Final Eyes – Yes

10 01 2010

Nunca seremos livres porque a liberdade plena nos amedronta

Umas quase férias de fim de ano, pouca gente pela internet, resolve dar um tempo nos textos. Hoje eu retorno falando de mais um personagem de Watchmen. Falo hoje da Silk Spectre, uma personagem a meu ver bastante interessante. Praticamente forçada a se fazer heroína pela mãe, nunca curtiu a ideia de sair por ai com roupas provocantes batendo em bandidos. Acabou se tornando namorada do ser mais poderoso do planeta e relegou-se a esse papel por um longo período de sua vida.

Inicialmente podemos imaginar uma discussão sobre a visão e o papel da mulher. Visto que ela é a única heroína dessa fase da história. Numa fase anterior tinham mais, sua mãe e até uma heroína que foi assassinada por ser lésbica (Silhouette). A primeira Silk Spectre é tão singular quanto a filha. Entrou na vida de heroína pela fama e glamour. Foi uma garçonete que mudou de vida. Apaixonou-se por um homem que tentou estuprá-la (e foi o pai de sua filha). Acabou casando-se com seu agente quando se aposentou da vida heróica.

Quando penso nas duas, a canção Final Eyes do Yes (clique para ouvir) me vem a cabeça. Sempre imagino, principalmente a segunda Silk Spectre cantando essa música. Na sua busca por uma vida simples comum e lógica. Apesar da música falar de um mundo equilibrado, de certa forma pregar troca positiva entre os seres de ambos os sexos, um aprendizado constante (e nessa parte eu acho que tem tudo a ver com a segunda Silk), vejo as duas heroínas como um subproduto submisso de uma visão machista da sociedade.

A primeira viveu sonhando com o sucesso e curtiu ter sido vista como mulher objeto. Seu amor pelo Comediante que tentou violentá-la é algo também marcante. A segunda, filha da primeira e do Comediante, é totalmente levada pela história. Totalmente submissa, virou heroína porque a mão definiu. Abandonou a carreira depois que se casou com o homem mais poderoso do mundo e viveu a sua sombra, sem vontades, sem desejos, sem intencionalidade.

Apenas quando se rebela e acaba tendo um envolvimento com Nite Owl é que aparece algum traço de poder de decisão em suas ações. Somente alguém tão inseguro quanto Dan Dreiberg pra fazer aflorar algum mínimo de esforço em ação dela. Na verdade, raros são os momentos em que ela apresenta algum resquício de vida. Parece sempre morta, um boneco nas mãos dos outros. Alguém que demora para se reencontrar.

Outra coisa que me chamou a atenção é a ausência de personagens femininos fortes, as duas Silk Spectre são bastante interessantes, mas nenhuma das duas tem força. Silhouette que é citada rapidamente aparece apenas pra mostrar a cultura altamente conservadora do povo retratado, sendo morta por sua orientação sexual. Aliás, Ozymandias em vários momentos aparenta uma figura andrógina, em alguns momentos parece homossexual, tudo de forma extremamente velada, como se fosse para levantar mesmo a questão do tabu nessa sociedade.

Penso que muitas vezes o nosso mundo é mais conservador e preconceituoso do que deveria. Os papéis muitas vezes são extremamente bem marcados. De certa forma para sair da fantasia imposta pela sociedade a cada grupo que se faz parte, precisamos de um esforço tremendo, super-humano. Homens fazem A, mulheres fazem B, pessoas que moram no bairro tal fazem C, torcedores do time tal fazem D. Tudo parece um script escrito a tempos e decorado por todos, sendo passado de geração em geração como um ritual mágico.

Dentro desse sistema, infelizmente se torna difícil realmente viver. Agimos como bonecos pré programados. Robôs com uma curta autonomia na programação. Quando alguém foge dos padrões esperados chama a atenção bem mais do que deveria e invariavelmente de forma muito mais depreciativa do que positiva. Temos medo do diferente e por mais que busquemos mudanças em nosso modo de ver e agir, essas mudanças devem estar previstas nesse sistema pré-determinado. Os limites são mais claros e fortes do que imaginamos. Nos iludimos ao dizer que somos livres porque em nossa vida, toda liberdade é relativa.

No fundo, a ideia de uma vida simples, de um jeito simples onde se dá um passo de cada vez é o ideal que todos esperam encontrar. E no fundo, é justamente disso que fugimos, ninguém quer ver-se preso, mas ninguém realmente sabe ser livre. É duro viver assim. Por vezes vejo que não consigo me situar nesse universo dessa forma. E você? Até que ponto é livre? Até que ponto consegue fugir dos estereótipos comuns que a sociedade nos prega? Consegue ser feliz dentro desse sistema?

