Eu tive um sonho – Kid Abelha

6 06 2010

uma criança fugiria, um adolescente enfrentaria e um velho teria medo de agir, é preciso ser um pouco de cada sempre

Quem me conhece a mais tempo sabe que eu nunca gostei desse mundo em que vivemos. Quando mais jovem eu sonhava em mudar esse mundo. Queria mudar tudo aquilo que me incomodava. Por um período achava que a fé poderia salvar o mundo. Depois, com mais idade e juízo percebi que nada tinha a ver com religião. Passei então a sonhar com mudanças mais estruturais.

Até pensei em movimentos políticos, fiz parte de um grupo ambiental. Achei que o mundo todo era folgado e que tínhamos que mexer as estruturas pra que surgisse um lugar minimamente bom pra ser habitado pela população. Só que eu era muito autocentrado. Achava que a minha visão é que era a correta. Achava que eu tinha todas as verdades do mundo e que o mundo tinha que ser como nos meus sonhos.

Besteira adolescente. Quando a gente acha que somos os donos do mundo, que nossos medos são os únicos que valem e quando achamos que tudo vai se resolver se seguirem o que a gente acha correto. Bons tempos de adolescência, menos preocupações, os problemas básicos se resumiam a quando eu vou conseguir beijar aquela menina, quando a banda que eu gosto vai lançar um novo disco (de vinil). Quando começam a vender os ingressos pro show. E nesse meio tempo, é claro, discussões filosóficas de como criar um mundo perfeito.

É o fim das guerras, a igualdade entre todos os seres, o fim da violência urbana, abaixo os uniformes, o fim das forças armadas, abaixo os governos, o capital nos traz vergonha (mesmo que dependamos absurdamente do vil metal para consumirmos tudo aquilo que queremos).

É nessa visão restrita da vida que acabam residindo os grandes sonhos. Como a música do Kid Abelha “Eu tive um sonho”(clique para ver o clipe), é tudo um grande sonho onde o abrir e fechar de olhos traz soluções e no final de tudo, beijos e carinhos na pessoa amada.

Sexta-feira no trabalho, asisti ao filme As Melhores Coisas do Mundo e participei de um debate com a diretora Laís Bodanzky e com o co-autor dos livros que serviu de base pro roteiro Gilberto Dimenstein. Foi divertido ver e falar sobre adolescentes, e mais do que isso, o debate me fez voltar no tempo e lembrar-se de como eu via as coisas naquele tempo, comparando com a leitura que eu faço do mundo hoje.

É incrível como eu deixava os detalhes passarem em branco. Me prendia a grandes fatos. Tudo era gigantesco e simples. As respostas eram todas básicas. De certa forma, de maneira muito semelhante aos jovens que eu vejo hoje.

Pra acabar com a fome do mundo bastaria distribuir alimentos e pronto, afinal eles estão ai. Mas e os produtores? E a terra? E os custos de distribuição? E o direito a propriedade? Os governos eram desnecessários, nós podíamos nos agrupar e organizar tudo sozinhos. Mas e as leis? E a ordem? E a organização real do sistema e o respeito a culturas diversas?

Pode parecer uma visão simplista minha, mas hoje vejo como o envelhecer o ato de passar a se preocupar com os detalhes. Quanto mais presos a detalhes mais velhos estamos. E ai nem é idade cronológica, mas idade mental. São os detalhes que nos impedem muitas vezes de agir. A maturidade é o ideal. Conseguir um equilíbrio onde não se faz tudo por impulso e nem se deixa de fazer tudo por se prender a milhares de detalhezinhos. Existe ainda uma fase anterior e infantil. A fase do medo, crianças possuem um medo tremendo do mundo que as cerca e muitas vezes nada fazem por falta de confiança.

Dentro dessa minha torpe linha de pensamento. Se você não faz algo por medo sem explicação é criança nesse assunto. Se você faz tudo sem medir as conseqüências e sempre sem pensar, está vivendo a adolescência do tema. Por outro lado, quando só lhe restam os detalhes que lhe impedem de agir. Quando procura mil desculpas e falhas no processo. Significa que seu tempo passou e você envelheceu nesse assunto.

E gosto de frisar o assunto porque acredito que em cada coisa temos mais ou menos maturidade. Alguém pode ser maduro nas relações interpessoais, velho no trabalho e criança nos cuidados com o próprio corpo. As combinações são infinitas, eu mesmo reconheço facilmente momentos e situações onde sou criança, adolescente, maduro ou velho. E você? Como se enxerga? Apresenta o mesmo grau de maturidade em todos os aspectos da sua vida? Consegue sonhar em todos os aspecto? Faz seus sonhos acontecerem?

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One response

6 06 2010
Ligia

Oiê! O texto está excelente!
Você já pensou em ter um blog periódico em algum portal? Seria ótimo!
Tenho um amigo que é contratado da ESPM para falar sobre marketing esportivo.
Você poderia ter um blog seu!
Pense nisso. E se agradar, corra atrás!
Beijo!




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