Penny Lane – The Beatles

28 01 2010

assim como a flor precisa da abelha, a abelha precisa da flor

Ainda pensando em Forrest Gump, no que escrevi no último texto, eu retomo um antigo post meu o Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Quero retomar essa ideia relacionando isso com a responsabilidade dos nossos atos. Se da outra vez eu falava de um coração amargurado (o meu), hoje eu quero voltar ao tema pensando na responsabilidade dos atos.

Talvez a música que mais próximo se aproxime do que eu quero falar seja Penny Lane, principalmente nesse desenho animado que eu uso como referência (clique para ver). Nessa história os rapazes de Liverpool falam de situações comuns, de pessoas comuns de sua vida. Acontece que como pode ser facilmente visto no desenho, essas pessoas comuns possuem comportamentos comuns que interferem na vida de outras pessoas.

Até ai nada novo, eu escrevi exatamente isso no texto passado. O que muda aqui é a responsabilidade. Pensando em Forrest, ele de certa forma fez uso de seu jeito simplório (me falaram abobalhado, mas não penso dessa forma) e marcou todo mundo que passou por sua vida de uma forma positiva, só com existência em primeira instância e companhia em segundo estágio.

Vendo essas coisas me lembro também de um ditado batido, fazer o bem sem olhar a quem. Acho que ele faz sentido quando visto sob o olhar de quem lidera algo. Quando você faz algo e percebe que alguém fica feliz por suas ações, você sente uma leveza. Esse talvez seja o pagamento por fazer algo de bom. Ninguém é bom por ser, mas sim porque o prazer que se recebe por um ato bom é uma sensação maior do que a ofertada.

Nós costumamos cativar pessoas esperando esse tipo de sensação. É um mimo num aniversário, um jantar especial ou simplesmente um bom dia sorrindo. Ações comuns que fazemos para de certa forma não passarmos despercebidos. Eu atuo como professor, confesso que gosto quando percebo que uma ação minha faz diferença em algum aluno. Tenho a impressão de ter feito a coisa certa e uma sensação de dever cumprido.

O problema é que não somos como o Forrest, nem todas as nossas ações são positivas. Vale voltar ao desenho, o desejo do Paul por fama cria certa confusão. Pequenas ações cotidianas nossas possuem efeito parecido. É uma frase mal colocada, um olhar desviado que fazem alguém se sentir mal.

Claro que preciso entender que isso é fruto do fato da nossa espécie ser sociável. Cada pessoa reage de forma diferente ao que se apresenta aos seus olhos. Mas tomar certo cuidado com a forma como se age deveria ser a tônica de todos, e não o oposto como geralmente ocorre. Esse movimento de perceber até onde nossas ações afetam os outros e pesar os efeitos de cada ato ainda é pouco comum. Vemos isso profissionalmente, mas e nas relações interpessoais?

Nesse ponto, algo que muito me chateia é perceber como pessoas que nitidamente se amam se machucam tanto. É comum ver como pessoas extremamente próximas perdem seu auto controle e partem deliberadamente para a agressão ao outro. Quem ama é justamente quem mais fere. E a ferida acaba sendo mais profunda porque nunca esperamos esse tipo de ação, além do agressor conhecer com bastante propriedade os nossos pontos mais frágeis e dolorosos.

Nessas ações, invariavelmente após os momentos de raiva doentia, tanto agredido quanto agressor sentem a dor do ato. O efeito nunca fica apenas numa pessoa. Por mais que um dos lados afirme que não sente nada, nunca vi um caso onde isso realmente tenha acontecido. Por vezes os lados chegam a um meio termo e a boa convivência volta, mas algumas feridas infelizmente não se fecham nunca.

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O Mundo Anda Tão Complicado – Legião Urbana

26 01 2010

ser comum não nos faz menos importantes no mundo que nos cerca

Hoje voltando pra casa da Escola lembrei-me de um filme. Confesso que um filme comum, bem blockbuster mesmo. Acho que quase todo mundo já viu Forrest Gump. O personagem é levado pela vida, toma parte dos maiores fatos da história americana sem realmente querer isso. Um tipo de herói diferente, que nem percebe o que faz, apenas mantém a sua essência a todo mundo. Fazendo de tudo para ser uma pessoa comum.

Isso me lembra uma música da Legião Urbana. O mundo anda tão complicado (clique para ver e ouvir) fala de um casal em mudança pra uma casa nova. Gente comum que passa por problemas comuns e situações comuns. Quase como Forrest, que age de forma comum, mas em sua simplicidade se sobressai.

Esse é o ponto do texto de hoje. Raramente percebemos que somos únicos na nossa simplicidade. Como Forrest, a nossa simples existência altera o mundo que nos cerca, tanto de forma positiva quanto de forma negativa. Eu mesmo gostaria de ser apenas um mero observador, mas sei que tudo aquilo que faço altera a vida de todos que me cercam. Eu sei que já falei sobre esse tipo de coisa antes, mas agora quero explorar outro lado.

