Malaika – Miriam Makeba

9 03 2011

não seja preso pelas ideias dos outros, as suas ideias são a chave de qualquer prisão social

 

Depois de falar de um período especial, vale a pena falar de um pequeno tempo oposto. Eu até tentei esquecer, apagar ou simplesmente deixar pra lá. Imaginei que talvez o melhor a fazer fosse simplesmente esperar acontecer outro fato e ai falar de alguma coisa mais alegre. Só que infelizmente a espera por algo mais fez estava longa demais e ainda tenho uma meta a cumprir de posts neste ano.

Ainda para ajudar no meu raciocínio tortuoso, assisti ontem (segunda de carnaval) pela se bobear sexta ou sétima vez o filme Invictus, que me fez ter diversas reflexões sobre o que estava me incomodando nesses últimos dias. Pensei em escolher uma música da trilha sonora para o post, mas talvez essa fosse a chance mais clara que eu teria para postar algo de uma cantora sulafricana que sempre curti ouvir e que também sofreu pela política do apartheid.

Provavelmente Miriam Makeba seja conhecida apenas pela sua canção mais famosa Pata Pata, porém gravou muita coisa interessante e com muita gente. Teve sua nacionalidade sulafricana cassada e só voltou a pisar em seu país quando o regime caiu e Nelson Mandela, então presidente a convidou a voltar a África do Sul.

O filme, que aliás eu recomendo, traz em seu enredo uma alegoria sobre a forma como a seleção de rugbi da África do Sul conquistou a copa do mundo da modalidade pouco tempo após o fim do regime segregacionista. Mostra também os dias tortuosos que marcaram o início do governo Nelson Mandela, onde o medo de represálias por parte dos negros assustava os brancos. A serenidade apresentada pelo líder africano no filme vence qualquer barreira e mostra que é possível fazer-se grande sem que para isso seja necessário derrubar tudo o que foi construído anteriormente.

Serenidade foi a grande lição e na verdade é aquilo que eu busco neste momento. Serenidade para entender alguns pontos de vista que aparentemente são apenas divergentes (o que é muito mais do que saudável), mas que as vezes aparecem competitivos. Competições são interessantes, mas só onde as disputas realmente devam existir, nas quadras, campos, tatames, piscinas, nas praças esportivas. Outros espaços e principalmente na vida pessoal pedem coalização e não disputa.

Tanto Mandela no filme e Miriam Makeba em sua vida deixaram clara a sua luta pelo que acreditavam. Aliás sofreram e muito por isso, mas nunca desistiram. É esse o exemplo que busco para mim nesse momento. Acredito que podemos sim cometer erros graves, mas esses erros devem ser sempre motivados por aquilo que acreditamos, assim a dor da derrota nunca será grande, porque na verdade a derrota não existirá. Perde aquele que não defende aquilo que acredita.

Justamente por defender minha linha de ação é que agora me preparo para novos rumos, realizo pequenas mudanças que aos olhos de alguns parecerão radicais, mas que afirmo, só são demonstrações do caminho que eu escolhi para mim mesmo. Manter-me fiel ao que acredito ser justo e honesto. Afinal, no fundo, apenas uma opinião é que realmente vai ter peso sobre mim, a minha própria opinião. Todas as outras não são invalidadas, mas devo entender que elas surgem carregadas pelas crenças e formas como cada uma das pessoas que emitir a sua opinião enxerga o mundo.

Meio inspirado em Mandela, eu quero assumir os riscos, os custos e os prazeres de ser quem eu sou, de viver como eu imagino ser a melhor forma e de tentar criar um mundo que seja o mais próximo possível daquilo que eu vejo como melhor.

 

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It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) – R.E.M.

26 07 2009
Temos que ter coragem para seguir adiante buscando uma nova fonte de luz

Temos que ter coragem para seguir adiante buscando uma nova fonte de luz

Falei da dor das perdas que sentimos. De como é duro sobreviver a isso. Entretanto, sempre tem um entretanto, é possível tirar algo de positivo dessa dor toda. Geralmente, nos momentos de maior dor e desespero é que surgem as grandes mudanças. Saber aproveitar esses momentos de dor de forma produtiva é difícil, mas necessário.

A morte de um ente querido, a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, qualquer coisa que cause dor não pode nos deixar inertes para sempre. Na verdade, após o desespero inicial, é preciso que sejamos fortes o suficiente para mudarmos o mundo. A música que escolhi hoje fala um pouco disso. Gosto bastante do som produzido pelo R.E.M., banda americana que nasceu em 1980. Escolhi It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) (clique aqui para ver o clipe), porque a música fala de um mundo novo. Diz que chegou o fim do mundo que nós conhecemos e nós gostamos disso.