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Alívio Imediato – Engenheiros do Hawaii

11 08 2009
Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra

Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra

As atitudes imbecis que tomamos salvos pela desculpa do preconceito nunca passam impunes. Sempre machucamos alguém ou prejudicamos grupos nessas ações impensadas. Em alguns casos o preconceito é tão forte e tão sem sentido que carregam não apenas uma pessoa, mas diversas pessoas em uma mesma direção sem sentido. Ondas de ódio que crescem e crescem a cada momento, e de repente sem qualquer motivo aparente, pessoas brigam. Surgem guerras e sangue jorra. Seja entre duas nações, seja entre duas cidades, seja entre torcedores de times diferentes, seja de adoradores de deuses diferentes. Infelizmente essas guerras nunca fazem sentido.

É claro que existem motivos políticos, disputas por terras, disputas por dinheiro, muita coisa envolvida em conflitos diversos que observamos por ai. Porém, mesmo estes motivos políticos são sempre questionáveis. É a idéia da dominação plena sempre. Talvez por isso eu tenha escolhido a música que separei. Gosto bastante de Alívio Imediato (clique aqui para ver um clipe da música), uma letra meio nonsense como a grande maioria das canções dos Engenheiros do Hawaii que fala de conflitos diversos e da busca de alívio através da chuva ou da noite. Busca-se a redenção através de algum fenômeno natural, porque provavelmente se dependermos do homem, esse alívio nunca chegará.

Não que eu seja contra a luta pelo que se acredita. Penso que em alguns casos, para defesa, é necessário sim erguer as armas e garantir a própria sobrevivência. Não se pode aceitar tudo o que surge sem se defender, sem tentar garantir a sobrevivência de seu povo e de suas idéias. Porém, sou contra o uso da força para impor algo a outrem, sempre se deve existir negociação, conversa, deve-se evitar a violência.

O que acaba incomodando mais é que quase sempre são utilizados artifícios absurdos para validar o início desses conflitos. Ai preconceitos são inventados, reforçados e ampliados. A população, que se transforma em massa de manobra, é engolida por esses preconceitos. Esse trabalho é feito de tal forma e com tanta eficiência que logo a mídia passa a vender aquilo como correto e todo mundo passa a aceitar o conflito como legítimo, inclusive apoiando as mortes geradas nos combates.

Exemplos para esse tipo de ação existem aos montes. O problema é que o que resta é sempre a versão que o vencedor tem dos fatos. Racionalizar sobre isso torna-se complexo, mas esse exercício de análise é sempre enriquecedor. Será que sempre os vencidos são os vilões? Será que existem vilões? Qual a fonte de tanta ira? Essas são algumas das perguntas que eu pretendo tentar discutir a partir de hoje, provavelmente nessa semana e na próxima. Quer citar algum tipo de conflito para ser comentado? Aguardo seu comentário.





If I were a rich man – Topol (Um Violinista no Telhado)

9 08 2009
O que torna uma igreja luxuosa melhor do que essa capela? Nada
O que torna uma igreja luxuosa melhor do que essa capela? Nada

Hoje encerro a semana falando do que enxergo como o maior preconceito brasileiro. Até acho que existem sim ações contra negros, estrangeiros, mulheres, homossexuais, deficientes, etc. Mas dependendo da classe social da pessoa a situação muda. É só ver como se trata o estrangeiro que vem de um país rico e o que vem de um país pobre.

Pensando em exemplos mais próximos, existem até cenas mais fáceis de observar isso. A cor da pele muda de acordo com a alteração financeira da pessoa. O morador da periferia é negro, assume isso, por mais branca que seja sua pele. Já o morador de áreas mais de elite se vende como branco, por mais que brancos sejam apenas os dentes e o fundo dos olhos. Isso é fácil de se perceber, principalmente dentro da imensa população parda que temos no nosso país. O mestiço acaba escolhendo um grupo para se sentir parte.

Para desenvolver esse tema, escolhi uma música que ouvi num filme em uma das aulas de Sociologia do curso de Pedagogia (abandonei o curso). O filme é bem interessante, se chama Um Violinista no Telhado, recomendo pra quem gosta de musicais. A música em questão se chama If I were a rich man (clique aqui para ver o trecho do filme em que a música é cantada). Nela, o personagem principal, em uma conversa franca com seu deus, diz o que faria se fosse um homem rico.

