Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás – Raul Seixas

1 02 2010

Um homem como Saramago só é grande em seu tempo por ser exatamente igual a muitos outros

Ainda pensando em Forrest Gump, hoje mudo um pouco o foco. Tem uma coisa no filme que me chama a atenção. É a reconstituição de fatos importantes da história norte-americana. Não que eu ame a história desse país, mas sim um fato que o filme trata. O filme mostra uma história em que aparecem grandes nomes, mas estes dependem e muito da ação do homem comum. É engraçado como na maioria das vezes escolhemos alguns para representar as conquistas e perdas de um povo.

Aqui vale lembrar de uma música do grande Raul Seixas. Raulzito bradou que nascera a 10 mil anos atrás (clique para ouvir). Que viu coisas que ninguém mais viu e que passou pelos principais fatos da história mundial. Ele ainda pede que provém que ele mente. Esse é o ponto mais interessante da música e até mesmo da história de Forrest. Ninguém se lembra dos inúmeros homens e mulheres que construíram a história da humanidade.

A história na verdade sempre foi feita por homens comuns. O que acontece é que alguém acaba aparecendo como líder de tudo e ganha os créditos por tudo o que aconteceu naquele momento histórico. Nomes importantes provavelmente foram menos importantes do que se prega. Mas ninguém vai se lembrar de quem realmente fez o serviço sujo. Grandes monumentos foram erguidos e ninguém se lembra dos operários.

Um exemplo disso ocorreu claramente com o nosso presidente. Lula é um símbolo da classe operária. Alguém que veio das classes populares e conseguiu chegar ao topo. Guardadas as devidas proporções e disputas ideológicas, lembra a trajetória do também sindicalista Lech Walesa ao comando da Polônia.

O que vale ressaltar, entretanto, é que nem Lula nem Walesa são realmente especiais. Eles na verdade representam apenas a luta de todo um grupo, mas não são o grupo. Daqui a alguns anos, livros de história vão trazer Lula como herói, assim como trazem já Lech Walesa.

Eu não questiono isso, só sou contra essa idolatria, Lula não é herói nem bandido, é apenas ém alguém. Alguém que foi escolhido pra servir de símbolo de uma parcela da população. No caso de Lula, até filme sobre sua vida já existe. Uma obra distorcida como qualquer filme biográfico. Ninguém vai fazer um filme homenageando uma pessoa e vai levantar seus podres. A não ser que estes podres sejam fundamentais para o entendimento do personagem que criaram para essa pessoa.

Já o verdadeiro homem comum é sempre deixado de lado. É claro que tudo o que se faz é em nome do homem comum. As leis são criadas pelo e para o bem estar do homem comum. As construções são feitas para proveito do homem comum, bem como as plantações, os livros, as músicas. Tudo é feito em nome do homem comum.

E, provavelmente este seja o grande problema do homem comum. O homem como Forrest que viu a história passar diante de seus olhos tomando parte. O homem que construiu a história da humanidade como cantou Raul Seixas. Para que esse homem possa realmente tomar parte da história, de tempos em tempos alguns são escolhidos para representar o todo, e infelizmente só esses escolhidos é que são lembrados.

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O Mundo Anda Tão Complicado – Legião Urbana

26 01 2010

ser comum não nos faz menos importantes no mundo que nos cerca

Hoje voltando pra casa da Escola lembrei-me de um filme. Confesso que um filme comum, bem blockbuster mesmo. Acho que quase todo mundo já viu Forrest Gump. O personagem é levado pela vida, toma parte dos maiores fatos da história americana sem realmente querer isso. Um tipo de herói diferente, que nem percebe o que faz, apenas mantém a sua essência a todo mundo. Fazendo de tudo para ser uma pessoa comum.

Isso me lembra uma música da Legião Urbana. O mundo anda tão complicado (clique para ver e ouvir) fala de um casal em mudança pra uma casa nova. Gente comum que passa por problemas comuns e situações comuns. Quase como Forrest, que age de forma comum, mas em sua simplicidade se sobressai.

Esse é o ponto do texto de hoje. Raramente percebemos que somos únicos na nossa simplicidade. Como Forrest, a nossa simples existência altera o mundo que nos cerca, tanto de forma positiva quanto de forma negativa. Eu mesmo gostaria de ser apenas um mero observador, mas sei que tudo aquilo que faço altera a vida de todos que me cercam. Eu sei que já falei sobre esse tipo de coisa antes, mas agora quero explorar outro lado.

Viver com essa responsabilidade toda deveria ser algo complicado. Não sei quanto a vocês, mas pra mim, tudo isso me parece um peso enorme para apenas uma pessoa carregar. É claro que eu não estou dizendo que tudo o que acontece de bom ou de ruim é culpa minha. Nem me acho tão importante assim. Mas o que me preocupa é saber que minhas ações criam outras ações sobre as quais eu nem saberei o efeito. Sem perceber posso agir muito bem para uma pessoa e muito mal para outra.

Como se viver por si só já não fosse um peso muito maior do que eu me sinto apto a carregar. O bom senso me faz lembrar de mais um peso em nossas costas. Confesso que ao pensar nisso me pergunto como a maioria das pessoas consegue seguir adiante com suas vidas sem ligar pra isso. Como conseguimos ser tão mesquinhos a ponto de não pensarmos nas conseqüências de nossos atos mais comuns? Aliás, o que mais percebo é que raramente pensamos até nos nossos atos que nitidamente influenciam na vida dos outros, como votos, regras sociais e outros.

Nossa espécie é mesquinha, como provavelmente muitas outras também o são. Acreditar que só os humanos fazem o mal é dar-se uma importância maior do que realmente merecemos. Esse excesso de prepotência, o achar que somos realmente importantes talvez seja a chave do problema. Olhamos demais para o nosso próprio umbigo sem notar que isso afeta tudo o que está ao nosso redor.

O peso de viver com essa informação é muito grande, ao menos para mim. Confesso que não tenho coragem nem força pra suportar esse peso e muitos outros que temos que carregar só por estarmos vivos. Acho difícil e penoso fazer qualquer coisa levando isso em conta, pois é maravilhoso descobrir que alguém se alegra por algo que fizemos, mas como agir quando percebemos que nossa ação faz alguém chorar?