No fundo a proposta ideal é essa mesma. Acontecem tempestades diversas na nossa vida, coisas que mudam a direção do vento que nos empurra adiante. Essas tempestades não estão ai pra nos atrasar. Acontecem porque coisas ruins infelizmente acontecem e se nós conseguimos mudar de direção quando diante de situações críticas então significa que somos plásticos o suficiente para sobreviver nesse mundo maluco.

Um mundo, aliás, que muda a todo instante. O que é certo agora será errado daqui a uma semana. O que amamos agora será motivo de ódio daqui a algum tempo.  Essa mudança repentina de direções deixa qualquer um fragilizado, ainda mais quando se sofre algo ruim enquanto as coisas mudam e não temos tempo de nos adaptar a essas mudanças.

É como estar num longo relacionamento, de repente ele acaba e a gente não sabe mais o que fazer. Não sabe mais paquerar, não sabe mais sair de casa, não sabe nem mais ir o que comer sozinho. O mundo muda nesse tempo em que você. É a sensação de chegar num novo emprego, onde não se conhece ninguém. As pessoas todas parecem apressadas aos nossos olhos, por mais receptivas que sejam. Demora até que estejamos preparados para esse mundo novo, mas temos que entrar de cabeça. Porque o mundo que conhecemos acabou, é hora de aproveitar o novo.

Acompanhar essas rápidas mudanças (ainda mais porque só sentimos as rupturas quando elas nos causam dor) é extremamente difícil. Fico pensando em crianças que perdem os pais, em pais que perdem os filhos, chefes/as de família que perdem o emprego ou simplesmente pessoas que perdem seus sonhos e desejos. Gente que tem que encontrar força para continuar seguindo em frente.

Fico pensando em mim. Nos meus sonhos irrealizados. Confesso que muitos deles ainda povoam a minha mente. Mesmo aqueles que hoje sei serem impossíveis de realizar. Tem coisas desse novo mundo que ainda são impossíveis para mim. Eu ainda vivo preso ao mundo antigo, ou pior, vivo preso a desejos antigos que sei que não vão se realizar. Fiquei pensando muito nisso durante esta semana. Será que vale a pena sonhar ou lutar por algo que não está mais ao seu alcance? Vale a pena sentir essa dor? Vale sofrer?  Às vezes penso que eu gostaria de ser tão forte quanto as pessoas que vi chorando nessa semana. Gente que certamente em breve se lembrará das lágrimas que derramou e fará delas combustível para seguir adiante no novo mundo que se formou. Será que um dia eu consigo seguir adiante?





Somos quem podemos ser

28 05 2009
A liberdade um pouco acima e a independência, são duas matizes que andam lada a lado em qualquer pessoa

A liberdade um pouco acima e a independência, são duas matizes que andam lada a lado em qualquer pessoa

Eu adolescente ouvia discos de vinil. Num dos que eu mais gostava, Humberto Gessinger cantava o verso acima. Nessa música ele falava das descobertas que foi fazendo ao crescer. Quando descobriu, por exemplo, que as nuvens não eram de algodão. Ganhou liberdade com o tempo e aparentemente passou a tomar suas próprias decisões.

Por que aparentemente? Justamente pelo verso inicialmente separado. Em nossa vida não somos quem realmente somos ou gostaríamos, mas sim quem podemos ser. Vários fatores influenciam a nossa ação e o nosso pensamento. Sejam os amigos, os livros, as viagem que fazemos, filmes que assistimos e qualquer coisa que vivenciamos nos ajuda a ser quem somos.

As nossas frustrações é que nos limitam. Elas que acabam dando o limite dos moldes que seguimos. Conforme dito em outros posts, nossos ídolos e a forma como eles nos tocam também modificam nossa formação. As escolhas das tribos que cada um pretende ingressar, frases soltas que surgem nos nossos ouvidos em momentos delicados. Os fatores são tantos que é praticamente impossível uma pessoa conseguir mostrar ao mundo apenas a sua essência.

Essa é mais uma vertente de nossa falsa liberdade. No fundo nossas escolhas todas acabam sendo definidas por limites que não nos pertencem. E ai eu chego perto de começar uma discussão levantada pela Eve. A relação entre liberdade e independência. Não somos totalmente livres porque nossas escolhas são sempre dependentes de variáveis externas a nossa vontade, mas sempre somos independentes nas escolhas que fazemos após termos a liberdade definida.