Viver com essa responsabilidade toda deveria ser algo complicado. Não sei quanto a vocês, mas pra mim, tudo isso me parece um peso enorme para apenas uma pessoa carregar. É claro que eu não estou dizendo que tudo o que acontece de bom ou de ruim é culpa minha. Nem me acho tão importante assim. Mas o que me preocupa é saber que minhas ações criam outras ações sobre as quais eu nem saberei o efeito. Sem perceber posso agir muito bem para uma pessoa e muito mal para outra.

Como se viver por si só já não fosse um peso muito maior do que eu me sinto apto a carregar. O bom senso me faz lembrar de mais um peso em nossas costas. Confesso que ao pensar nisso me pergunto como a maioria das pessoas consegue seguir adiante com suas vidas sem ligar pra isso. Como conseguimos ser tão mesquinhos a ponto de não pensarmos nas conseqüências de nossos atos mais comuns? Aliás, o que mais percebo é que raramente pensamos até nos nossos atos que nitidamente influenciam na vida dos outros, como votos, regras sociais e outros.

Nossa espécie é mesquinha, como provavelmente muitas outras também o são. Acreditar que só os humanos fazem o mal é dar-se uma importância maior do que realmente merecemos. Esse excesso de prepotência, o achar que somos realmente importantes talvez seja a chave do problema. Olhamos demais para o nosso próprio umbigo sem notar que isso afeta tudo o que está ao nosso redor.

O peso de viver com essa informação é muito grande, ao menos para mim. Confesso que não tenho coragem nem força pra suportar esse peso e muitos outros que temos que carregar só por estarmos vivos. Acho difícil e penoso fazer qualquer coisa levando isso em conta, pois é maravilhoso descobrir que alguém se alegra por algo que fizemos, mas como agir quando percebemos que nossa ação faz alguém chorar?





O Parque da Juraci – Genival Lacerda e Zeca Baleiro

12 07 2009
Só é possível que você sente numa dessas cadeiras na beira da praia porque alguém as fez e as colocou lá.

Só é possível que você sente numa dessas cadeiras na beira da praia porque alguém as fez e as colocou lá.

Na quinta eu falei da relação causa e efeito nos relacionamentos, mas ela atinge todos os pontos da nossa vida. Por mais que eu deseje isso (tenho que admitir), não dá pra viver isolado do mundo ou mesmo independente das outras pessoas.

Um exemplo disso é a música que eu escolhi para este texto. Adoro Zeca Baleiro e ouvindo uns CDs antigos encontrei essa música gravada junto com o Genival Lacerda. O clipe encontrado no youtube (clique aqui para ver) para o Parque de Juraci também é bastante divertido. Até porque não dá pra levar a sério nem fugir do riso em qualquer situação que o Genival Lacerda apareça. Até o hábito que ele traz em suas músicas de trabalhar com sentido duplo aparece, onde a frase Juraci que parque é confundida com Jurasic Park. Confesso que gostei da tirada dos autores do clipe.

Mas voltando ao que interessa. Na música, o Zeca fala que recebeu um convite para visitar um parque com a Juraci, mas ao chegar lá o parque já não existe, foi substituído por um restaurante por quilo. Ele descreve a história demonstrando as sensações que tomam conta do cantor. Primeiro a alegria eufórica pelo convite e depois a raiva e ira ao perceber-se sem o parque e de certa forma enganado.

Quantas vezes isso não acontece diariamente conosco? Você planeja algo nos mínimos detalhes, deixa tudo bem claro, porém, devido a outras pessoas seu planejamento vai por água abaixo. Por mais óbvio que alguns comportamentos possam parecer, nunca podemos prever o que o outro fará em determinada situação.

É comum no trabalho você seguir seu ritmo e se ver parado, pois depende do serviço do outro que ainda não fez a sua parte. Você se arruma pra sair e vai ao ponto de ônibus num dia chuvoso e um motorista passa numa poça te sujando inteiro no dia de uma entrevista de emprego. Coisas assim, bem lei de Murphy acontecem aos montes.

Talvez eu pareça um tanto misantropo, aliás, talvez eu até seja mesmo. Mas confesso que muitas vezes gostaria de depender menos do outro. Gostaria que as minhas ações fossem mais responsáveis pelo que sou e pelo que produzo do que as ações dos outros. Entretanto, sei que isso não passa de um sonho irreal e distante. Não existe independência social, até o mais isolado dos ermitões sofrerá as ações de pessoas que ele nem ao menos sabe que existem.

