A Lista – Oswaldo Montenegro

20 07 2010

É triste perceber que em 35 anos de idade minha pele traz poucas ou quase nenhuma cicatriz

Sabe quando você encontra um livro que conversa com você mais do que seria interessante? Sabe quando você lê frases que dizem mais verdades sobre você do que está preparado pra escutar? Sabe quando você reconhece num personagem ficcional uma série de características que odeia em você mesmo e nunca teve coragem ou capacidade pra mudar? É assim que eu me sinto hoje.

Demorei dias pra ler um livro que deveria ser lido em no máximo 3 dias e isso com bastante preguiça, eu levei semanas. Não que a história fosse densa, profunda, a leitura pesada ou difícil. Foi só uma leitura que tocou em várias feridas que nunca se cicatrizaram. Em período de férias, mais tempo ainda pensando nessas coisas. Repensando a minha humilde insignificância.

E por que falar disso só hoje? Dois motivos, um é que hoje as ideias estão mais claras, dá pra falar disso, se é que me entendem. O outro motivo, menos trivial e mais prático, é que me pediram um texto sobre como eu estava me sentindo. Bom o texto é sobre uma foto que fiz de mim mesmo após terminar o livro, sentado no sofá e ouvindo Oswaldo Montenegro. Claro que não colocarei a foto aqui, preservo os leitores do show de horrores, mas acho que vale a pena falar dessas sensações.

Eu tinha acabado de terminar de ler Alta Fidelidade (agora quero comprar o DVD do filme) de Nick Hornby, deitado/sentado/largado no sofá da sala ouvindo Oswaldo Montenegro, enquanto olhava pro nada e pensava no livro que me deixou triste. Pra quem não conhece, vale um pequeno resumo bastante breve da obra, já que eu pretendo falar do livro por um bom tempo aqui no blog. A história gira em torno da vida sentimental e profissional de Rob Fleming, um homem até certo ponto fracassado no campo profissional e no pessoal e que tem manias de elaborar listas dos 5 mais pra tudo.

Por enquanto fica nisso. Até porque eu prometi falar do que eu estava sentindo, no que eu estava pensando. Eu estava pensando nas minhas listas. As sensações que eu tive relembrando as pessoas que marcaram a minha vida. Aliás, tudo isso porque este é justamente o tema do livro que eu estou escrevendo, as marcas que recebemos ao longo da vida. As nossas cicatrizes.

Sabe o que dói em mim hoje e me deixou pensativo? Perceber que eu nem tenho tantas cicatrizes assim. Um cara com 35 anos (como o Rob do livro) deveria ter bem mais gente em suas listas. Gente na lista de pessoas especiais, de amigos, de amores, de tristezas, de histórias, de conquistas, de derrotas. Acho que só a lista de medos e a de coisas a fazer é que são imensas.

A tristeza bate ao perceber e sentir que vivi pouco e nem vejo tanta perspectiva assim pra mudar isso. Eu não sei viver, não aprendi isso em toda a minha existência e aparentemente não vou aprender nunca. Porque por mais que eu pense, por mais que eu busque, por mais que eu tente fazer, não consigo descobrir o que exatamente eu busco, dessa forma, eu vivo entre dois  mundos distintos, um profissional onde sou confiante e até tenho um certo destaque no que faço, digamos que eu me garanta, mas em minha vida pessoal, na verdade na vida comum e normal que todo mundo leva, eu sou ainda um bebê recém-nascido. Que não consegue fazer as coisas básicas e por isso nem sabe exatamente onde está, o que quer fazer ou pior, o que deseja fazer.

Esse problema na vida pessoal detona também o lado profissional, enquanto não aprender a me tornar mais maduro pessoalmente não atingirei nenhum lugar também profissionalmente e, pior do que tudo isso, continuarei me sentindo triste, com medo e solitário.

Sei que vocês não estão vendo o retrato que fiz, mas ele trazia isso.  Trazia o meu desespero em perceber que consigo ser tão vazio e imbecil como Rob Fleming. Trazia o meu medo de diferentemente do personagem nunca amadurecer como deveria e justamente por isso, nunca chegar emocionalmente, socialmente ou em qualquer instância a lugar nenhum. Como tem sido até hoje em minha vida.

Meu medo eterno de não conseguir nunca chegar ao mínimo aceitável de ação e existência de uma pessoa é o que me faz ficar triste e muitas vezes desesperado quando percebo que sem o trabalho eu sou apenas um pedaço de carne vazio, que não consegue ser preenchido por nada. Alguém que mal consegue fazer uma lista minimamente aceitável acerca daquilo que viveu, justamente porque infelizmente nada viveu.

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2 responses

21 07 2010
Dona Flor

Também sou fã do Nick Hornby, acabei de ler o novo, Juliet, Naked e foi ótimo!!
O High Fidelity mostra um cara muito infantil, perdidão, em um relacionamento que já não é tão interessante, mas mesmo assim ele quer manter… vejo nele muitos homens que eu conheço, que se acomodam com o que têm, porque não sabem como buscar o novo. Tá certo que no livro a lista de fracassos dele não ajuda, mas mesmo assim nunca é motivo pra se acomodar…

😉 Agora, fazer lista de fracassos eu acho que dispensaria, viu? Faça uma lista das coisas legais que vc já passou, como os prêmios em fotografia, livro, os alunos que formou… vc tem uma lista melhor que a do Rob. Beijos

21 07 2010
olharesdispersos

Valeu Flor,

Smacks




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