Vejo, nesse caso, a independência como fruto das escolhas coletivas e a liberdade como a escolha pessoal. Assim encaro a independência como um ideal democrático e a liberdade como um ideal anárquico. Dentro dessa minha limitada linha de pensamento, os homens só são livres dentro de uma realidade definida, nesse caso o tão aclamado sentimento de liberdade é apenas a sensação de comodidade em perceber-se dentro das regras sociais do local onde se está inserido e ai então a possibilidade de se agir tranquilamente de acordo com novas escolhas, as escolhas independentes.

Quando começamos a crescer, essa situação aparenta ser mais confusa em nossas mentes. Quem não foi um adolescente questionando regras? Quem nunca ficou irritado por não poder fazer aquilo que queria? Uma brincadeira de amigos é que na adolescência todos temos em nossas mentes o furor revolucionário das esquerdas tradicionais, por isso tanta revolta e briga popular dentro de grupos estudantis, que se espelham em ídolos bastante padronizados como Che Guevara e Fidel Castro, no caso dos estudantes brasileiros.

Ai o tempo passa e as idéias políticas e sociais de cada um mudam, ampliando o leque de escolhas, quando um pouco mais velhos nos sentimos mais livres para fazer nossas reais escolhas, podemos sair da tribo e ai, realmente independentes podemos escolher se voltamos para a tribo dos esquerdistas ou se mudamos para outra, tudo dentro da nossa pequena liberdade limitada.

Reparem nas canções adolescentes, a inquietude com o sistema é recorrente, bem como o amor, o desejo e o prazer. Os mesmos autores, quando um pouco mais maduros, mudam seu discurso e as letras passam a falar de inquietudes pessoais, as reclamações sociais são outras, já não se quer derrubar todo o sistema, mas sim reclamar de pontos determinados dele, as revoluções deixam de ser totais e passam a ser pontuais.

Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente

Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente

Para mim, o entendimento da independência é mais lento do que o desejo de liberdade, talvez por isso eu ache que as pessoas mais maduras são as que conseguem situar-se bem com esse tipo de sentimento. São pessoas que conseguem tranquilamente aceitar a existência de limites sociais para seus desejos e conseguem brincar com esses limites ampliando sua parca liberdade, mostrando-se independentes.

Você se acha uma pessoa independente neste conceito? Gostaria de ampliar sua liberdade em que aspectos? No próximo texto, eu provavelmente deva falar um pouco dos meus limites e da forma como eu lido com eles.





Esconderijos

25 04 2009
lagar

Quase não se vê

Como segundo post, resolvi falar um pouco da forma como o mundo se apresenta pra mim.

As vezes eu me sinto como esse lagarto ai da foto. Procurando se esconder de tudo o que está ao redor e em busca de algo interessante que passe diante dos meus olhos, algo que me faça dar um passo adiante

Se nada me fizer andar, fico ali parado mesmo. Só observando o mundo, sem querer fazer parte dele. Na verdade eu me sinto externo ao mundo. Alheio ao que acontece, como um observador perdido numa rua movimentada de uma cidade em que não se conhece nada.

Vejo as coisas como se nunca fossem comigo, isso de certa forma incomoda, é verdade. Mas também é verdade que me permite fazer certos apontamentos e mesmo dizer algumas coisas com muito mais calma. Ser crítico sem envolvimento é sempre mais fácil.

Por isso eu fotografo da forma que fotografo, fazendo recortes de cenas que passam diante dos meus olhos, eu adoro as teleobjetivas, elas me permitem selecionar apenas a parte da cena que quero comentar ou destacar. Ao contrário das grande-angulares que te inserem dentro da cena, eu nunca me sinto parte.

Essas reações distantes também me permitem uma leitura diferente, é possível entender porque uma pessoa sente dor se você não a sente, ou não se influência por ela. Dessa forma você consegue dissecar a cena toda e entender exatamente qual foi o pisão no calo que causou a dor.

Dor aliás que me persegue, porque se eu consigo ler a dor do outro, a minha fica mais difícil, ela está guardada em mim e não consigo ver de fora. Eu gostaria de conseguir, confesso. Talvez isso me fizesse ser alguém melhor e mais alegre.

Alguns amigos me dizem que eu me escondo dos meus medos e a dor é resultante dessa fuga. Talvez isso seja realmente verdade. Afinal quem não se esconde em algo? Existe alguém 100% autêntico e com tanta coragem? Eu até assumo que tenho medo das pessoas, medo daquilo que não consigo entender

Aliás, se você ler esse post, que tal se abrir um pouco? Fale do seu esconderijo, fale daquilo que você foge. Fale do que você gostaria de mudar.