Confesso que algumas vezes essa dependência me dá medo. Gostaria sim de poder depender mais de mim em diversas situações. Gostaria de controlar mais partes de todos os processos que fazem parte da minha vida. Pelo menos em alguns aspectos. Assim como em muitos casos também gostaria de não intervir tanto na vida do outro.

Sei que muito da minha atividade profissional é feita para o outro. Sem a resposta do outro não vale a pena escrever, fotografar, dar aulas. Aliás, dar aulas talvez seja uma das ações que mais influencia na vida de outras pessoas. Eu sei disso e nem é esse o ponto que me preocupa. Nessa linha, o que me preocupa é algumas vezes encontrar pessoas que observam você como um guia a ser seguido.

São pessoas que atuam de forma completamente oposta ao que eu penso. São pessoas que deixam tudo na mão do outro e assumem isso. Suas idéias nunca são exatamente suas, nem as vontades. São pessoas que precisam de líderes sempre e infelizmente gente que é manipulada e parece gostar disso. Gente que não percebe que pode sim mostrar quem é e a que veio.

Provavelmente a situação correta seja o meio termo, nem sentir o incômodo que eu sinto nessa dependência e muito menos não perceber que se pode interagir sem aceitar tudo pronto. Sei também que atuamos de forma diferente em cada situação. Se quiser, conte uma situação em que se sente incomodado com a dependência do outro para algo em sua vida, ou então uma situação em que adora isso.





Eu tô voando – Karnak

7 07 2009
Vemos muita coisa diante dos nossos olhos e temos medo de agir

Vemos muita coisa diante dos nossos olhos e temos medo de agir

Depois de ficar duas semanas falando de internet, é momento de falar desse mundão real. Nessa semana pretendo falar da relação causa e efeito que temos nesse mundo. As escolhas que fazemos podem alterar o destino de outras pessoas? Até que ponto é viagem o tal efeito borboleta (eu sei que não é ciência, mas é engraçado como tem gente que vende isso como artigo científico)?

O tema nasceu de uma conversa breve com a amiga Lak do blog Desculpe, não ouvi. Ela contou de um filme que assistiu a um tempo e que mexeu com ela. Fala de um jovem que se mata e a sua morte influencia a vida de seus amigos durante um longo tempo. Enfim, uma idéia interessante para se discutir.

Mas por onde começar? Essa foi a questão inicial. Confesso que fiquei matutando sobre isso enquanto tentava dirigir no pesado trânsito paulistano num mês de férias. Acabei fazendo a opção mais lógica. Começar pelo medo de assumir qualquer responsabilidade que paira sobre muitos de nós em algum momento da vida. A vontade que às vezes paira sobre nós de ser apenas meros observadores do mundo que nos cerca. Eu tinha até a música perfeita para isso. Ano passado, fui ao teatro depois de um longo e tenebroso inverno (vergonha, preciso voltar a ver peças), fui assistir uma peça do Karnak e da Companhia Fractais chamada Universo Umbigo, muito boa por sinal. Numa das cenas, o André Abujamra é levantado por cabos e começa a cantar que do céu dá pra ver tudo, gente triste, gente feliz, passarinho voando, vendaval, cachorro, cabrito, etc.

Na letra ele é apenas espectador, fui atrás da música, se chama Eu to voando, para ver uma filmagem de parte da cena, clique aqui, se quiser ver um clipe completo da música, clique aqui pra ver uma apresentação do Karnak no Sesc Pompéia. Mas voltando, na cena o ator/cantor é apenas espectador e se sente maravilhado por aquilo. Tudo passa diante de seus olhos,  mas ele não tem vontade, coragem ou desejo de interferir nos atos.

Até que ponto nós somos assim? Assistimos a tudo o que passa diante dos nossos olhos sem ter a coragem de interferir. Seja um assalto na rua, uma pessoa que leva um tombo ou alguém que precisa de ajuda? E os mendigos invisíveis? Parece que temos medo de tomar parte, de assumir a nossa parcela de culpa e responsabilidade pelos atos da nossa sociedade.

Não é raro dizermos que isso não é culpa nossa, que não nos atinge ou que honestamente não vimos mesmo o que estava se passando diante dos nossos olhos. E assim a vida segue, elegemos pessoas e delegamos a elas todo o poder e responsabilidade por algo que também deveria ser de nossa responsabilidade. Damos o nosso apoio no momento positivo, em caso de derrota a culpa é sempre do outro (vide os atletas que só são valorizados em caso de sucesso, mas ninguém vê o quanto ralam pra competir em alto nível).

Cobramos de pessoas com um poder aquisitivo maior que ajudem a sociedade, sejam socialmente ativas, distribuam parte de sua fortuna, principalmente celebridades esportivas e artísticas, mas muitas vezes não fazemos nada. Julgamos o mundo que passa diante dos nossos olhos da janela que abrimos para ele e se algo ameaça respingar em nosso rosto, simplesmente fechamos a janela e continuamos julgando através da vidraça.

