Receita Para se Fazer um Herói – Ira!

20 02 2010

Quando aprenderemos a ver o melhor das coisas mais comuns?

Primeiro post pós carnaval, hoje falo da construção do herói. Penso um pouco ainda no Forrest Gump, Forrest foi construído. O homem comum que foi feito famoso e tomou parte de grandes acontecimentos. Seja na guerra, seja pescando camarões seja correndo. Forrest apenas viveu. Como todo mundo vive.

Pensando exatamente nesse ponto, hoje eu 3 blogs que visito de vez em quando. São de amigos. Pessoas comuns, mas que de certa forma poderiam ser feitas heróis, por se destacarem em alguns aspectos. Por fazerem bem algumas coisas e justamente por quererem mesmo ser pessoas comuns, com defeitos como qualquer um tem.

A música escolhida também tem uma forte razão de escolha. Receita para se fazer um herói (clique para ouvir) é uma música do disco Psicoacústica. Na época o Ira! Fazia a cabeça da juventude, seus dois primeiros discos venderam muito, mas esse terceiro trazia uma forma diferente da banda tocar e justamente por isso (apesar de ser muito bom) foi um fracasso de vendas. Ser um herói de certa forma também significa responder aquilo que se espera de você, não sair de uma determinada linha.

Criamos heróis o tempo todo. Modelos de destaque em áreas que de alguma forma são importantes para nós. Buscamos referência em alguém que nos pareça comum o suficiente e ao mesmo tempo destacado naquilo que observamos. Alguns podem dizer que não precisamos de ídolos. Eu dentro da minha linha de raciocínio discordo totalmente disso.

Nos momentos de maior crise interna, esses modelos de superação que são os heróis servem para fazer com que possamos sonhar em vencer nossos medos momentâneos. Não falo da idolatria doentia, do deixar de viver a própria vida para tentar viver a vida de um ídolo, mas sim a busca por inspiração e a sensação de que os medos podem sim ser vencidos.

Nessa linha de raciocínio, o herói é formado simplesmente pela observação e inspiração, ou como canta o Ira!,

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.

Pegamos um homem comum, de estatura moral comum e vemos o que ele faz melhor do que os outros, mesmo sendo normal e comum. E o idolatramos exatamente por isso, por se tornar um bom modelo de homem bom.

Parece estranho, mas eu separei 3 modelos dessa minha forma de pensar pra deixar claro o que eu quero dizer. O primeiro exemplo vem do primeiro blog que eu passei a realmente acompanhar. O Desculpe Não Ouvi (clique para ver o blog), da Lak, uma amiga deficiente auditiva que até fez um blog que gira sim em torno disso, mas que principalmente trata do assunto com um bom humor e leveza louváveis. Impossível não idolatrar alguém que leva seus problemas a um nível quase caricato e sério ao mesmo tempo. Por mais que ela negue é um exemplo a ser seguido e idolatrado. Alguém que se quer copiar nos bons exemplos. Na maneira de levar a vida.

Nessa mesma linha, tem outro blog o da Dona Flor (clique para visitá-lo). Uma amiga que depois de várias peripécias em sua vida, acabou casando com um alemão e se mudando pra um pequeno vilarejo na Alemanha. Imagine como seria repensar todos os seus sonhos e forma de viver, saindo de uma cidade grande e se mudando pra um local onde não tem nada. Onde não se conhece a língua, onde todos de olham de maneira estranha. Bom ela enfrentou tudo isso. Enfrenta na verdade. Seu blog é a melhor forma de perceber isso. No começo trazia pequenas reclamações do modo de vida novo. Agora traz textos de alguém que está refazendo a própria vida e sonhos. Algo que todo mundo deveria fazer, parar de reclamar dos problemas e buscar soluções dentro de nossas possibilidades.