É bem essa a pergunta que sustenta o preconceito. O que cada um de nós faria com dinheiro e por que juntar-me a pessoas que não possuem dinheiro? Parece estranho, mas muitos dos costumes aparentemente surgiram para separar parte do grupo social como os melhores, os escolhidos.

Seja um estilo musical, um tipo de literatura, uma dança ou mesmo a forma de se segurar um talher. As regras sempre parecem segregacionistas. Coisas que só um pequeno grupo de escolhidos podem ter acesso. É a entrada que custa mais caro e seleciona quem vai entrar, é o valor irreal da refeição devido ao nome do restaurante. Coisas assim acontecem a todo momento.

Ao procurar emprego também. Dependendo do bairro onde você mora fica mais difícil, mesmo que você more perto do local onde vai trabalhar. A faculdade que você fez também faz diferença, as vezes esses dois ítens mais do que a prova de admissão. Falo disso tranquilamente por nunca ter passado por esse problema, mas sim ter observado. Vi casos onde isso ficou claro. Tudo bem, isso não tem muito a ver, aparentemente, com o fator financeiro. Porém, o que faz com que se associe o bairro onde a pessoa mora e mesmo o local onde se formou com a capacidade da pessoa é sim um preconceito carregado de elitismo barato.

Como a patroa que não permite que uma empregada doméstica coma a mesma coisa que ela come, ou mesmo que use os mesmos talheres. Como execrar algo só porque não traz uma grande grife como referência. Esse tipo de comportamento social serve apenas para tentar fazer parte de um grupo restrito de escolhidos. Já vi e convivi com pessoas que tinham medo de apresentar os pais a determinado grupo de pessoas com quem convive. Isso porque os pais não comem de determinado modo, não se vestem de determinado jeito, ou, simplesmente, representam um período ou local que se quer apagar.

A questão é que não é vergonhoso ser pobre, nem mesmo é interessante ser (ou parecer) rico. O vergonhoso é não se aceitar, nem aceitar o outro. No fundo preconceito é isso ter tanto medo de se tornar algo que não compreende a ponto de passar a odiar isso no outro.





O mesmo olhar – Suzana Félix

7 08 2009
Nesse campo cada uma das flores é de um jeito, mas todas ainda são flores, por que não agirmos assim com os humanos?

Nesse campo cada uma das flores é de um jeito, mas todas ainda são flores, por que não agirmos assim com os humanos?

Para este post precisei de ajuda, o blog da Lak serviu para que eu encontrasse subsídio técnico e também a música que serve para ilustrar o post. Falar das pessoas com deficiência no Brasil é falar de um grupo que a sociedade tenta esconder e fazer de conta que não existe. É falar de um grupo que raramente é tratado como merece. Afinal são pessoas como qualquer outra, diferindo por ter alguma deficiência facilmente observável. Eu sou daqueles que crê  que todo mundo possui em maior ou menor grau algum tipo de deficiência, visível ou não aos olhos dos outros.

Mas voltando a invisibilidade aparente, é estranho como a nossa sociedade parece ignorar os deficientes. A ausência de programas de acessibilidade se dá pelo fato de que pessoas não acreditam que eles existam, ou pior, acham que eles não deveriam sair de casa. Famílias com PcDs (pessoas com deficiência) sofrem da falta de estrutura e da cegueira social. Quando essa cegueira atinge também os familiares, torna-se quase impossível ao PcD conseguir uma vida minimamente normal.

A meu ver, o que torna as coisas complexas é que muita gente não aceita a possibilidade de (peço desculpas aos PcDs, mas vou usar os termos mais coloquiais para expressar o que penso) que um surdo apenas não ouve (nem vou discutir graus de deficiência), um cego apenas não vê, se alguém não tem uma perna pode muito bem fazer milhares de coisas. Deficientes mentais não são inúteis que devem ficar escondidos, aliás, pior é ver gente que acha que todo deficiente é mental.

A música selecionada foi indicada por uma leitora do blog da Lak. É da cantora portuguesa Susana Félix, para a associação Raríssimas. Se chama O mesmo olhar (clique aqui para ver o clipe). Fala de algo que eu acho ser o mais importante em relação a esse tipo de preconceito. A forma como olhamos os PcDs. É comum vermos essas pessoas tratadas como coitados, super protegidos e mesmo escondidos do convívio social. Quando alguém encontra qualquer PcD, a primeira palavra a ser dita em geral é coitado. Nem se sabe o motivo, mas a pessoa já é vista como alguém numa escala menor de habilidade e por isso coitado. Por mais genial, ativo e sociável que seja essa pessoa.

