Miss Brasil 2000 – Rita Lee

30 07 2010

A gente dá muito valor ao belo e pouco ao verdadeiro

Dias atrás eu andava pelo centro de São Paulo. Confesso que não gosto muito de andar por aquela região. Não que eu não perceba a beleza dos muitos prédios da região, alguns com imenso valor histórico. Não que eu não reconheça inclusive as imensas melhorias que ocorreram na região. Melhorou o cuidado com os prédios, aliás, aumentou a ocupação da região. Novos bares, lojas mais bem cuidadas, mais policiamento, enfim, realmente a região melhorou muito.

Porém, confesso não ser o centro de São Paulo o assunto principal do meu post. Na verdade eu quero falar do que eu mais vi no centro, pessoas, muitas pessoas, pessoas de todos os tipos, formas e estilos imagináveis.

Gente normal e gente comum, mas gente que de certa forma sempre tem alguma peculiaridade. Eu poderia separar os tipos simplesmente pela aparência, os de terno, os mendigos, os mais casuais e por ai vai. Essa primeira leitura é frágil e infelizmente é a mais comum. A que mais vezes aparece nos pequenos julgamentos diários. Julgamos muito pela forma e pouco pelo conteúdo. Por mais que a gente queira a alcunha de racional, refutamos qualquer argumento lógico e deixamos que a aparência reine sobre nossas decisões. Eu fiz isso nesse post, quando falei do centro de São Paulo.

A vontade de falar disso veio do mesmo livro dos posts anteriores. Parte da última decepção citada pelo Rob Fleming se deve a sua leitura equivocada de uma pessoa por seu perfil, aliás, fazer perfis baseados na imagem foi uma constante desse personagem. Talvez por não conseguir se aprofundar exatamente em nada que não seja uma canção pop, talvez porque no fundo seja esse mesmo o nosso principal ponto de leitura e a tal beleza interior seja só um conceito irreal e inexistente.

É claro que Rob Fleming fez o caminho oposto, disso, ele associou as mudanças de roupa e status pelas quais a sua Laura passou como o principal motivo pra ela ter deixado de viver ao seu lado. Achou que mudanças externas tinham obrigatoriamente a ver com mudanças internas. Foi um erro bobo, como mostra o livro, o que fez o relacionamento afundar não foi Laura, mas o próprio Rob.

Essa leitura superficial e meramente estética, eu diria até instintiva. Algo nos agrada e por isso a gente se aproxima e encara como positivo. Sem pensar muito no assunto. Se você se reconhece visualmente ou aceita alguém visualmente, a tendência em confiar naquela pessoa aumenta. Até por isso, empresas buscam associar suas marcas a determinado padrão físico também. Por mais que a gente queira negar e ser politicamente correto, nós nos rendemos a um padrão visual mais do que gostaríamos.

Tanto que, por menos que a gente queira assumir, existe sim uma preocupação geral com a própria aparência, seja a roupa, o corte de cabelo, uma tatuagem, coisas que fazemos com o nosso corpo com o simples objetivo de chamar a atenção para um padrão pessoal que seja considerado belo. Aqui fica a ressalva, o conceito de belo varia de pessoa pra pessoa. Ninguém compra uma roupa achando pra se sentir feio nela, ninguém ao fazer uma tatuagem tem o objetivo de ficar ridículo, até os cortes de cabelos mais extravagantes são feitos porque quem os usa acha bonito.

É uma linguagem da nossa espécie, o mais engraçado (ao menos para mim) é perceber que não existe um padrão real pra se definir essa linguagem. Funcionamos como se cada um falasse um dialeto próprio. O lado curioso disso é que apesar de termos uma leitura nossa bastante pessoal, quando a leitura é feita em relação ao outro, seguimos um padrão.

Um conhecido meu tem diversas tatuagens, usa brincos e um corte de cabelo no mínimo chamativo. É uma pessoa super séria, atua numa empresa e diversas vezes tem que contratar funcionários, o engraçado é que ele diz que nas entrevistas dá prioridade a pessoas com aparência séria, de terno, corte discreto e tudo mais, quando pergunto se ele não é sério a resposta usual é sempre algo como eu sei que eu sou sério, quanto aos outros, precisam me provar.

