Miss Brasil 2000 – Rita Lee

30 07 2010

A gente dá muito valor ao belo e pouco ao verdadeiro

Dias atrás eu andava pelo centro de São Paulo. Confesso que não gosto muito de andar por aquela região. Não que eu não perceba a beleza dos muitos prédios da região, alguns com imenso valor histórico. Não que eu não reconheça inclusive as imensas melhorias que ocorreram na região. Melhorou o cuidado com os prédios, aliás, aumentou a ocupação da região. Novos bares, lojas mais bem cuidadas, mais policiamento, enfim, realmente a região melhorou muito.

Porém, confesso não ser o centro de São Paulo o assunto principal do meu post. Na verdade eu quero falar do que eu mais vi no centro, pessoas, muitas pessoas, pessoas de todos os tipos, formas e estilos imagináveis.

Gente normal e gente comum, mas gente que de certa forma sempre tem alguma peculiaridade. Eu poderia separar os tipos simplesmente pela aparência, os de terno, os mendigos, os mais casuais e por ai vai. Essa primeira leitura é frágil e infelizmente é a mais comum. A que mais vezes aparece nos pequenos julgamentos diários. Julgamos muito pela forma e pouco pelo conteúdo. Por mais que a gente queira a alcunha de racional, refutamos qualquer argumento lógico e deixamos que a aparência reine sobre nossas decisões. Eu fiz isso nesse post, quando falei do centro de São Paulo.

A vontade de falar disso veio do mesmo livro dos posts anteriores. Parte da última decepção citada pelo Rob Fleming se deve a sua leitura equivocada de uma pessoa por seu perfil, aliás, fazer perfis baseados na imagem foi uma constante desse personagem. Talvez por não conseguir se aprofundar exatamente em nada que não seja uma canção pop, talvez porque no fundo seja esse mesmo o nosso principal ponto de leitura e a tal beleza interior seja só um conceito irreal e inexistente.

É claro que Rob Fleming fez o caminho oposto, disso, ele associou as mudanças de roupa e status pelas quais a sua Laura passou como o principal motivo pra ela ter deixado de viver ao seu lado. Achou que mudanças externas tinham obrigatoriamente a ver com mudanças internas. Foi um erro bobo, como mostra o livro, o que fez o relacionamento afundar não foi Laura, mas o próprio Rob.

Essa leitura superficial e meramente estética, eu diria até instintiva. Algo nos agrada e por isso a gente se aproxima e encara como positivo. Sem pensar muito no assunto. Se você se reconhece visualmente ou aceita alguém visualmente, a tendência em confiar naquela pessoa aumenta. Até por isso, empresas buscam associar suas marcas a determinado padrão físico também. Por mais que a gente queira negar e ser politicamente correto, nós nos rendemos a um padrão visual mais do que gostaríamos.

Tanto que, por menos que a gente queira assumir, existe sim uma preocupação geral com a própria aparência, seja a roupa, o corte de cabelo, uma tatuagem, coisas que fazemos com o nosso corpo com o simples objetivo de chamar a atenção para um padrão pessoal que seja considerado belo. Aqui fica a ressalva, o conceito de belo varia de pessoa pra pessoa. Ninguém compra uma roupa achando pra se sentir feio nela, ninguém ao fazer uma tatuagem tem o objetivo de ficar ridículo, até os cortes de cabelos mais extravagantes são feitos porque quem os usa acha bonito.

É uma linguagem da nossa espécie, o mais engraçado (ao menos para mim) é perceber que não existe um padrão real pra se definir essa linguagem. Funcionamos como se cada um falasse um dialeto próprio. O lado curioso disso é que apesar de termos uma leitura nossa bastante pessoal, quando a leitura é feita em relação ao outro, seguimos um padrão.

Um conhecido meu tem diversas tatuagens, usa brincos e um corte de cabelo no mínimo chamativo. É uma pessoa super séria, atua numa empresa e diversas vezes tem que contratar funcionários, o engraçado é que ele diz que nas entrevistas dá prioridade a pessoas com aparência séria, de terno, corte discreto e tudo mais, quando pergunto se ele não é sério a resposta usual é sempre algo como eu sei que eu sou sério, quanto aos outros, precisam me provar.

Acho isso estranho, como ler no outro algo diferente do que se lê no espelho? Como a gente pode criar regras de leituras diferentes dentro dos mesmos sinais? Preconceito, é claro, preconceito bobo. Tão bobo quanto o que quase levou Rob a perder totalmente Laura sem perceber que quem estava mudando era ele. Tão bobo quanto olhar no centro de São Paulo e perceber que algumas pessoas mudam de direção ou de calçada dependendo da forma como as pessoas que surgem na direção contrária se vestem. O que me garante que as pessoas de terno são as honestas e as de roupas largadas devem ser evitadas? Eu ando todo rasgado em casa e não fujo de mim, aliás confio mais em mim do que em diversos políticos de terno e gravata.

Meu próximo post vai falar ainda da imagem que temos, mas se você tem alguma história divertida sobre o tema e quiser compartilhar, esteja a vontade.

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5 responses

30 07 2010
Tweets that mention Miss Brasil 2000 – Rita Lee « Olhares Dispersos -- Topsy.com

[…] This post was mentioned on Twitter by Alex Martins, Alex Martins. Alex Martins said: Miss Brasil 2000 – Rita Lee: http://wp.me/pvh81-7b […]

5 08 2010
Érika S.

Olá Alex!
Às vezes, parece-me que não há um esforço das pessoas em ir além desse olhar superficial, que resvala para um julgamento daquele que se vê. Tenho a impressão também de que se espera um sinal ou um “tchan” para aprofundar um olhar, o que para mim é um desperdício de oportunidade. Nem todas as pessoas fazem propaganda de si ou entoam jingles para divertir e interessar o olhar do próximo.
Beijos,

5 08 2010
olharesdispersos

Olá Érika, muitas vezes eu me pergunto se é realmente preciso aprofundar esse olhar, ou mais importante do que isso, o que me faz querer aprofundar o olhar em uma situação e não em outra, confesso que ainda não sei.
Smacks

17 08 2010
Érika S.

Eu também não sei. Ainda não descobri a fórmula do encanto. Parece algo com vida própria: surge do nada (pode ser no início ou depois de um longo tempo) e, simplesmente, acaba (sem dar aviso prévio). Como eu li num livro, acaba como um voo em queda livre e nem percebemos como ou em qual momento isso ocorreu.
Beijo grande

17 08 2010
olharesdispersos

Talvez não exista uma fórmula e tudo seja exatamente como é…

Aproveitando, com esse comentário vc já está concorrendo ao prêmio a ser sorteado, ok?

Smacks




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