque é o que eu sei fazer. O blog é uma experiência (por enquanto muito gratificante) com um tipo diferente de texto. Escrever é o sonho que eu alterei e consegui curtir, enquanto o judô é um sonho que se tornou pesadelo.

Um exemplo de pensamento que se alterou e eu nem liguei (minto, comemorei e muito), foi com relação a fé. Eu realmente acreditava na fé católica e no deus cristão. Procurava viver seguindo tais preceitos. Fui criado numa família católica. Meus pais e irmã vão ainda hoje toda semana para a missa. Eu achava que a fé poderia sim criar um mundo melhor. Achava que se as pessoas tivessem fé, seriam pessoas melhores. Hoje claramente penso de forma diferente. Me tornei alguém muito melhor depois de me ver ateu (os motivos disso prometo discutir em outro post). Largar a religião ou a crença de que a religião seria uma forma de salvar o mundo claramente foi uma ideia que me fez muito bom.

E você? Algum sonho que não realizou e te incomoda até hoje? Algum que você conseguiu transformar? Algum que se foi e você nem percebeu? No próximo post trato de mais alguns sonhos, mas de um período um pouco posterior a esta citada nesse post.

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Falling to Pieces – Faith No More

23 05 2010

Quanto se perdeu num único incêndio?

Faz tempo que não passo por aqui. Tem faltado coragem pra escrever no blog. Tem faltado ânimo pra fazer um monte de coisas. É uma daquelas fases complexas em que você para, olha, tenta pensar e se descobre vazio e triste. Você tem a nítida impressão de que todos os seus esforços no final das contas não valem absolutamente nada.

Entretanto, confesso que um fato ocorrido no sábado da semana passada me deixou pensativo. É de conhecimento de todos que no Instituto Butantã aconteceu um incêndio de grandes proporções que destruiu a coleção herpetológica e de invertebrados. Existiam ali exemplares nem identificados ainda. Existia mais do que isso, uma gama imensa de sonhos. Trabalhos de gente que dedicava seu tempo a tentar gerar novos conhecimentos a partir dos estudos que realizava ali. Esses sonhos foram queimados juntos com a coleção.

Não tenho informações sobre o assunto, mas imagino que muita gente deve ter perdido trabalhos importantes, teses de doutorado, dissertações, trabalhos de iniciação científica não poderão mais ser entregues. Prazos não serão cumpridos e trabalhos terão que recomeçar do zero. Imagino a dor de alguém que provavelmente estivesse terminando seu doutorado e de repente se visse impossibilitado de terminar o trabalho devido ao incêncio. Um sonho queimado.

Ampliando um pouco a análise, todos nós vemos sonhos serem queimados o tempo todo. Eu tenho vários que viraram pó antes que eu pudesse realmente comemorá-los. Alguns chegaram a escorrer pelos dedos, um ou outro provavelmente eu até cheguei a tocar, mas na hora de fechar os dedos sobre o sonho, ele virou pó e foi levado pelo vento. Tudo caiu aos pedaços, até por isso escolhi a música do Faith No More pra esse post. Falling to Pieces (clique para ouvir) fala um pouco desses momentos de indecisão e dor que sentimos quando um grande sonho rui.

Provavelmente todo mundo já passou por alguma situação próxima a isso. A sensação de incapacidade, a frustração é imensa. Quando o sonho é destruído por algo que você não pode controlar, o peso que fica em cima da gente é imenso. É como a criança que faz o castelo de areia na praia e sem ter o que fazer o vê ser destruído pelas ondas.

Sem entrar no mérito da dor de cada um. Faço questão de ressaltar que compreendo que os estragos no incêndio são muito maiores do que as dores que eu sofro. Isso analisando tanto o impacto quanto a importância das ocorrências. Mas os sonhos de cada um são sempre únicos e perder o chão de forma grave machuca muito, seja num simples fora, seja na morte de um ente querido, seja na perda de um emprego minutos depois de contrair uma dívida alta. Cada um sabe o quanto aguenta dor e a forma como reage a isso e principalmente o quanto aquilo que se perdeu é importante para si.

Falo isso porque no momento em que me situo parece que tudo ao meu redor se esvai. Nem são sonhos, porque estes ultimamente tenho tido poucos. Mas sim minhas crenças e mesmo a forma como eu enxergo o mundo. Tudo ao meu redor parece não fazer muito sentido. De forma parecida (mas menos importante) da que o mundo de muita gente ruiu com esse incêndio. Ou desaba junto com as casas que se perdem nas enchentes ou qualquer outra grande perda.

Quero falar um pouco disso nos próximos posts se conseguir. Falar de sonhos que se perderam e se perdem dia a dia. Falar de sonhos que são importantes para manter a sanidade. Você tem alguma grande história de perda ou algum grande sonho que esteja lutando pra conseguir? Se quiser mande no blog.