Acho isso estranho, como ler no outro algo diferente do que se lê no espelho? Como a gente pode criar regras de leituras diferentes dentro dos mesmos sinais? Preconceito, é claro, preconceito bobo. Tão bobo quanto o que quase levou Rob a perder totalmente Laura sem perceber que quem estava mudando era ele. Tão bobo quanto olhar no centro de São Paulo e perceber que algumas pessoas mudam de direção ou de calçada dependendo da forma como as pessoas que surgem na direção contrária se vestem. O que me garante que as pessoas de terno são as honestas e as de roupas largadas devem ser evitadas? Eu ando todo rasgado em casa e não fujo de mim, aliás confio mais em mim do que em diversos políticos de terno e gravata.

Meu próximo post vai falar ainda da imagem que temos, mas se você tem alguma história divertida sobre o tema e quiser compartilhar, esteja a vontade.

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A Revolta dos Dândis – Engenheiros do Hawaii

27 07 2010

Por mais que nos imaginemos diferentes, queremos sempre as mesmas coisas

Voltando ao livro do último post. Gosto de algumas sacadas dos personagens criados pelo Nick Hornby. Não que ele crie tramas complexas ou profundas. Quem quer profundidade não deve passar perto dos seus livros. Mas as histórias são bem escritas, os enredos ao menos para mim são bastante interessantes.

O que torna aos meus olhos esses enredos interessantes é justamente o perfil retratado. Homens entre os 30 e 40 anos com todas as frustrações previsíveis em pessoas comuns dentro de determinado perfil. Justamente o perfil em que eu me encaixo, gente que curtia música pop rock dos anos 80 e depois cresceu buscando coisas nessa linha. Até a literatura lida acaba sendo a mesma e citada, por isso previsível. Não continuarei falando disso agora, mas de um aspecto que surge exatamente nesse ponto. A dificuldade em se aceitar perfeitamente comum, o homem comum.

Até já falei desse perfil em outros posts, mas a leitura do livro me motivou a retomar o tema, agora com alguns argumentos novos na minha escrita. Como disse no post anterior, o livro realmente mexeu comigo e me fez pensar. Trouxe a tona uma série de questionamentos que eu já apresentava, só não tinha coragem suficiente pra assumir e falar de alguns deles provavelmente me fará bem.

Quero começar com uma afirmação do Rob Fleming no livro. Um dos momentos em que o personagem se apresenta mais pleno é quando ele afirma que uma de suas principais qualidades é ser mediano. Em tudo. Não é bonito ou feio, não é burro e nem chega a ser um gênio, segundo ele mesmo diz, o melhor dele é estar na média.

Na primeira vez que li isso no livro, confesso que encarei culto ao derrotismo, alguma coisa parecida com o olha eu não bom em nada, mas também tem muita gente muito pior do que eu em tudo o que eu faço. Só mais adiante é que fui ter outra leitura do texto. Isso aconteceu quando eu comparei a vida até certo ponto medíocre do personagem com a minha vida e em escala maior com outras vidas que eu observo diariamente.

Quando a gente conversa com qualquer pessoa percebe que cada um traz consigo uma série sobre expectativas sobre a vida. Uma carga imensa de sonhos e prováveis ações que possam levar a realização desses sonhos. Entretanto, por mais que se diga que os sonhos variam, no fundo a variação acontece sempre em cima de temas universais, a saber, a vida pessoal e a vida profissional. Não foge muito disso.

O que acaba sendo engraçado é perceber que a maioria da

s pessoas acaba sim vivendo numa zona mediana, se dando mais ou menos bem nos dois lados e ai leva-se em conta que o grau de satisfação só pode ser medido pela própria pessoa, ou pelo menos analisando pessoas dentro da mesma realidade. E mais engraçado que isso é perceber que no fundo o que todos queremos é ser um pouco Rob Fleming, medianos.

Como assim medianos? E o destaque? E a busca pelo máximo isso é o que mais se vê por ai, muitos devem pensar. Mais ai eu discordo. Todo mundo quer uma área de destaque, apenas uma e no resto quer apenas a média do seu grupo. Fleming era o exagero nesse ponto, mas não posso deixar de dizer que no fundo sua maneira de pensar faz muito sentido.

O que as pessoas querem é um emprego legal, com certo reconhecimento do que se faz, uma família organizada e amorosa e uma das frases que eu mais ouço em todos os diálogos onde esse tipo de assunto aparece, as pessoas só querem mesmo o que todo mundo quer.

