A Forest – The Cure

24 04 2011

Os peixes se enxergam livres porque não percebem os limites do aquário

E viva as redes sociais! Li hoje uma frase no perfil do facebook de uma amiga que inspira o post de hoje. Ela, como eu, é amante de fotografia. Ela, como eu, gosta de ver a fotografia como algo além do simples clicar. Enxergamos fotografia como uma forma de expressão humana. Diferentemente de mim, ela tem muito mais bagagem e conhecimento pra falar do tema. Mas vamos trazer a frase pra cá.

“As fotos não mentem, mas mentirosos podem fotografar”. Lewis Hine

A frase veio acompanhada de um comentário onde se fala que o ângulo em que uma foto foi batida dá a impressão de que o presidente americano, em sua visita ao Brasil ficou de olho no traseiro de uma estudante.

Ai vem a questão, ele realmente olhou, ou o fotógrafo imaginou que ele olhou? Qual a verdade no fato? Ou mais importante que isso, em qual das verdades vale a pena acreditar? O que vale a pena ser levado a sério no caso? Faço essas perguntas porque vejo o caso visto de outra forma. Cada pessoa tem a sua verdade e acredita nela. A forma como essa verdade é passada adiante é que vai tornar isso socialmente verdadeiro ou não.

A tal foto, se distribuída e publicada por vários veículos de comunicação e discutida como verdade se tornará real para a maioria. E todos passarão a ver aquilo como real, independente do grau de verdade da cena. Até porque fotografias nunca são reais, elas são apenas aquilo que o fotógrafo enxerga, isso dependendo do grau de miopia social, moral, ética ou comportamental que a pessoa que opera a câmera tenha. Assim como os artigos publicados, os jornais veiculados.

Todo fato depende dessa linha de verdade relativa. Dependendo de onde você olhe pode ter uma impressão diferente do assunto. E é essa impressão que você sempre vai divulgar. De acordo com seu poder de persuasão, isso pode ou não ser considerado verdade por todos. Exemplo mais clássico disso é a comemoração do Natal em dezembro. Qualquer pesquisa mínima mostra que o Natal com certeza não ocorre nessa data e mesmo assim grande parte da população mundial faz festa no dia. Vale o mesmo raciocíonio para o início do ano. Alguém no passado escolheu um dia sem qualquer marcação lógica e todo mundo aceitou.

Hoje vemos pessoas reclamando do poder da mídia, fazendo campanhas contra determinadas emissoras, dizendo que elas são possuidoras do poder e tudo mais. Acontece que na verdade o que a maioria dessas pessoas quer é apenas mudar quem influencia mais o todo. Provavemente trocando de lugar com quem tem mais força de persuasão.

Outro ponto dessa linha de pensamento é a nossa auto ilusão. A canção do The Cure, A Forest, conta a história de alguém que acredita ver algo que na verdade é irreal. Quantas vezes isso não ocorre conosco? Acreditamos piamente em algo que não existe. Em algo que só nós vemos porque foi totalmente criado em nossa mente.

Quando a ilusão é puramente pessoal, o único prejudicado é quem tem a ilusão. Mas e quando a ilusão é propagada aos quatro ventos e vendida como verdade? E quando todo um mundo vive num universo falso? Nem falo do exagero de um mundo Matrix, mas sim de coisas simples, como acreditar que manga com leite faz mal. Deste ponto para acreditar que um político pode ser visto como salvador do povo, temos um passo curto demais.

Eu trabalho como professor e me preocupo muito com a forma como meus alunos enxergam as verdades que tento passar a eles. Primeiro porque essas verdades são minhas, não obrigatoriamente deles e segundo porque eles tem que ter poder de decisão e compreensão sobre aquilo que vão considerar como verdade e não aceitar a primeira visão que recebem de qualquer tema sem uma forte reflexão interna.

Porque aceitar que existam diferentes verdades acaba sendo inerente da nossa espécie, mas não questionar isso a ponto de aceitar que outros definam quais serão as verdades que devemos aceitar sem pensar muito no assunto é fazer-se de prisioneiro do pensamento alheio, é abrir mão daquilo que provavelmente nos torne realmente humanos.

O que você pensa sobre isso?

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Let it Be – Across the Universe

1 07 2010

Quem não se encanta com um belo sorriso como esse?

Essa semana foi corrida a maluca, mas as ferias chegaram, finalmente chegaram, eu preciso e muito delas pra tentar colocar a cabeça no lugar e mesmo tentar produzir algo diferente (tudo bem que mais de uma semana já me cansa, mas isso é pro próximo post). Eu até poderia continuar falando do Saramago, mas as férias me fazem falar de outra coisa. Não só as férias, mas também algumas conversas que tive nessa reta final.

Tenho conversado com bastante gente nesses dias e invariavelmente eu vejo várias delas tristes, cansadas, desanimadas. Excesso, esse seria o primeiro movimento a se pensar, certo? Foi a minha primeira ideia também, e achei que isso resumia tudo, mas na verdade, a coisa só toma esse caminho até a página 2. A coisa é bem mais profunda e dolorosa.

