A Revolta dos Dândis – Engenheiros do Hawaii

27 07 2010

Por mais que nos imaginemos diferentes, queremos sempre as mesmas coisas

Voltando ao livro do último post. Gosto de algumas sacadas dos personagens criados pelo Nick Hornby. Não que ele crie tramas complexas ou profundas. Quem quer profundidade não deve passar perto dos seus livros. Mas as histórias são bem escritas, os enredos ao menos para mim são bastante interessantes.

O que torna aos meus olhos esses enredos interessantes é justamente o perfil retratado. Homens entre os 30 e 40 anos com todas as frustrações previsíveis em pessoas comuns dentro de determinado perfil. Justamente o perfil em que eu me encaixo, gente que curtia música pop rock dos anos 80 e depois cresceu buscando coisas nessa linha. Até a literatura lida acaba sendo a mesma e citada, por isso previsível. Não continuarei falando disso agora, mas de um aspecto que surge exatamente nesse ponto. A dificuldade em se aceitar perfeitamente comum, o homem comum.

Até já falei desse perfil em outros posts, mas a leitura do livro me motivou a retomar o tema, agora com alguns argumentos novos na minha escrita. Como disse no post anterior, o livro realmente mexeu comigo e me fez pensar. Trouxe a tona uma série de questionamentos que eu já apresentava, só não tinha coragem suficiente pra assumir e falar de alguns deles provavelmente me fará bem.

Quero começar com uma afirmação do Rob Fleming no livro. Um dos momentos em que o personagem se apresenta mais pleno é quando ele afirma que uma de suas principais qualidades é ser mediano. Em tudo. Não é bonito ou feio, não é burro e nem chega a ser um gênio, segundo ele mesmo diz, o melhor dele é estar na média.

Na primeira vez que li isso no livro, confesso que encarei culto ao derrotismo, alguma coisa parecida com o olha eu não bom em nada, mas também tem muita gente muito pior do que eu em tudo o que eu faço. Só mais adiante é que fui ter outra leitura do texto. Isso aconteceu quando eu comparei a vida até certo ponto medíocre do personagem com a minha vida e em escala maior com outras vidas que eu observo diariamente.

Quando a gente conversa com qualquer pessoa percebe que cada um traz consigo uma série sobre expectativas sobre a vida. Uma carga imensa de sonhos e prováveis ações que possam levar a realização desses sonhos. Entretanto, por mais que se diga que os sonhos variam, no fundo a variação acontece sempre em cima de temas universais, a saber, a vida pessoal e a vida profissional. Não foge muito disso.

O que acaba sendo engraçado é perceber que a maioria da

s pessoas acaba sim vivendo numa zona mediana, se dando mais ou menos bem nos dois lados e ai leva-se em conta que o grau de satisfação só pode ser medido pela própria pessoa, ou pelo menos analisando pessoas dentro da mesma realidade. E mais engraçado que isso é perceber que no fundo o que todos queremos é ser um pouco Rob Fleming, medianos.

Como assim medianos? E o destaque? E a busca pelo máximo isso é o que mais se vê por ai, muitos devem pensar. Mais ai eu discordo. Todo mundo quer uma área de destaque, apenas uma e no resto quer apenas a média do seu grupo. Fleming era o exagero nesse ponto, mas não posso deixar de dizer que no fundo sua maneira de pensar faz muito sentido.

O que as pessoas querem é um emprego legal, com certo reconhecimento do que se faz, uma família organizada e amorosa e uma das frases que eu mais ouço em todos os diálogos onde esse tipo de assunto aparece, as pessoas só querem mesmo o que todo mundo quer.

Isso me lembra outro livro do mesmo autor (e que eu já citei aqui), chamado Uma Longa Queda, onde um personagem em certa passagem da história percebe que é um músico, não o melhor músico do mundo, mas é um músico no que isso traz de positivo e negativo. É de certa forma a postura que é pregada pelo Fleming, você tem sua vida, ela é sua no que tem de bom e no que tem de ruim, suas qualidades são só suas, assim como seus defeitos.

Saber o seu tamanho dentro desse sistema é que é o grande prêmio nesse jogo. Saber sonhar dentro do que você pode, saber o tamanho do passo e onde pisar, saber exatamente o que você é para que seus desejos possam ser reais e as frustrações mínimas. Isso requer uma coragem que eu pelo menos não sei se tenho. Falo de coragem porque é necessário enfrentar a dor de se perceber que você ainda não atingiu o nível necessário para o passo seguinte e ai, antes de dar esse passo é preciso se preparar e ter paciência, algo que nem sempre é fácil.

Isso é mais flagrante em pessoas como eu. Eu me considero muito mais bem preparado na vida profissional do que na pessoal, como disse no post anterior, me sinto um bebê no que tange a minha vida pessoal. Muitas das coisas que eu quero são óbvias pra muita gente, são até simples, mas ainda estão além do que eu me percebo capaz de conseguir. Aliás, essa imaturidade acaba atrapalhando também a vida profissional, mas isso é outro papo. No fundo, a nossa vida não pode ser vista como extremos (como os que aparecem na música que dá título ao post), se separarmos demais as coisas acabamos nos perdendo e não sabendo exatamente quem somo e o que queremos.

O que importa dizer é que é frustrante ver que num aspecto você vai muito bem e no outro vai muito mal. Isso a gente acaba percebendo em diversas pessoas, que ou abrem mão da carreira pela vida pessoal ou o oposto e em determinado período da vida sentem falta de algo. Nesse ponto o ideal é ser meio Rob Fleming, não ser exatamente o melhor, mas também estar longe de ser o pior, claro dentro do seu grau de análise.

Diferente do que o personagem prega, eu ainda acredito que é perfeitamente possível ter um ponto de destaque que seja sem alterar o equilíbrio do resto, desde que esse ponto de destaque não sirva como fuga de tudo o que vai mal.

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