Isso me lembra outro livro do mesmo autor (e que eu já citei aqui), chamado Uma Longa Queda, onde um personagem em certa passagem da história percebe que é um músico, não o melhor músico do mundo, mas é um músico no que isso traz de positivo e negativo. É de certa forma a postura que é pregada pelo Fleming, você tem sua vida, ela é sua no que tem de bom e no que tem de ruim, suas qualidades são só suas, assim como seus defeitos.

Saber o seu tamanho dentro desse sistema é que é o grande prêmio nesse jogo. Saber sonhar dentro do que você pode, saber o tamanho do passo e onde pisar, saber exatamente o que você é para que seus desejos possam ser reais e as frustrações mínimas. Isso requer uma coragem que eu pelo menos não sei se tenho. Falo de coragem porque é necessário enfrentar a dor de se perceber que você ainda não atingiu o nível necessário para o passo seguinte e ai, antes de dar esse passo é preciso se preparar e ter paciência, algo que nem sempre é fácil.

Isso é mais flagrante em pessoas como eu. Eu me considero muito mais bem preparado na vida profissional do que na pessoal, como disse no post anterior, me sinto um bebê no que tange a minha vida pessoal. Muitas das coisas que eu quero são óbvias pra muita gente, são até simples, mas ainda estão além do que eu me percebo capaz de conseguir. Aliás, essa imaturidade acaba atrapalhando também a vida profissional, mas isso é outro papo. No fundo, a nossa vida não pode ser vista como extremos (como os que aparecem na música que dá título ao post), se separarmos demais as coisas acabamos nos perdendo e não sabendo exatamente quem somo e o que queremos.

O que importa dizer é que é frustrante ver que num aspecto você vai muito bem e no outro vai muito mal. Isso a gente acaba percebendo em diversas pessoas, que ou abrem mão da carreira pela vida pessoal ou o oposto e em determinado período da vida sentem falta de algo. Nesse ponto o ideal é ser meio Rob Fleming, não ser exatamente o melhor, mas também estar longe de ser o pior, claro dentro do seu grau de análise.

Diferente do que o personagem prega, eu ainda acredito que é perfeitamente possível ter um ponto de destaque que seja sem alterar o equilíbrio do resto, desde que esse ponto de destaque não sirva como fuga de tudo o que vai mal.





A Lista – Oswaldo Montenegro

20 07 2010

É triste perceber que em 35 anos de idade minha pele traz poucas ou quase nenhuma cicatriz

Sabe quando você encontra um livro que conversa com você mais do que seria interessante? Sabe quando você lê frases que dizem mais verdades sobre você do que está preparado pra escutar? Sabe quando você reconhece num personagem ficcional uma série de características que odeia em você mesmo e nunca teve coragem ou capacidade pra mudar? É assim que eu me sinto hoje.

Demorei dias pra ler um livro que deveria ser lido em no máximo 3 dias e isso com bastante preguiça, eu levei semanas. Não que a história fosse densa, profunda, a leitura pesada ou difícil. Foi só uma leitura que tocou em várias feridas que nunca se cicatrizaram. Em período de férias, mais tempo ainda pensando nessas coisas. Repensando a minha humilde insignificância.

E por que falar disso só hoje? Dois motivos, um é que hoje as ideias estão mais claras, dá pra falar disso, se é que me entendem. O outro motivo, menos trivial e mais prático, é que me pediram um texto sobre como eu estava me sentindo. Bom o texto é sobre uma foto que fiz de mim mesmo após terminar o livro, sentado no sofá e ouvindo Oswaldo Montenegro. Claro que não colocarei a foto aqui, preservo os leitores do show de horrores, mas acho que vale a pena falar dessas sensações.

Eu tinha acabado de terminar de ler Alta Fidelidade (agora quero comprar o DVD do filme) de Nick Hornby, deitado/sentado/largado no sofá da sala ouvindo Oswaldo Montenegro, enquanto olhava pro nada e pensava no livro que me deixou triste. Pra quem não conhece, vale um pequeno resumo bastante breve da obra, já que eu pretendo falar do livro por um bom tempo aqui no blog. A história gira em torno da vida sentimental e profissional de Rob Fleming, um homem até certo ponto fracassado no campo profissional e no pessoal e que tem manias de elaborar listas dos 5 mais pra tudo.

Por enquanto fica nisso. Até porque eu prometi falar do que eu estava sentindo, no que eu estava pensando. Eu estava pensando nas minhas listas. As sensações que eu tive relembrando as pessoas que marcaram a minha vida. Aliás, tudo isso porque este é justamente o tema do livro que eu estou escrevendo, as marcas que recebemos ao longo da vida. As nossas cicatrizes.