É difícil aceitar o diferente, e pior, é difícil aceitar que alguém que você acha inferior a você possa fazer coisas que você sequer imagine. Cria-se uma aura de eu sou melhor, de tal forma que não se aceita que aquele “menos habilidoso”produza mais do que você. E ai se repete o que citei para os negros, sem empregos, sem salários, sem acesso a educação, e isso até hoje, a transformação é lenta e morosa, mais do que para os negros.

A legislação diz que o acesso a educação deve ser universal, mas não oferece escolas. Uma grande amiga possui um filho autista, ele precisaria ficar o dia todo na escola, sendo estimulado, fazendo atividades, produzindo para aos poucos se encaixar. Escolas públicas assim não existem, e as particulares, são caras. Cadeirantes não freqüentam as aulas simplesmente porque as escolas não possuem rampas ou formas de acesso. Cegos não recebem apoio, nem material produzido em braile.

Como alguém vai lutar em igualdade de condições assim? Mesmo aqueles com maior possibilidade e estrutura familiar, com acesso a educação de qualidade, sofrem preconceitos de possíveis empregadores. Dependendo muitas vezes de cotas (e salários menores) para conseguir algum tipo de emprego.

Até hoje não consigo entender o que uma cadeira de rodas atrapalha alguém que trabalha o dia todo sentado, ou o que a falta de audição atrapalha na produção de um ilustrador. Talvez o que atrapalhe seja o medo das pessoas ditas “normais” serem superadas por pessoas que eles julgam incapazes.





Black or White – Michael Jackson

5 08 2009
Por que chamar alguém de macaco?

Por que chamar alguém de macaco?

Hoje, com um dia de atraso, falo sobre mais um preconceito comum. Um que se eu me levasse a sério talvez até pudesse ter sofrido com ele. O preconceito racial. Aqui no Brasil, basicamente o preconceito contra negros e índios. Nunca entendi muito bem porque isso ocorre no mundo. O que leva uma raça a ser menos do que outra na cabeça de alguém é algo que não entendo. Aliás, sou do tipo que procura abstrair raças sempre. Somos humanos e pronto.

Até a escolha da música (óbvia, eu admito) leva um pouco do que eu penso. Black or White (clique aqui para ver o clipe, vale a pena), pareceu ser uma resposta a quem criticava Michael Jackson, pela sua “mudança de cor”. Provavelmente ele tenha sido o artista mais cobrado por sua raça. Provavelmente de maneira injusta, afinal cada um sabe onde seu calo aperta e é livre para fazer o que quiser desde que não prejudique outras pessoas.

Os negros sempre foram relegados a um segundo plano na sociedade brasileira. Primeiro chegaram como escravos. Depois, formaram a classe menos remunerada (uma mulher, negra e deficiente dificilmente consegue emprego) da sociedade, sem acesso a educação inicialmente, sem acesso a chances de elevação social. A universalização do ensino é recente, antes só mesmo uma pequena parcela da população conseguia estudar além do quarto ano primário.

E justamente os negros foram os que mais ficaram afastados da escola nesse período. Sem especialização acabaram com os piores empregos, seus filhos tiveram dificuldades de vencer as barreiras erguidas pela falta de opção. Agora com o acesso as disputas pelos empregos ainda são desiguais, mas a tendência é cada vez mais essa diferença sumir.

Existem pessoas partidárias do sistema de cotas. Eu não sou um deles. Acho que deve ser melhorada a base, que a forma como as cotas foram impostas acaba gerando raiva e não soluciona muita coisa. Se as cotas fossem para pessoas de baixa renda trariam bem menos ira das pessoas e continuariam ajudando em sua maioria negros ou pardos. E mesmo assim, sem reformas graves na base, teremos apenas uma pequena parcela de negros favorecidos em meio a um mar de outros ainda sem acesso a nada no meio de toda a população.

A situação tem melhorado muito racialmente no Brasil, os movimentos negros são reconhecidos (alguns exageram, mas isso nem é tema pra discussão agora), a cultura negra é cada vez mais fortalecida. Falta mesmo é o brasileiro assumir sua raça. É engraçado como o definir-se como negro parece ser um fator financeiro (falarei disso com mais ênfase no domingo).  Negro é visto como pobre e não como um grupo racial. Muito maluco esse comportamento do brasileiro.

