A Hard Day’s Night – The Beatles

11 07 2010

Tentar viver como uma máquina torna viver possível, mas não agradável

Férias, como sempre um misto de sensações. Tem horas que eu curto, tem horas que eu detesto. Nunca sei ao certo como me sentir ou como agir nas férias. É certo que eu precisava descansar e colocar as ideias no lugar. É certo que as horas de sono a mais estão me deixando mais calmo e tranquilo. Mas parte de mim não se sente bem nesse período.

A Copa do Mundo já acabou, vi todos os jogos desde que entrei em férias. Comecei a ler coisas que estavam paradas. Pra aquecer o cérebro, retomei a poesia de uma russa chamada Anna Akhmatova. Belos versos e eu estou louco pra escrever meu próximo livro, logo ler poesia é mais que necessário.

Após a poetisa russa, um livro simples e rápido de um autor que eu adorava na adolescência (Frederick Forsith) e ainda gosto e agora estou na leitura de meu autor predileto do momento Nick Hornby, a leitura de Alta Fidelidade está bem mais do que agradável. Muitas ideias surgindo da leitura desse livro e já pensando na busca por outros livros do autor, provavelmente Slam seja o próximo da lista.

Ainda dá pra juntar ao meu tempo gasto algumas horas jogando videogame,  ouvindo música (se bem que a música acompanha as outras atividades), visitas rotineiras ao médico e o talvez mais insólito, acompanhar diariamente as etapas do Tour de France. Eu até tenho bicicleta, mas a anos que não pedalo e nunca pedalei grandes distâncias. Porém, gosto de ver as etapas, principalmente as etapas de montanha, onde vejo caras como Contador, Armstrong, Schleck e outros pedalando numa montanha como se estivem numa descida enquanto eu mal sai do meu sofá.

Eu poderia sair de casa, viajar, fazer programas culturais, fotografar, uma série de coisas. Mas não consigo. E por que não consigo? Muita coisa me impede, a mais grave o medo das pessoas. Até por isso eu não consigo curtir muito as férias longas, eu me perco sobre o que fazer. Meu medo cresce e eu me sinto preso. Isolado num mundinho particular da sala da minha casa, de onde raramente saio, a saber pra visitar médicos. Um ou outro resquício de coragem que bate pode até me fazer cair em outro programa, mas é pouco provável.

O mais esperado é a solidão forçada pelo medo. Onde recluso devo escrever meu livro, traçar versos onde (paradoxalmente) quero falar das marcas que as pessoas deixam umas nas outras. Marcas que, segundo minha linha de raciocínio, são as responsáveis por formar p indivíduo. Seja ele bom ou mal, é sempre resultado das cicatrizes que adquiriu em sua existência. Sua história e seus contatos interpessoais é que serão os responsáveis diretos por suas ações.

Agora eu me pergunto se o medo que tenho é o de mudar quem sou, ou mesmo se o medo é de descobrir quem sou. Que o medo é bobo já sei. Todo mundo me fala isso o tempo todo. Eu aceito isso como verdade, o medo é realmente bobo. Como boba é a ideia de que saber disso vai mudar o meu jeito de agir. O medo está além disso, está no subconsciente e direciona minhas ações.

Mesmo quando não estou em férias eu sou um pouco assim. Medroso, receoso e pouco aberto. No geral eu me refugio em meus medos. Fico sozinho e raramente me socializo, mesmo tendo um trabalho necessariamente social. Eu não me abro, não me aproximo, não me desarmo. Me fecho sim, por medo. Ofereço a face protegida aos colegas, aos alunos, aos chefes, a todo mundo que conviva comigo.

Rememoro assim meu post anterior, onde trouxe um retrato como foto e disse que fiz esse (e outros retratos), para de certa forma dar luz a pessoas que aparentemente tinham perdido a sua luz. Volto nisso, porque socialmente eu percebo que perdi minha luz e nem sei como recuperar. Meu medo e minha carência emocional surgem nos meus mais simples contatos. Assumo minha falta de aptidão pra vida social, mas assumo também que aceito de bom grado ajuda pra mudar isso.

Pretendo nos próximos posts brincar um pouco com essa ideia de carência e medo, fazendo uso do livro que estou lendo, Alta Fidelidade. Mas até chegar lá, assumo o medo das férias e a reclusão forçada.

Esse medo bobo inclusive me fez escolher a música dos Beatles como referência para esse tópico. As noites nas férias são de dias difíceis, todos os dias são difíceis pelo medo que me causam. O desenho também tem a ver. Eu vejo fantasmas em todos os pontos. Olho as pessoas até com carinho, mas a dificuldade de ler me faz ter medo de todo mundo. Demoro muito a me acostumar com quem convive comigo e cansei disso. Cansei de viver com medo e trancado, seja dentro da minha casa (onde de certa forma sinto paz), seja dentro da minha própria existência solitária.

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