Por que temos esse medo? Eu imagino que esse medo surja por duas diferentes situações, a primeira é a falta de confiança em nós mesmos, o peso da decisão pode parecer forte demais para alguns. A segunda situação aparentemente parece ligada a primeira, mas não é. Não é o peso da responsabilidade, mas sim a sequência de ações que virão decorrentes de cada escolha feita.

Isso decorre do fato de em muitas de nossas escolhas sempre alguém sai machucado. Quando se faz a coisa certa pesa-se a dor causada ao outro e principalmente a força interior que temos para agüentar a responsabilidade de causar essa dor. Porque milhares de ações sempre acabam interligadas e julgar tudo o que está envolvido em cada ação é complexo e cansativo demais. Talvez por isso, em vários casos preferimos atuar como espectadores e repetir um bordão clássico de quem sempre espera: A VIDA SEGUE…





Quantas vitórias cantem meus versos…

7 06 2009
toda vitória deve ser vista como algo tangível e tridimensional, apresentando sempre diversas marcas, por isso nem toda vitória tem sabor agradável

toda vitória deve ser vista como algo tangível e tridimensional, apresentando sempre diversas marcas, por isso nem toda vitória tem sabor agradável

Pego carona na letra de Oswaldo Montenegro para começar este post, sei que ando afastado, peço desculpas aos leitores, problemas pessoais me afastam daqui mais do que gostaria. Continuo hoje falando das vitórias, na verdade hoje a idéia é dar um passo além. Quero falar das vitórias incompletas, aquelas que fazem um grande sucesso nas histórias em quadrinhos. As vitórias dos heróis, onde mesmo sabendo que a vitória surgirá, um sentimento amargo de derrota tomara conta dos envolvidos.

De novo esse tipo de sensação é comum nos quadrinhos, o herói em questão muitas vezes sabe que para conseguir seu intento terá que sofrer ou muitas vezes morrer. Esse é o lado nobre desse tipo de acontecimento. Entretanto (sempre tem um entretanto), existem outras vitórias assim incompletas sem a mesma nobreza. O nosso sutil comportamento humano traz tantas nuances que muitas vezes o sabor da vitória torna-se tão amargo que se torna intragável e passamos a questionar se realmente o fato não foi uma derrota ao invés de uma vitória.

Passei por acontecimentos assim ultimamente, na verdade se analisar friamente, esse tipo de vitória é até mais frequente do que aquelas vitórias a serem ardorosamente comemoradas. Isso, é claro, se você não for daquelas pessoas que se prende apenas ao resultado, mas se interessa também por tudo o que cercou a vitória, analisa as escolhas feitas e principalmente todos os efeitos que essa vitória terá nos envolvidos no processo (derrotados inclusive).

E ai é que a coisa toda se torna dolorosa. Afinal, raramente uma ação é tão isolada a ponto de não afetar outros acontecimentos. E em alguns casos esses acontecimentos nem são tão próximos assim. São situações por vezes distantes que se entrelaçam devido a improváveis relações entre os indivíduos.

É uma derrota num jogo que faz com que o ânimo de uma equipe se renove. É a promoção de uma pessoa a um cargo de chefia que esfria suas relações sociais e por isso mesmo a faz ficar ressentida até das pessoas de sua família. É uma informação que demora a chegar e que por isso modifica o comportamento de uma empresa.

Como diz o efeito borboleta, toda ação pode causar alterações bem distantes do seu local de origem

Como diz o efeito borboleta, toda ação pode causar alterações bem distantes do seu local de origem

Essa fala toda em cima do tal efeito borboleta (aqui falo da visão popular em maior escala e não da científica, por me faltar conhecimento para tanto), surge porque penso que deveríamos sempre nos nos preocupar com os efeitos de nossos atos. E mais do que isso deveríamos julgar esses efeitos na hora de tomar as decisões. Algo que nos aproxime dos ditos heróis, tomar a decisão correta doa a quem doer, porque em qualquer ação que se faça, infelizmente alguém vai se sentir derrotado. E saber a quem vai sobrar a dor, a intensidade dessa dor e principalmente compreender que essa dor será realmente necessária é algo difícil. Talvez seja essa a maior inveja que eu sinta dos heróis dos quadrinhos, esse senso de equilíbrio e a capacidade de trazer sempre a dor para si, minimizando a dor dos outros pelo simples fato de saber que eles aguentam o baque. Nós, pessoas reais, ainda temos a dúvida de até onde aguentamos segurar a onda e infelizmente, uma de nossas primeiras ações é tirar a dor e a responsabilidade de nossas costas e colocar na do outro.