Até porque nosso povo é miscigenado, a mistura sempre rolou solta e faz parte da nossa cultura. Porque não aceitar isso é algo complexo demais pra mim. Aliás, complexo é aceitar que dá pra separar alguém pela cor, como se isso definisse o caráter de alguém.





Macho Man – Village People

2 08 2009
Homossexuais não querem um mundo cor de rosa, só um mundo onde possam ser eles mesmos

Homossexuais não querem um mundo cor de rosa, só um mundo onde possam ser eles mesmos

Dentre os preconceitos visíveis, o contra homossexuais talvez seja um dos mais visíveis e socialmente aceitos. Fazer piadas sobre homossexuais é comum. Programas de humor vivem disso e a tiração de sarro parece algo comum no imaginário popular. O gay é visto muitas vezes como alguém espalhafatoso e exagerado e que quer forçar ao mundo sua orientação sexual.

Eu particularmente não acredito nessa visão de alguns que gays querem um mundo cor de rosa. Vejo como um grupo de pessoas que apenas quer seu espaço, como qualquer outro grupo. Até por motivos óbvios tenho bem mais contato com outro grupo estigmatizado, os negros, assunto de outro post mais adiante. Porém, convivo com homossexuais e entendo parte de sua luta.

É claro que já melhorou muito, hoje muita coisa é vista de forma bem mais natural e eventos como a Parada Gay acabam por se transformar também em fonte de geração de divisas para as cidades, tamanho o número de pessoas que se desloca para esse tipo de evento. Já existe até um mercado que gira em torno desse perfil consumidor. Não é mais tão vergonhoso para uma pessoa homossexual admitir sua orientação em público em alguns casos.

Nessa onde de sair do armário, aliás, é que foi feita a escolha da música de hoje. Macho Man do Village People (clique aqui para ver o clipe) é divertida e escrachada e leva essa questão da afirmação sexual ao limite. O clipe vai de encontro a um dos estereótipos, o típico machão de academia.

Aliás, o preconceito em geral faz uso de diversos estereótipos até para se manter. É sempre a “bicha afetada”, a “mulher macho” com jeito de homem e sempre se esquece da pessoa em si. Existe gente boa e gente ruim de qualquer orientação sexual, aliás, de qualquer grupo que a gente possa imaginar.

Só é preciso tomar cuidado com o preconceito reverso. Coisa que também se alimenta muito. O excesso do politicamente correto. Uma visão deturpada que acredita que tudo o que se fala ou faz é preconceituoso. Homofóbico virou termo da moda e isso é triste, precisamos entender o limite. Qual moleque nunca chamou os amigos de “viado” num jogo de futebol sem ligar pra sexualidade da pessoa, apenas no calor do jogo? Quem nunca riu de uma imitação de um gay afetado? O que não se pode é marginalizar o grupo.

Se toda vez que alguém me chamasse de preto ou negão eu me irritasse achando que isso é preconceituoso eu ficaria maluco. O preconceito está também nos olhos de quem sofre. Aliás, a forma como a pessoa recebe a mensagem talvez seja mais importante do que o que é dito.

Eu defendo o direito de união civil entre homossexuais e o direito as pessoas manifestarem sua orientação sem serem ofendidas por isso. Defendo que as regras valham para qualquer sexo e orientação da mesma forma. Sou contra a união religiosa porque se a religião não aceita a homossexualidade o que um homossexual vai fazer naquela crença que diz que ele está errado?

Aliás, ainda não entendo que argumentos os que são contra a união civil gay defendem. Eu sou hétero e em nada me afeta gays se unirem. Aliás não me importa a sexualidade de outra pessoa que não eu. Esse é um ponto. Sendo o nosso país um país laico, não podemos deixar que religiões sirvam de base para a formação das leis, que é o que acontece nesse caso.

Acho que deveríamos nos prender mais ao caráter do que a características mais pessoais de cada um. Aceitar o diferente é essencial para a construção de uma sociedade justa e pacífica. Sem abusos de ambos os lados.

Continuarei falando de preconceito na próxima semana, pretendo falar do preconceito racial e contra pessoas com deficência. Se alguém quiser, pode sugerir outros preconceitos para a discussão. Valeu pela leitura.





