We Don’t Need Another Hero – Tina Turner

9 02 2010

Quando aprenderemos a somente louvar alguém pelo que ela é boa e não execrar todos por suas falhas?

E teve a esperada zebra na final do SuperBowl. Mais um herói do sonho americano foi criado. Assisti ao jogo e confesso que com todo o clima criado era impossível torcer pelos Colts, a torcida toda era pelos Saints, na verdade pela cidade de New Orleans. A vitória serviu como marco do renascimento após os problemas com o Katrina anos atrás. A cidade se reconstruiu, o time se construi, nas últimas temporadas pós Katrina, pulou de saco de pancadas para campeão.

O herói foi Drew Brees, atleta que por si só já teria uma história de vida que daria um filme, aliás não duvido que em alguns anos essa história seja transformada em filme. Como disse no último texto, os norte-americanos adoram criar heróis, nós brasileiros adorar ridicularizar os nossos.

O cinema acaba sendo uma referência, quantos filmes existem sobre heróis brasileiros? O futebol, provavelmente o tema que mais nos dá orgulho no mundo nos trouxe que filmes? Boleiros 1 e 2 são ótimos filmes, mas estão mais para comédia, assim como o divertidíssimo como O Casamento de Romeu e Julieta. Temos uma biografia do Garrincha e documentários sobre alguns craques. Mas cinema comercial mesmo, nada. Talvez os documentários sobre a conquista corinthiana em 77 e o filme sobre o martírio da série B (eu acho que tem um filme sobre a Batalha dos Aflitos do Grêmio, mas não tenho certeza).

Nós renegamos nossos heróis. Algo como Tina Turner cantando We don’t need another hero (clique aqui para ouvir) em Mad Max além da Cúpula do Trovão. Criamos um mundo apocalíptico onde todos só tem defeitos, as qualidades são empurradas pra baixo do tapete. Tiramos sarro de tudo e de todos e principalmente daqueles que possuem algo que se destaque. É o complexo de vira-latas que domina o ideário do nosso povo.

Aceitamos de bom grado tudo o que vem de alguma nação mais poderosa economicamente, destruímos pouco a pouco a nossa cultura acreditando que o que vem desses povos é melhor do que o que nós produzimos. Eu discordo disso. Assim como também discordo da outra face desse mesmo embate. Não somos melhores do que nações mais pobres, somos iguais, apenas temos que aprender a ver o que cada um tem de bom, reverenciar e aprender com isso e ver o que cada um tem de ruim sem transformar isso numa brincadeira jocosa. O que vale não é de onde você veio, mas sim o que você é.

Acho estranho não termos documentos populares (músicas, esculturas, filmes, etc.) sobre pessoas como Guilherme Paraense, João do Pulo, ou Ademar Ferreira da Silva. Guga um herói recente já foi esquecido. Rui Barbosa não é visto nem nas escolas. A nossa produção cultural é relegada ao segundo plano, aliás, eu nesse post não uso uma canção brasileira. Meio estranho, mas verdadeiro. Eu tenho que assumir minhas falhas também.

Converso as vezes com alunos sobre alguns grandes nomes brasileiros, é chato descobrir que estes nomes nunca são sequer reconhecidos. Mais chato ainda é perceber que pra ser reconhecido, a validação da qualidade deve ser externa. Não vale apenas ser importante para o nosso país aqui dentro. É  preciso ser reconhecido por alguma grande nação, aliás por alguma nação que seja vista como grande aos nossos olhos.

Parabéns Drew Brees, parabéns New Orleans, parabéns Saints. Mas também parabéns a imensa quantidade de heróis que vivem aqui em nosso pais e nunca são reconhecidos, talvez por descrença, talvez por inveja. Parabéns aos nossos bons heróis.

O próximo post volta a falar do Forrest Gump, e retomo um assunto que até citei, só que visto do outro lado da moeda. Quero falar da necessidade de se ter heróis, mesmo sabendo que no fundo os heróis são apenas o retrato do homem comum, eu admito a importância dos mesmos para a construção dos homens das nossas sociedades.

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My Generation – The Who

7 02 2010

Quando o nosso futebol vai ser tão grande quanto o americano?