Uma pessoa não cansa de me dizer que somos o reflexo daquilo que o outro enxerga. Já tivemos discussões a respeito disso, na maioria das vezes eu discordo. Confesso, entretanto que nesse caso sou obrigado a dar mão a palmatória e admitir que realmente estava enganado. É justamente isso que vejo nessas pessoas o tempo todo. E só cheguei a essa conclusão quando percebi que isso acontecia claramente comigo, a partir deste ponto, extrapolar foi algo bastante simples.

Eu falei com gente que se dizia cansada e desmotivada por não saber se seu trabalho realmente está bem feito. Por não ter qualquer sinal do mundo que indique que a coisa está andando na direção certa. Eu vi muita gente perdendo o humor por ter a percepção (talvez falsa) de que aquilo que se faz com mais empenho e importância acaba tendo menos importância do que papéis que na verdade todos sabem que não levam a lugar nenhum, pelo menos na parte do processo em que se atua. Enquanto tudo o que se desdobra pra se fazer bem feito porque é onde realmente a coisa acontece, nem é levado em consideração.

Sem pequenas respostas positivas do que nos cerca, a nossa confiança vai sendo pouco a pouco destruída, perguntamos a nós mesmos para que seguir adiante, ou mesmo se temos capacidade para tanto. Os questionamentos muitas vezes acabam sendo mais dolorosos do que a realidade e isso traz uma forte depressão e medo. Temos medo de qualquer pequeno passo, qualquer ação passa a parecer irrelevante demais ou o que é pior, passa a ser vista como algo além das nossas necessidades. Eu tenho pontos em minha vida em que me sinto exatamente assim. Algumas coisas parecem não fazerem parte daquilo que eu posso alcançar.

Nessa linha e até pensando na música que escolhi e principalmente na foto que ilustra este post. Semanas atrás fiz um trabalho que de certa me reconfortou. Eu sou professor, apesar de um imenso medo de gente, eu trabalho com pessoas e por menos que se possa parecer. Eu realmente me importo com algumas pessoas que convivem comigo. Ver algumas delas sucumbindo diante de um monte de situações diversas, ver estas pessoas sentindo dificuldade pra realizar coisas que sabidamente elas realizariam em minutos, tanto por falta de confiança, quanto pelo excesso, me incomodou.

Surgiu, meio por acaso, a chance de fazer um “pequeno agrado” a algumas pessoas. Fiz fotos com um objetivo muito claro pra mim (que era diferente da de quem me propôs a atividade). Eu só queria mostrar numa fotografia que as pessoas fotografadas eram muito mais belas, inteligentes e especiais do que imaginavam naquele momento de desgaste físico e emocional causado pelo sistema maluco em que estavam inseridas.

Fiz assim algumas fotos das pessoas e um deles é o que ilustra o post. Foi divertida a percepção do trabalho. No início a grande maioria das pessoas estava com medo da câmera, uma insegurança forte diante do que seria feito. Após verem as imagens, gostaram do que viram. Isso me alegrou, até porque era o que eu queria. Fazer algo que mesmo que momentaneamente alegrasse as pessoas que eu cliquei.

A escolha da música também partiu disso. Eu estava na dúvida, confesso. Mas dois dias atrás tive acesso ao pendrive de uma das pessoas que cliquei e vi ali as músicas do filme Across the Universe. Eu adorei o filme (tenho em casa) e gosto pra caramba dos Beatles. Logo buscar uma música no filme foi até uma atividade divertida. Chegar a “Let it be” foi assim parte do processo e o vídeo é de uma cena do filme.

A escolha de “Let it be”, tem a ver com a forma como muitas vezes nos apresentamos. Necessitados de uma palavra sábia num momento de escuridão. Um afago vindo de alguma “mother Mary”,  que nesse caso específico eu tentei sei, não sei se consegui, mas ao menos alguns sorrisos mesmo que contidos eu consegui, como esse belo sorriso ai da foto.

É normal perceber que cada pessoa tem seu calcanhar de Aquiles. Um ponto onde se mostra mais frágil e que precisa sim de mais estímulo para acreditar que pode. Um ponto onde sua auto confiança parece menor, na maioria dos casos por besteira, mas essa besteira nos impede de agir. É como o atleta que rende mais se o técnico diz que ele pode fazer, o aluno que precisa da confirmação do professor a cada questão respondida ou o namorado que precisa a todo momento de alguma confirmação dos sentimentos da pessoa amada.

Tudo isso, é claro, fez-me pensar também na minha situação e assumir que ainda não sei se o que acontece comigo é falta de capacidade ou falta de retorno do meu entorno. Assunto pra muitas sessões de terapia e de certa forma um pequeno alento, vai que sou menos incapaz do que eu me imagino?

OBSERVAÇÃO:  Eu começo agora a também escrever em um outro espaço, um blog coletivo iniciado pela minha grande amiga Lak. Lá eu devo colocar um tipo diferente de textos, provavelmente mais poesia, já que estou disposto a publicar um novo livro de fotos e poesias ainda neste ano.

O link do blog está aqui (www.devaneioslucidos.wordpress.com) e também nos sites que indico

http://www.youtube.com/watch?v=7gPjGuC6CFQ