London, London – Caetano Veloso

31 07 2009
Poderíamos ser como as aves que não reconhecem fronteiras

Poderíamos ser como as aves que não reconhecem fronteiras

Hoje as fronteiras diminuíram, é muito mais fácil chegar ao outro lado do mundo, seja através de um computador, seja fisicamente. Ficou muito mais barato, rápido e acessível se aventurar por cidades, estados, países distantes. Muita gente nasce numa região do globo e por motivos diversos acaba em outro lugar.

Essa facilidade deveria diminuir as diferenças entre os povos. As pessoas deveriam respeitar-se mais, aceitar mais o modo de ser e pensar dos outros, os costumes de cada um deveriam ser aceitos. Infelizmente não é o que ocorre. Poderia hoje falar do que ocorre no Oriente Médio, mas deixarei essa discussão para a próxima semana. Quero me prender ao preconceito religioso mais adiante.

Hoje eu quero falar das pessoas que passam por situações embaraçosas fora de sua terra natal. Tenho vários amigos que saíram ou do país ou mesmo de suas cidades aqui dentro do Brasil e em maior ou menor grau se envolveram com algum tipo de preconceito (ou para com ele ou por parte deles). Para isso, uso a música London, London (clique aqui para ver um clipe) do Caetano Veloso. A música fala de como ele se sentiu exilado em Londres durante a ditadura no Brasil.

Justamente essa música serve de ponte para falar de uma amiga minha (e leitora desse blog) que mora na Alemanha (clique aqui para ler as histórias dela sobre a vida na Alemanha). Resumindo sua história, ela casou-se com um alemão e mudou-se para uma pequena cidade alemã, vale a pena ler o que ela fala sobre seu período de adaptação. Retirando de seu blog, cito um fato curto pra explicar o modo como as diferenças são grandes. Aqui enviar os idosos para um asilo causam uma briga familiar fortíssima, os idosos ficam com a família, lá mandar para asilo é o mais comum. Aqui a gente se cumprimenta com beijo e abraço, anda agarrado mesmo, lá, até marido e mulher não são tão grudados assim.

Imaginem as complicações, você é visto como um diferente e vê os outros como diferentes. Você é visto como dado e fácil por querer beijar todo mundo no rosto num país mais reservado e vê os outros como frios. Essa é uma impressão geral, claro que com o tempo isso muda. Aliás, segundo a flor (dona do blog, acredite vale mesmo a pena ler), só quando ela resolveu parar de reclamar e cair de cabeça na cultura diferente a coisa facilitou.

Ela fala de viver como turista, aquele que se diverte com tudo. Infelizmente não é bem assim. Amigos meus foram para países da Europa a passeio. Falam da forma como alguns foram mal unanimidade. Apesar de falarmos a mesma língua, a comunicação não é fácil. A forma de tratamento parece trazer ainda resquícios coloniais e o comportamento dos povos é extremamente diferente. As pessoas que conheço e para lá foram de mala e cuia relatam que a demora para serem aceitos é muito grande. Por outro lado, quando você vai de uma nação mais economicamente poderosa, o tratamento é outro.

Isso ocorre aqui também. Veja como tratamos os bolivianos do Bom Retiro e a forma como tratamos os turistas europeus em Copacabana. Tratamos de forma diferente, infelizmente. Idéias de dominação e dominado ainda persistem nessa convivência. Estende-se o tapete vermelho a quem traz os bolsos cheios e trata-se como lixo quem vem de regiões periféricas.

Algo que ainda bem não é tão comum aqui é o massacre cultural. Aqui se permite que os bolivianos falem em castelhado, os coreanos em seu idioma nativo e os turistas em geral não são recriminados por sua língua. Os costumes também são liberados, aliás, acho que deveríamos até dar um pouco mais de valor ao que nós produzimos, nessa confusão perdemos um pouco da nossa própria história cultural.

Em alguns países, até mesmo manifestações culturais são perseguidas. Vistas como coisa de terceiro mundo. Como se só a cultura do dominante valesse a pena. Algo que gosto é ver aqui diversos bairros étnicos, mas mais interessante que isso, ver nesses bairros tudo misturado. Sushi man nordestino. Tocador de sanfona árabe, esfiharia dejaponeses. Essa miscelânea deveria ser o mundo moderno. Infelizmente não é.

Aliás, já que falei de nordestinos, alguém consegue me explicar o porquê das idéias separatistas do sul? Porque falam tanto mal dos nordestinos? Afinal somos todos brasileiros e iguais. Talvez falte coragem para admitir isso, mas é a mais pura verdade