Volto hoje pra mais um post pensado em cima do Forrest Gump. Hoje é dia so Superbowl, provavelmente o maior evento esportivo mundial no que tange a marketing. Talvez maior do que a Copa do Mundo. Até hoje eu não consigo entender como um esporte que só é praticado num lugar do mundo consegue movimentar tanta grana e tantas pessoas em locais tão diversos do globo.

Se você perguntar pras pessoas próximas a você quantas já jogaram futebol americano, provavelmente a resposta será zero ou perto disso. Mesmo assim, os jornais todo ano trazem notícias o evento, a televisão paga mostra o jogo e o show do intervalo (esse ano é do The Who) é super comentado. Amanhã provavelmente vou ouvir e fazer comentários da partida na escola. Talvez mais comentários do que sobre o retorno do Robinho ao Santos com gol de calcanhar em cima do São Paulo.

Mas o que isso tudo tem a ver com o Forrest Gump? Pra quem viu o filme, Forrest tem um emprego como aparador da grama do time de futebol americano de sua escola. É um cargo honorário por ser um herói local. E é justamente nesse ponto que quero centrar minha análise. A capacidade norte-americana de gerar ídolos e a capacidade brasileira de destruir ídolos nacionais. Forrest tornou-se um herói de guerra, foi tratado como herói o tempo todo mesmo tendo graves limitações. Duvido que aqui ocorresse o mesmo.

Não sou um defensor da cultura norte-americana, mas acho interessante essa coisa de tentar sempre ser o melhor em algo e lutar por isso. Mais interessante é valorizar isso. Penso agora no The Who e na música My Generation (clique para ouvir), (aqui uma versão engraçada da música, cantada por idosos) espero que toquem no intervalo do Super Bowl hoje. A música fala de uma rebeldia jovem, de uma luta constante na geração e contra a geração. Fala da ideia de se morrer jovem, e ai eu penso na juventude mental e não na juventude etária.

Vejo essa gana da música como principal motivo pra se criarem heróis e estes serem idolatrados. Alguém que se destaque no meio da massa por algum motivo merece ser idolatrado e não invejado. Infelizmente é a inveja que impera aqui em nosso país nesse aspecto. Já falei que exigimos de atletas mais do que eles podem oferecer, que um músico não pode só tocar seu instrumento e um ator além de atuar deve mudar o mundo. Coisa que o cidadão médio nem liga, apenas cobra.

Forrest de certa forma mudou parte de seu mundo e tomou parte de acontecimentos importantes. Por isso, mesmo mentalmente debilitado, sempre foi visto como herói. Assim como hoje deve acontecer no Super Bowl. Esse evento merece mais linhas de discussão.

O principal enfoque desse evento é criar heróis. Mais do que definir quem é a melhor equipe de futebol americano, serve para definir novos heróis nesse esporte. As entrevistas prévias, a maneira como tudo é levado faz-nos enxergar o evento como uma fábrica de ídolos. Nesse ano, por exemplo, vende-se a disputa entre o candidato a melhor jogador da história e o time da cidade que mais sofreu com o Katrina (aliás cidade de onde saiu Payton Manning o tal candidato a melhor da história que era torcedor do time de New Orleans).

A disputa toda parece resumida a essa disputa e a questões familiares, com a amizade entre o quarter-back dos Saints e o irmão do Manning que joga nos Colts. O drama é elevado ao máximo. No ano passado exploraram a idade dos quarter-backs, em anos anteriores histórias de vida de atletas ou mesmo histórias das cidades dos times.

Aqui no Brasil a gente mal consegue divulgar um Corinthians x Palmeiras e olha que existe muito mais história nesse confronto do que nas partidas do futebol americano. Isso acontece a meu ver, em grande parte, pelo fato de que não respeitamos o tamanho do adversário. Nós procuramos defeitos em tudo que não nos pertence e nunca idolatramos alguém só por aquilo que esse alguém tem de bom. Quem sabe mudamos isso um dia? Garanto que teríamos muito menos confusão e muito mais alegrias como brasileiro do que temos hoje, sem falso populismo, até porque infelizmente só os políticos são impunes nesse país. Eles nunca são cobrados e são sempre premiados.