O terceiro blog é de um amigo fotógrafo, o Fernando Paes (clique para ver seu blog). Todo mundo que me conhece sabe que eu abomino fotos de casamento. Nem considero esse tipo de foto arte ou algo parecido com isso. Vejo como uma cerimônia falsa e as fotos como algo mais falso ainda. Esse amigo meu vê isso de forma totalmente diversa. Ele realmente adora isso, tanto que reestruturou toda a sua vida profissional pra poder se dedicar ao máximo a aquilo que acredita, fotos de casamento. Nesse ponto o que interessa é a forma como ele vê esse trabalho. Ele realmente acredita que ao fazer isso estará fazendo algo de bom para os noivos, é quase como se seu trabalho fosse um presente. Ele faz porque acredita e acredita que é algo importante para outra pessoa. Quem não quer fazer algo que seja importante para o outro? Quem não quer ir além da própria necessidade e suprir a necessidade do outro?

Reparem são 3 pessoas comuns, com defeitos como qualquer um. Porém, cada um deles tem algo a ser copiado. Algo a ser idolatrado. Qualquer um dos 3 pode sim ser considerado um herói em algum aspecto. Heróis não precisam de super poderes, precisam de boas ações e principalmente parecerem com aquilo que a gente conhece. Herói tem que ser alguém comum, afinal, são os heróis de carne e osso que realmente idolatramos.

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Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás – Raul Seixas

1 02 2010

Um homem como Saramago só é grande em seu tempo por ser exatamente igual a muitos outros

Ainda pensando em Forrest Gump, hoje mudo um pouco o foco. Tem uma coisa no filme que me chama a atenção. É a reconstituição de fatos importantes da história norte-americana. Não que eu ame a história desse país, mas sim um fato que o filme trata. O filme mostra uma história em que aparecem grandes nomes, mas estes dependem e muito da ação do homem comum. É engraçado como na maioria das vezes escolhemos alguns para representar as conquistas e perdas de um povo.

Aqui vale lembrar de uma música do grande Raul Seixas. Raulzito bradou que nascera a 10 mil anos atrás (clique para ouvir). Que viu coisas que ninguém mais viu e que passou pelos principais fatos da história mundial. Ele ainda pede que provém que ele mente. Esse é o ponto mais interessante da música e até mesmo da história de Forrest. Ninguém se lembra dos inúmeros homens e mulheres que construíram a história da humanidade.

A história na verdade sempre foi feita por homens comuns. O que acontece é que alguém acaba aparecendo como líder de tudo e ganha os créditos por tudo o que aconteceu naquele momento histórico. Nomes importantes provavelmente foram menos importantes do que se prega. Mas ninguém vai se lembrar de quem realmente fez o serviço sujo. Grandes monumentos foram erguidos e ninguém se lembra dos operários.

Um exemplo disso ocorreu claramente com o nosso presidente. Lula é um símbolo da classe operária. Alguém que veio das classes populares e conseguiu chegar ao topo. Guardadas as devidas proporções e disputas ideológicas, lembra a trajetória do também sindicalista Lech Walesa ao comando da Polônia.

O que vale ressaltar, entretanto, é que nem Lula nem Walesa são realmente especiais. Eles na verdade representam apenas a luta de todo um grupo, mas não são o grupo. Daqui a alguns anos, livros de história vão trazer Lula como herói, assim como trazem já Lech Walesa.

Eu não questiono isso, só sou contra essa idolatria, Lula não é herói nem bandido, é apenas ém alguém. Alguém que foi escolhido pra servir de símbolo de uma parcela da população. No caso de Lula, até filme sobre sua vida já existe. Uma obra distorcida como qualquer filme biográfico. Ninguém vai fazer um filme homenageando uma pessoa e vai levantar seus podres. A não ser que estes podres sejam fundamentais para o entendimento do personagem que criaram para essa pessoa.

Já o verdadeiro homem comum é sempre deixado de lado. É claro que tudo o que se faz é em nome do homem comum. As leis são criadas pelo e para o bem estar do homem comum. As construções são feitas para proveito do homem comum, bem como as plantações, os livros, as músicas. Tudo é feito em nome do homem comum.