Sabe o que dói em mim hoje e me deixou pensativo? Perceber que eu nem tenho tantas cicatrizes assim. Um cara com 35 anos (como o Rob do livro) deveria ter bem mais gente em suas listas. Gente na lista de pessoas especiais, de amigos, de amores, de tristezas, de histórias, de conquistas, de derrotas. Acho que só a lista de medos e a de coisas a fazer é que são imensas.

A tristeza bate ao perceber e sentir que vivi pouco e nem vejo tanta perspectiva assim pra mudar isso. Eu não sei viver, não aprendi isso em toda a minha existência e aparentemente não vou aprender nunca. Porque por mais que eu pense, por mais que eu busque, por mais que eu tente fazer, não consigo descobrir o que exatamente eu busco, dessa forma, eu vivo entre dois  mundos distintos, um profissional onde sou confiante e até tenho um certo destaque no que faço, digamos que eu me garanta, mas em minha vida pessoal, na verdade na vida comum e normal que todo mundo leva, eu sou ainda um bebê recém-nascido. Que não consegue fazer as coisas básicas e por isso nem sabe exatamente onde está, o que quer fazer ou pior, o que deseja fazer.

Esse problema na vida pessoal detona também o lado profissional, enquanto não aprender a me tornar mais maduro pessoalmente não atingirei nenhum lugar também profissionalmente e, pior do que tudo isso, continuarei me sentindo triste, com medo e solitário.

Sei que vocês não estão vendo o retrato que fiz, mas ele trazia isso.  Trazia o meu desespero em perceber que consigo ser tão vazio e imbecil como Rob Fleming. Trazia o meu medo de diferentemente do personagem nunca amadurecer como deveria e justamente por isso, nunca chegar emocionalmente, socialmente ou em qualquer instância a lugar nenhum. Como tem sido até hoje em minha vida.

Meu medo eterno de não conseguir nunca chegar ao mínimo aceitável de ação e existência de uma pessoa é o que me faz ficar triste e muitas vezes desesperado quando percebo que sem o trabalho eu sou apenas um pedaço de carne vazio, que não consegue ser preenchido por nada. Alguém que mal consegue fazer uma lista minimamente aceitável acerca daquilo que viveu, justamente porque infelizmente nada viveu.





A Hard Day’s Night – The Beatles

11 07 2010

Tentar viver como uma máquina torna viver possível, mas não agradável

Férias, como sempre um misto de sensações. Tem horas que eu curto, tem horas que eu detesto. Nunca sei ao certo como me sentir ou como agir nas férias. É certo que eu precisava descansar e colocar as ideias no lugar. É certo que as horas de sono a mais estão me deixando mais calmo e tranquilo. Mas parte de mim não se sente bem nesse período.

A Copa do Mundo já acabou, vi todos os jogos desde que entrei em férias. Comecei a ler coisas que estavam paradas. Pra aquecer o cérebro, retomei a poesia de uma russa chamada Anna Akhmatova. Belos versos e eu estou louco pra escrever meu próximo livro, logo ler poesia é mais que necessário.

Após a poetisa russa, um livro simples e rápido de um autor que eu adorava na adolescência (Frederick Forsith) e ainda gosto e agora estou na leitura de meu autor predileto do momento Nick Hornby, a leitura de Alta Fidelidade está bem mais do que agradável. Muitas ideias surgindo da leitura desse livro e já pensando na busca por outros livros do autor, provavelmente Slam seja o próximo da lista.

Ainda dá pra juntar ao meu tempo gasto algumas horas jogando videogame,  ouvindo música (se bem que a música acompanha as outras atividades), visitas rotineiras ao médico e o talvez mais insólito, acompanhar diariamente as etapas do Tour de France. Eu até tenho bicicleta, mas a anos que não pedalo e nunca pedalei grandes distâncias. Porém, gosto de ver as etapas, principalmente as etapas de montanha, onde vejo caras como Contador, Armstrong, Schleck e outros pedalando numa montanha como se estivem numa descida enquanto eu mal sai do meu sofá.

Eu poderia sair de casa, viajar, fazer programas culturais, fotografar, uma série de coisas. Mas não consigo. E por que não consigo? Muita coisa me impede, a mais grave o medo das pessoas. Até por isso eu não consigo curtir muito as férias longas, eu me perco sobre o que fazer. Meu medo cresce e eu me sinto preso. Isolado num mundinho particular da sala da minha casa, de onde raramente saio, a saber pra visitar médicos. Um ou outro resquício de coragem que bate pode até me fazer cair em outro programa, mas é pouco provável.