Eu torço para o dia em que uma final de campeonato brasileiro de futebol ou de qualquer outro esporte tenha o mesmo peso que tem a final da NFL e seu SuperBowl





Jokerman – Bob Dylan

21 12 2009

As vezes só uma piada nos mantém a sanidade

 

Continuando a saga dos Watchmen, hoje falo do Comediante, Eddie Blake com certeza é o personagem que melhor encarna a preocupação da população que picha paredes com a frase Who Watches the Watchmen (traduzindo como algo parecido com quem vigia os vigilantes). Até a escolha de seu codinome é ácida. O tal senso de humor desse comediante é corrosivo e perigoso. A forma como ele vê o mundo funciona como uma caricatura de tudo o que acontece.

Partindo para uma linha mais popular de quadrinhos, alguns aspectos do Comediante lembram o Batman pós Cavaleiro das Trevas (lançado no mesmo ano, 1986). Uma tentativa de tentar criar um tipo de entretenimento mais adulto. O Comediante tem um quê de Batman e um quê de Coringa. O sarcasmo é forte, o riso apocalíptico escondido em seus comentários lembra bastante o palhaço do crime. A trilha sonora escolhida segue essa linha. O bardo Bob Dylan cantando Jokerman (clique aqui para ver e ouvir). Os versos parecem traduzir a mente tortuosa do Comediante. Alguém que conhece tão bem o lado obscuro da alma humana que se vale do sarcasmo para manter o que lhe resta de sanidade.

O único momento em que ele parece sucumbir ao peso que carrega e ao olhar questionador que tem do mundo. Quando visita seu antigo inimigo Moloch. O seu choro sincero e o aparente desespero (mais visíveis nos quadrinhos do que no filme) o tornam mais real e factível. Não diria mais humano, porque encaro o seu sarcasmo violento como uma leitura totalmente humana e válida da sociedade.

Ao rir da sociedade doente, o Comediante não está fazendo nada diferente do que fazer uma análise crítica também do mundo em que nós vivemos. Uma sociedade em que notícias como essa (clique para ler) aparecem. Alguém é atacado numa livraria sem qualquer motivo e sem ter tempo algum para reagir. Coisas de um mundo doente que me fazem acreditar mesmo que momentaneamente, numa frase do Comediante: “Nós os protegemos deles mesmos.”

Entrei em férias a poucos dias e tirando a minha famosa fobia social do centro da conversa, caminhei por alguns locais perto de casa. Fui ao mercado para ser mais exato. No caminho, fui hostilizado devido a camisa que eu vestia. E vendo o rosto das pessoas, percebia-se o medo estampado em alguns e o desejo de violência em outros, esperando que eu respondesse algo para que existisse na mente tacanha de alguns, motivo suficiente para se iniciar uma briga.

É nesse mundo pesado que estamos inseridos. Vale a pena viver nele? Esse é um questionamento maluco, mas que merece ser feito. Vale a pena existir num lugar assim tão opressivo? Vale a pena cuidar de um grupo para que ele não se mate? Vale a pena investir nosso esforço nisso?

A sensação que muitas vezes tenho é a de que só sendo meio pirado como o Comediante é para conseguir manter-se minimamente tranqüilo nessa nossa realidade torpe. Você tem que fazer aquilo que tem que ser feito e não se envolver emocionalmente com nada. Você observa gente que poderia fazer (falo de uma cena específica da história, quando você ver vai se lembrar) acaba se omitindo por motivos diversos.

Eu nesse contexto me sinto um completo inútil e assumo que não gosto de viver num lugar como esse. As opções pra pessoas que pensam como eu são duas. Desistir e abraçar o suicídio (ou a vida suicida que o Comediante de certa forma adotou) ou tentar mudar, o problema é descobrir como mudar  e principalmente o pior é descobrir que a maioria não quer que nada muda.





The Invisible Man – Queen

19 07 2009
O inseto se aproveita da semelhança de cor e aparente textura entre ele e a folha para se proteger de predadores

O inseto se aproveita da semelhança de cor e aparente textura entre ele e a folha para se proteger de predadores

Todos temos nossos ídolos. Eu tenho vários, e essa semana tenho falado de alguns. Como gostaria de finalizar a semana falando do que mais me atrai, deixei Bates para o final. Ele de certa forma acabou se tornando o maior exemplo humano para mim. Fez o que tinha que ser feito, para os padrões de sua época tinha quase nenhum tipo de preconceito, falava com negros e índios numa época em que ambos eram considerados sub-raças pelos brancos europeus.