E, provavelmente este seja o grande problema do homem comum. O homem como Forrest que viu a história passar diante de seus olhos tomando parte. O homem que construiu a história da humanidade como cantou Raul Seixas. Para que esse homem possa realmente tomar parte da história, de tempos em tempos alguns são escolhidos para representar o todo, e infelizmente só esses escolhidos é que são lembrados.





Penny Lane – The Beatles

28 01 2010

assim como a flor precisa da abelha, a abelha precisa da flor

Ainda pensando em Forrest Gump, no que escrevi no último texto, eu retomo um antigo post meu o Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Quero retomar essa ideia relacionando isso com a responsabilidade dos nossos atos. Se da outra vez eu falava de um coração amargurado (o meu), hoje eu quero voltar ao tema pensando na responsabilidade dos atos.

Talvez a música que mais próximo se aproxime do que eu quero falar seja Penny Lane, principalmente nesse desenho animado que eu uso como referência (clique para ver). Nessa história os rapazes de Liverpool falam de situações comuns, de pessoas comuns de sua vida. Acontece que como pode ser facilmente visto no desenho, essas pessoas comuns possuem comportamentos comuns que interferem na vida de outras pessoas.

Até ai nada novo, eu escrevi exatamente isso no texto passado. O que muda aqui é a responsabilidade. Pensando em Forrest, ele de certa forma fez uso de seu jeito simplório (me falaram abobalhado, mas não penso dessa forma) e marcou todo mundo que passou por sua vida de uma forma positiva, só com existência em primeira instância e companhia em segundo estágio.

Vendo essas coisas me lembro também de um ditado batido, fazer o bem sem olhar a quem. Acho que ele faz sentido quando visto sob o olhar de quem lidera algo. Quando você faz algo e percebe que alguém fica feliz por suas ações, você sente uma leveza. Esse talvez seja o pagamento por fazer algo de bom. Ninguém é bom por ser, mas sim porque o prazer que se recebe por um ato bom é uma sensação maior do que a ofertada.

Nós costumamos cativar pessoas esperando esse tipo de sensação. É um mimo num aniversário, um jantar especial ou simplesmente um bom dia sorrindo. Ações comuns que fazemos para de certa forma não passarmos despercebidos. Eu atuo como professor, confesso que gosto quando percebo que uma ação minha faz diferença em algum aluno. Tenho a impressão de ter feito a coisa certa e uma sensação de dever cumprido.

O problema é que não somos como o Forrest, nem todas as nossas ações são positivas. Vale voltar ao desenho, o desejo do Paul por fama cria certa confusão. Pequenas ações cotidianas nossas possuem efeito parecido. É uma frase mal colocada, um olhar desviado que fazem alguém se sentir mal.

Claro que preciso entender que isso é fruto do fato da nossa espécie ser sociável. Cada pessoa reage de forma diferente ao que se apresenta aos seus olhos. Mas tomar certo cuidado com a forma como se age deveria ser a tônica de todos, e não o oposto como geralmente ocorre. Esse movimento de perceber até onde nossas ações afetam os outros e pesar os efeitos de cada ato ainda é pouco comum. Vemos isso profissionalmente, mas e nas relações interpessoais?

Nesse ponto, algo que muito me chateia é perceber como pessoas que nitidamente se amam se machucam tanto. É comum ver como pessoas extremamente próximas perdem seu auto controle e partem deliberadamente para a agressão ao outro. Quem ama é justamente quem mais fere. E a ferida acaba sendo mais profunda porque nunca esperamos esse tipo de ação, além do agressor conhecer com bastante propriedade os nossos pontos mais frágeis e dolorosos.

Nessas ações, invariavelmente após os momentos de raiva doentia, tanto agredido quanto agressor sentem a dor do ato. O efeito nunca fica apenas numa pessoa. Por mais que um dos lados afirme que não sente nada, nunca vi um caso onde isso realmente tenha acontecido. Por vezes os lados chegam a um meio termo e a boa convivência volta, mas algumas feridas infelizmente não se fecham nunca.