O mais esperado é a solidão forçada pelo medo. Onde recluso devo escrever meu livro, traçar versos onde (paradoxalmente) quero falar das marcas que as pessoas deixam umas nas outras. Marcas que, segundo minha linha de raciocínio, são as responsáveis por formar p indivíduo. Seja ele bom ou mal, é sempre resultado das cicatrizes que adquiriu em sua existência. Sua história e seus contatos interpessoais é que serão os responsáveis diretos por suas ações.

Agora eu me pergunto se o medo que tenho é o de mudar quem sou, ou mesmo se o medo é de descobrir quem sou. Que o medo é bobo já sei. Todo mundo me fala isso o tempo todo. Eu aceito isso como verdade, o medo é realmente bobo. Como boba é a ideia de que saber disso vai mudar o meu jeito de agir. O medo está além disso, está no subconsciente e direciona minhas ações.

Mesmo quando não estou em férias eu sou um pouco assim. Medroso, receoso e pouco aberto. No geral eu me refugio em meus medos. Fico sozinho e raramente me socializo, mesmo tendo um trabalho necessariamente social. Eu não me abro, não me aproximo, não me desarmo. Me fecho sim, por medo. Ofereço a face protegida aos colegas, aos alunos, aos chefes, a todo mundo que conviva comigo.

Rememoro assim meu post anterior, onde trouxe um retrato como foto e disse que fiz esse (e outros retratos), para de certa forma dar luz a pessoas que aparentemente tinham perdido a sua luz. Volto nisso, porque socialmente eu percebo que perdi minha luz e nem sei como recuperar. Meu medo e minha carência emocional surgem nos meus mais simples contatos. Assumo minha falta de aptidão pra vida social, mas assumo também que aceito de bom grado ajuda pra mudar isso.

Pretendo nos próximos posts brincar um pouco com essa ideia de carência e medo, fazendo uso do livro que estou lendo, Alta Fidelidade. Mas até chegar lá, assumo o medo das férias e a reclusão forçada.

Esse medo bobo inclusive me fez escolher a música dos Beatles como referência para esse tópico. As noites nas férias são de dias difíceis, todos os dias são difíceis pelo medo que me causam. O desenho também tem a ver. Eu vejo fantasmas em todos os pontos. Olho as pessoas até com carinho, mas a dificuldade de ler me faz ter medo de todo mundo. Demoro muito a me acostumar com quem convive comigo e cansei disso. Cansei de viver com medo e trancado, seja dentro da minha casa (onde de certa forma sinto paz), seja dentro da minha própria existência solitária.





Let it Be – Across the Universe

1 07 2010

Quem não se encanta com um belo sorriso como esse?

Essa semana foi corrida a maluca, mas as ferias chegaram, finalmente chegaram, eu preciso e muito delas pra tentar colocar a cabeça no lugar e mesmo tentar produzir algo diferente (tudo bem que mais de uma semana já me cansa, mas isso é pro próximo post). Eu até poderia continuar falando do Saramago, mas as férias me fazem falar de outra coisa. Não só as férias, mas também algumas conversas que tive nessa reta final.

Tenho conversado com bastante gente nesses dias e invariavelmente eu vejo várias delas tristes, cansadas, desanimadas. Excesso, esse seria o primeiro movimento a se pensar, certo? Foi a minha primeira ideia também, e achei que isso resumia tudo, mas na verdade, a coisa só toma esse caminho até a página 2. A coisa é bem mais profunda e dolorosa.

Uma pessoa não cansa de me dizer que somos o reflexo daquilo que o outro enxerga. Já tivemos discussões a respeito disso, na maioria das vezes eu discordo. Confesso, entretanto que nesse caso sou obrigado a dar mão a palmatória e admitir que realmente estava enganado. É justamente isso que vejo nessas pessoas o tempo todo. E só cheguei a essa conclusão quando percebi que isso acontecia claramente comigo, a partir deste ponto, extrapolar foi algo bastante simples.