Darwin e em menor instância Wallace ficaram famosos pela teoria da Evolução usando seleção natural. Porém, os trabalhos de Bates com os insetos amazônicos foram fundamentais para que as idéias de Darwin se tornassem aceitas. E nem mesmo assim ele figura entre os mais famosos, até mesmo entre as pessoas da área. Na faculdade de Ciências Biológicas ouvimos sim falar de mimetismo, mas pouco ou nada ouvimos falar do homem que organizou o conceito a partir de suas observações.

Escolher a música pra servir de trilha hoje foi difícil, ficou horas fuçando na internet até achar alguma idéia legal. Ai acabo revisitando uma banda que gosto pra caramba. O Queen é uma das bandas de rock mais famosas de todos os tempos. Infelizmente acabou com a morte de Freddie Mercury, vitimado pelo HIV. The Invisible man (clique aqui para ver o clipe), é um rock gostoso de se ouvir o o clipe me remete também a minha infância (o vídeo game do garoto com certeza é um Atari), mas isso é papo para outra postagem.

Acho que vale a pena falar do que Bates descobriu. Coletando insetos na Amazônia, ele descobriu que animais de grupos diferentes eram muito parecidos entre si. E que sempre um dos grupos era venenoso, pouco palatável ou causava medo em possíveis predadores. Essa imitação ficou conhecida por mimetismo.

É claro que esse é um processo longo, nem vamos entrar no mérito de como isso acontece, mas vale a pena ressaltar que isso realmente é observável na natureza e ocorre. Vale também ressaltar que o nosso comportamento dentro da espécie também tende em muitos casos a ser mimético.

É comum imitarmos nossos ídolos, aliás, é por isso que os temos. É comum vestir algo que seja da moda, comer o que todo mundo próximo como, agir como um grupo, para ser reconhecido como parte dele e forçar a uma leitura prévia sem que seja preciso aproximação e conversa. É o que ocorre na natureza, seres imitam outros querendo passar a mensagem de que são como os imitados, venenosos, amargos ou poderosos, ou ainda, como no caso de uma aranha que imita uma flor, atrativos a ponto de enganar possíveis presas. Ou ainda, tornar-se invisível aos olhos, como sugere a música do Queen.

Essa descoberta foi algo super importante para a história da ciência que eu mais curto. Porém não é esse o motivo principal de Bates ser meu ídolo máximo. Gosto do Bates por, segundo seus biógrafos, ele ter sido um cara normal dentro de um meio onde sempre existiram pessoas afetadas e cheias de si.

Bates era comum, caminhava com os negros e índios, trabalhou numa fábrica antes de vir ao Brasil. Quando voltou para a Inglaterra teve um trabalho burocrático que lhe permitiu manter a sua família. E ainda fez descobertas, cerca de 8000 novos animais só na Amazônia e principalmente o mimetismo. Mesmo assim, nunca foi tão famoso a ponto de ser celebrado.

Com certo romantismo em minha fala, chego a vê-lo imitando o homem comum, passando praticamente invisível de toda a badalação de seus colegas mais famosos como Darwin e Wallace.

De certa forma eu procuro isso para minha vida, o prazer em fazer o que tenho que fazer, sem esperar reconhecimento e glória, apenas a satisfação por fazer bem feito. E principalmente tento ser gente comum, gente como a gente, alguém que se policia buscando expurgar todos os preconceitos que infelizmente ainda tenho.





Bicycle Race – Queen / Tour de France – Kraftwerk

14 07 2009
Muitos deles devem ter Lance Armstrong como ídolo

Muitos deles devem ter Lance Armstrong como ídolo

Essa semana está meio baixo astral. Baixou a tristeza aqui e os temas rarearam um pouco. Hoje que reparei que era o dia de postar algo novo no blog. E o tema? Difícil escolher. Em mim está aquela sensação de que por mais de saco cheio que eu esteja, algumas coisas devem continuar. Eu devo continuar fazendo aquilo a que me propus, independente da minha vontade.

Ao pensar nisso. Lembrei-me de alguns heróis de carne e osso. Pessoas que nas suas áreas foram muito acima do esperado e se tornaram exemplos míticos. Pessoas que conseguiram se transformar em exemplos em alguma área. Já falei um pouco disso antes, temos aqui no Brasil o péssimo hábito de exigir santidade dos nossos ídolos, eles devem ser bons em tudo.

Eu não penso assim, talvez por isso acabe respeitando muita gente que se destaca em sua área. Pretendo falar de alguns nessa semana e talvez na próxima. O título da música escolhida diz tudo. Eu pensei em escolher tour de France do Kraftwerk (pra ver o clipe clique aqui), mas acabei também optando pelo saudoso quarteto britânico Queen e a música bicycle race (clique aqui para ver o clipe). Na verdade, fiquei com as duas,por gostar muito de ambas.

O personagem de hoje é Lance Armstrong, um dos mais famosos atletas do mundo e multicampeão da mais famosa prova ciclística do mundo, a Tour de France. Armstrong venceu a prova por 7 vezes e isso depois de diagnosticado e tratado de um câncer nos testículos, cérebro e pulmão.

A obstinação desse atleta é que me faz falar dele. Raras pessoas teriam a força de vontade que ele teve, de lutar contra uma forte doença, vencer a doença e mais do que isso se tornar um vencedor pleno numa atividade física que exige muito do corpo, imagine do corpo de alguém que teve câncer espalhado pelo corpo?

Falo dele também pelo seu lado teimoso. Depois de aposentado do ciclismo em 2006 resolveu voltar a competir e nesse ano na volta da França está dando uma canseira nos que vinham competindo direto. Até agora está em terceiro na classificação geral, apenas 8 segundos atrás do primeiro lugar, se colocando como uma dos favoritos ao título, junto com seu companheiro de equipe Alberto Contador.

As brigas dentro da equipe Astana, causadas pelo choque de egos entre os dois grandes ciclistas até poderiam entrar aqui. Pois demonstram a sede de vencer, mas prefiro fugir do assunto. Apenas torço para que o Lance Armstrong consiga vestir a camisa amarela em algum dos dias dessa volta da França e acredito que o Contador acabará ganhando.

Mas vamos ao que interessa. Ver um exemplo como o desse ciclista me faz pensar que muitas vezes choro sem motivos reais. Que não deveria abaixar a cabeça para as coisas ruins que ocorrem no meu dia a dia. Também vejo que deveria lutar mais por meus objetivos. O desejo é a principal fonte de energia para a vitória. E as conquistas devem sempre servir de estímulos para vencer novos desafios.

Não apago as suspeitas de doping desse atleta, principalmente em sua primeira vitória no Tour de France em 1999. Nem vejo isso como algo positivo em sua biografia. Ele não é um exemplo por isso, mas sim por lutar e lutar muito.

Você tem algum herói? Gostaria de falar dele? Durante a semana eu devo falar de outras pessoas que admiro, artistas, cientistas, gente comum.





Tribos

26 05 2009
No fundo todos pertencemos a uma ou mais tribos

No fundo todos pertencemos a uma ou mais tribos

Nos últimos posts os ídolos apareceram como tema central. A forma como os vemos e o tratamos. A busca de um modelo perfeito que possa servir de amparo para a busca de mudanças profundas na nossa sociedade.

Bem ou mal, de certa forma todos temos ídolos, o que muda é a forma como lidamos com estes ídolos. Alguns apenas sentem uma empatia leve por este ou aquele modelo apresentado, outros chegam a uma devoção histérica e religiosa pela pessoa, associando tudo o que acontece de bom ou mal em sua vida aos humores do seu ídolo.

O blog O Estranho Mundo de Camila (na lista dos que eu indico) trouxe um texto interessante sobre o tema.  A Camila não discute exatamente a idolatria, mas a liberdade falsa que acaba interessando a grande maioria da população.  Vale a pena dar uma lida e refletir sobre o que ela postou lá.