Eu falei com gente que se dizia cansada e desmotivada por não saber se seu trabalho realmente está bem feito. Por não ter qualquer sinal do mundo que indique que a coisa está andando na direção certa. Eu vi muita gente perdendo o humor por ter a percepção (talvez falsa) de que aquilo que se faz com mais empenho e importância acaba tendo menos importância do que papéis que na verdade todos sabem que não levam a lugar nenhum, pelo menos na parte do processo em que se atua. Enquanto tudo o que se desdobra pra se fazer bem feito porque é onde realmente a coisa acontece, nem é levado em consideração.

Sem pequenas respostas positivas do que nos cerca, a nossa confiança vai sendo pouco a pouco destruída, perguntamos a nós mesmos para que seguir adiante, ou mesmo se temos capacidade para tanto. Os questionamentos muitas vezes acabam sendo mais dolorosos do que a realidade e isso traz uma forte depressão e medo. Temos medo de qualquer pequeno passo, qualquer ação passa a parecer irrelevante demais ou o que é pior, passa a ser vista como algo além das nossas necessidades. Eu tenho pontos em minha vida em que me sinto exatamente assim. Algumas coisas parecem não fazerem parte daquilo que eu posso alcançar.

Nessa linha e até pensando na música que escolhi e principalmente na foto que ilustra este post. Semanas atrás fiz um trabalho que de certa me reconfortou. Eu sou professor, apesar de um imenso medo de gente, eu trabalho com pessoas e por menos que se possa parecer. Eu realmente me importo com algumas pessoas que convivem comigo. Ver algumas delas sucumbindo diante de um monte de situações diversas, ver estas pessoas sentindo dificuldade pra realizar coisas que sabidamente elas realizariam em minutos, tanto por falta de confiança, quanto pelo excesso, me incomodou.

Surgiu, meio por acaso, a chance de fazer um “pequeno agrado” a algumas pessoas. Fiz fotos com um objetivo muito claro pra mim (que era diferente da de quem me propôs a atividade). Eu só queria mostrar numa fotografia que as pessoas fotografadas eram muito mais belas, inteligentes e especiais do que imaginavam naquele momento de desgaste físico e emocional causado pelo sistema maluco em que estavam inseridas.

Fiz assim algumas fotos das pessoas e um deles é o que ilustra o post. Foi divertida a percepção do trabalho. No início a grande maioria das pessoas estava com medo da câmera, uma insegurança forte diante do que seria feito. Após verem as imagens, gostaram do que viram. Isso me alegrou, até porque era o que eu queria. Fazer algo que mesmo que momentaneamente alegrasse as pessoas que eu cliquei.

A escolha da música também partiu disso. Eu estava na dúvida, confesso. Mas dois dias atrás tive acesso ao pendrive de uma das pessoas que cliquei e vi ali as músicas do filme Across the Universe. Eu adorei o filme (tenho em casa) e gosto pra caramba dos Beatles. Logo buscar uma música no filme foi até uma atividade divertida. Chegar a “Let it be” foi assim parte do processo e o vídeo é de uma cena do filme.

A escolha de “Let it be”, tem a ver com a forma como muitas vezes nos apresentamos. Necessitados de uma palavra sábia num momento de escuridão. Um afago vindo de alguma “mother Mary”,  que nesse caso específico eu tentei sei, não sei se consegui, mas ao menos alguns sorrisos mesmo que contidos eu consegui, como esse belo sorriso ai da foto.

É normal perceber que cada pessoa tem seu calcanhar de Aquiles. Um ponto onde se mostra mais frágil e que precisa sim de mais estímulo para acreditar que pode. Um ponto onde sua auto confiança parece menor, na maioria dos casos por besteira, mas essa besteira nos impede de agir. É como o atleta que rende mais se o técnico diz que ele pode fazer, o aluno que precisa da confirmação do professor a cada questão respondida ou o namorado que precisa a todo momento de alguma confirmação dos sentimentos da pessoa amada.

Tudo isso, é claro, fez-me pensar também na minha situação e assumir que ainda não sei se o que acontece comigo é falta de capacidade ou falta de retorno do meu entorno. Assunto pra muitas sessões de terapia e de certa forma um pequeno alento, vai que sou menos incapaz do que eu me imagino?

OBSERVAÇÃO:  Eu começo agora a também escrever em um outro espaço, um blog coletivo iniciado pela minha grande amiga Lak. Lá eu devo colocar um tipo diferente de textos, provavelmente mais poesia, já que estou disposto a publicar um novo livro de fotos e poesias ainda neste ano.

O link do blog está aqui (www.devaneioslucidos.wordpress.com) e também nos sites que indico

http://www.youtube.com/watch?v=7gPjGuC6CFQ