Hoje eu vou me ater a outro aspecto da idolatria, o da necessidade que temos de ter ídolos. Afinal o que nos faz seguir um corte de cabelo (como os Beatles fizeram com grande parte dos jovens ingleses e americanos nos anos 60), mudar o time de futebol (muita gente está acompanhando jogos do Corinthians por causa do Ronaldo), mudar até a sua visão política (aqui no Brasil pessoas saem da direita e vão pra esquerda e vice-versa, de acordo com o humor do seu candidato).

nas tribos poucos são os que realmente criam as regras

nas tribos poucos são os que realmente criam as regras

Essa necessidade de ter alguém que sirva de exemplo chega a ser estranho, e como citado pela Camila no seu texto, chega a ser uma forma de não liberdade dentro da liberdade. Afinal, em teoria, todos somos livres para fazer as escolhas que quisermos dentro dos limites que permeiam a vida em sociedade, ou seja, se não prejudicar a liberdade do outro, a minha liberdade é valida.

A impressão que fica é que temos a necessidade de diminuir as particularidades individuais e cada vez mais criarmos um único modelo padrão. Parece que buscamos, apesar das diferenças, sermos todos iguais. Seja corte de cabelo, roupa que veste, música que ouve e até preferências gerais.

Mesmo aqueles com gostos mais distantes do padrão, acabam formando pequenos guetos sociais e nesses guetos procuram disseminar suas idéias. Por exemplo, os brasileiros fãs de uma desconhecida banda lituana vão todos se unir e se possível tentar captar mais fãs para a banda que julgam ser a melhor do mundo. Os torcedores de um time de futebol acabam criando certos hábitos comuns nas partidas de sua equipe. Camisetas muitas vezes identificam os eleitores de determinado grupo político.

 Ai cabe uma breve história sobre o tema. Uma amiga querida algumas vezes brinca comigo por eu ser um eleitor tipicamente neoliberal, totalmente em cima do mundo como ela já me disse algumas vezes. Ela, muito mais próxima da esquerda. Sendo uma mulher muito bonita e até certo ponto vaidosa, gosta de estar sempre bem vestida e arrumada (eu pelo menos nunca a vi desajeitada). Certo dia numa conversa sobre política, disse-lhe brincando que era um fetiche meu vê-la de camiseta branca, cabelo preso, óculos, calça jeans e tênis al star surrado. Justamente o estereótipo do eleitor de esquerda, cultivado inclusive por pessoas que querem voto dessa parcela da população, como a ex-senadora Heloísa Helena.

E podemos extrapolar isso para qualquer outro grupo, como se todos fôssemos distribuídos por tribos. Aliás, tribos é o nome de um programa do canal de TV a cabo GNT que procura tratar do assunto de forma até bastante divertida. Tendo como apresentadora a atriz Daniele Suzuki, a cada programa um grupo é dissecado, mostrando o que une cada tribo. Vi alguns programas e confesso que achei a fórmula interessante, no fundo ele mostra como somos todos robotizados, programados para agir conforme o grupo que nos inserimos.

Parece-me óbvio que em muitos casos pertencemos a mais de uma tribo. Um advogado pode ser também motociclista. Durante a semana ele usa terno e jargões do direito, mas aos finais de semana, pega sua moto e desbrava as estradas com sua jaqueta de couro, mostrando as tatuagens escondidas em busca de shows de rock junto com outros motociclistas.

Pouco espaço sobra nessas tribos para sermos quem somo se é que sabemos quem somos

Pouco espaço sobra nessas tribos para sermos quem somo se é que sabemos quem somos

E isso levanta outra questão, a nossa mutabilidade. De acordo com o grupo e o interesse momentâneo, temos ações que se modificam, fazendo com que sejamos selecionados sempre pelo meio. Mas isso é um assunto longo e tema pra outro post dessa série que pretende chegar na idéia de liberdade x independência citada pela Eve num comentário de um post anterior.

Paro por aqui, só deixo uma pergunta a quem me lê. Nesse tempo todo viajando de tribo em tribo, em que momentos conseguimos ser realmente quem somos? Totalmente Livres? As mensagens e comentários são muito bem vindos. Percebo que muita gente passa por aqui, mas poucos emitem sua opinião, acreditem, eu respondo a todo mundo…rs





Vale a pena ser herói?

24 05 2009
Um músico não pode ser julgado só por sua música?

Um músico não pode ser julgado só por sua música?

Hora de terminar o que comecei a alguns posts. No último eu disse que nós costumamos relevar nossos heróis da ficção. Atualmente os heróis ficcionais estão mais humanos, procuramos pequenas falhas de caráter neles para validá-los. Essa aproximação entretanto muitas vezes foge do mundo real.

Quem são os nossos grandes heróis? Pelé, o maior atleta do século é questionado por sua vida fora dos campos. Ronaldo fenômeno sofre do mesmo mal. Vários atores são questionados sobre sua opção sexual. Qualquer candidato a ídolo possui sua vida recheada de perseguidores, atrás de falhas de caráter que façam com que toda e qualquer idolatria seja derrubada instantaneamente.

Ai as coisas começam a complicar, eu imagino que quem tem Pelé e Ronaldo como ídolos, idolatra o que eles faziam com a bola nos pés, exigir qualquer outra coisa deles é absurdo. Cazuza é outro bom exemplo, um poeta genial, fez letras bastante interessantes. Tinha uma vida pessoal muito mais conturbada do que a maioria aceita, sexualmente falando sempre se definiu como bi sexual, transou com quem quis como quis, usou drogas, quebrou regras, fez tudo do seu jeito, sem ligar muito pras regras do momento.

Cazuza sempre foi um ídolo pra mim, mas só por seus versos, eu nunca liguei se ele usava drogas, com quem ele transava, o que ele fazia além das músicas que eu ouvia nunca foi problema meu, o ídolo era apenas musical.

Aurélio Miguel é outro exemplo dessa linha pra mim. Treinei judô muito tempo, adoro o esporte até hoje. Aurélio foi um dos maiores heróis da minha infância/adolescência. A medalha de ouro olímpica me marcou muito. Hoje ele é político na cidade em que voto, isso nunca me fez nem pensar em votar nele. Eu idolatrei o atleta, não o político, que tem idéias bastante opostas as minhas.

Aliás falando em políticos, essa classe de anti-heróis nacionais parece ser a única que não sofre com os problemas citados aqui. É incrível como falhas em outros ídolos resvalam na grande maioria dos políticos. Filhos fora do casamento geralmente prejudicam numa eleição, passado o fato, voltam como se fosse a coisa mais normal do mundo (eu honestamente acho que um filho fora do casamento não mede a honestidade de um administrador, mas nosso país é extremamente conservador). Escândalos para eles têm curta duração e o pior, em alguns casos, eles simplesmente não são levados a sério por serem em cima de pessoas populares, vide a quantidade de denúncias que caíram sobre o governo do nosso atual presidente.

O que torna os políticos livres do julgamento popular mesmo quando falham na execução daquilo que foram eleitos para fazer?

O que torna os políticos livres do julgamento popular mesmo quando falham na execução daquilo que foram eleitos para fazer?

É nesse ponto que tudo fica nebuloso, aquele ser que deveria ser reverenciado apenas por fazer uma coisa boa e somente por essa ação seja ela cultural, social, esportiva ou o que quer que seja, nunca escapa do julgamento por tudo o que faz. O atleta que não teve acesso a educação deve dar opiniões coerentes sobre a variação cambial ou ter uma posição socialmente aceita sobre o massacre chinês no Tibet. Não pode ser visto embriagado numa festa, nem mesmo trocar de namorada ou envolver-se num relacionamento mais fugaz sem ser julgado e culpado por isso. Mas um político pode enriquecer na vida pública, pode dizer palavrão em discurso oficial, pode até mesmo roubar que não será julgado. E por que? Simplesmente porque políticos nunca serão heróis e nem modelos.

Ai me vem a pergunta, vale a pena ser herói? Vale a pena se destacar em uma área? Afinal você acaba sendo julgado em todos os aspectos da sua vida só por ser bom em algo. Me pergunto se isso é devoção mesmo ou simplesmente inveja, muitas vezes acredito mais na inveja.

A impressão que tenho é que as pessoas invejam aquilo que gostariam de saber fazer como ser um atleta habilidoso, um artista famoso, um cientista competente e por isso procuram falhas em qualquer coisa que estes façam, como a maioria das pessoas não enxerga glamour na política, estes ficam livres do julgamento popular.

O que você acha?