Passaredo – Chico Buarque

13 02 2011

Essa estação viu parte daquilo que quero retomar

Existem dias mornos, dias ruins, dias bons. Ontem eu tive um dia quase perfeito. Uma espécie de volta no tempo. Um retorno a dias felizes com coisas simples. Talvez apenas a percepção de que o tempo passou, muita coisa mudou, mas também muita coisa permaneceu exatamente como sempre foi, isso é bom. Sinais de maturidade junto com sinais de que nem toda a alegria juvenil se foi, aliás, muito pelo contrário.

Menos do que os fatos, no caso de ontem importam muito mais as sensações. Menos do que as ações, as reações ontem é que foram importantes. Como aliás deveriam ser sempre. Claro que os nossos atos são importantes, mas mais do que isso, o que nos leva a agir de determinada forma. Vale o mesmo pras reações, nós fazemos as coisas também porque a forma como cada pessoa reage ao que fazemos importa para a gente.

Isso resume meu sábado. Coisas triviais ganharam peso pelo que trouxeram consigo. Tem um filme até antigo que retrata bem o que senti ontem. Já citei ele no blog antes. Comédia romântica bobinha mas divertida.  Feitiço do Tempo de 1993 com o Bill Murray e a Andie MacDowell. Na história um homem é obrigado a viver o mesmo dia eternamente até que conquiste verdadeiramente o amor da mulher que lhe chama a atenção.

Aqui não falo da conquista, mas sim do viver eternamente o mesmo dia. Justamente foi a sensação que eu tive ontem. Acho que todo mundo tem seus deja vus, infelizmente a maioria das situações em que isso ocorre são momentâneas e sem uma real ligação com um fato passado. Algo bem diferente do que eu vivi ontem.

Vivi fatos que eu consigo relembrar exatamente dia, hora e circunstâncias em que eu vivi esses mesmos fatos no passado. Justamente por isso é que foi um dia tão bom. Foi bom perceber que algumas coisas podem retornar e que eu sou capaz de fazer essas coisas. O melhor foi olhar para esses fatos com muito mais maturidade e também com muito mais confiança. Hoje posso dizer sem medo que não repetiria erros do passado e que principalmente sei como alterar algumas coisas que não consegui alterar no passado.

Por isso a música escolhida para o post. Além do composititor (Chico Buarque), o tema também remete ao passado. A um tempo em que eu reconhecia as aves pelo canto e que aprendia a viver coisas novas. Aprendia a entender coisas novas.

Hoje que esse período todo de aprendizagem faz parte do passado, as sensações são muito mais saborosas. Coisas simples como fazer comprar, carregar coisas, andar pelo mercado relembrando fatos distantes tornam tudo muito mais saboroso. Ainda mais por perceber que não sou mais o menino que já fui. Posso ser jovem, ou jovial, mas deixei de ser menino.

Tem um verso da música que até parece bem com o que eu sinto nessa história toda “O homem vem ai” Mesmo tendo um sentido diferente do dá música, é saboroso poder dizer isso com todas as letras, EU HOJE SOU ADULTO!!! Adulto a ponto de até admitir reviver não só um momento bom, mas de reviver todo o passado, só que com outro olhar, agora com maturidade e não mais com a ideia do eu preciso e sim pensando que eu quero reviver o passado porque eu posso fazer isso de maneira saudável e feliz. Eu posso retornar sem medo de viver.

Me resta agora apenas reconquistar totalmente esse passado, algo que posso falar que tentarei porque é justamente o que agora EU QUERO!!!

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Virtual Insanity – Jamiroquai

11 04 2010

Vivemos como se cada uma dessas flores só soubesse da existência das outras duas pelo mundo virtual

Nesses tempos de força das redes sociais virtuais, acabamos nos encantando cada vez mais por autores diversos, alguns desconhecidos, outros famosos que se colocam de forma cada vez mais próxima da de um ser humano normal. E mais engraçado do que isso. Cada vez mais nos sentimos próximos de gente que provavelmente nunca vamos ver ao vivo. Ou ainda nos apaixonamos por coisas que lemos mais do que por coisas que vivemos, ou no caso convivemos.

Falo isso pensando no twitter, ferramenta bastante interessante, eu confesso que uso o meu basicamente pra 4 coisas, divulgar meu blog, desabafar, encontrar descontos em coisas que quero comprar e encontrar rapidamente notícias de assuntos de meu interesse, a saber, esportes, ciência, música e quando tenho que ir pra Sampa, trânsito. Porém, confesso que tenho obtido outras diversões com o passarinho azul.

Sigo também pessoas, alguns amigos, outras pessoas influentes e gente que me segue também. Nessa troca de seguidores, me espanta o quanto conseguimos conhecer de pessoas próximas com pequenos textos de 140 caracteres. Eu normalmente até que me exponho bastante aqui, mas falo de pessoas que no dia a dia não se expõem tanto. Existem nesse caso, como em qualquer situação como essa, coisas que nos aproximam e coisas que nos fazem querer distância das pessoas. A exposição excessiva em muitos casos acaba sendo negativa.

Entretanto, quero me prender a outro aspecto. Quando passamos a admirar pessoas por sua humanidade. Eu sigo pessoas que se mostram muito mais humanas no microblog do que em outras oportunidades de contato. Gente que apresenta medos e falhas, alegrias simples e inteligência divertida e elevada a ponto de se tornar apaixonante. Gente que me cativa nos pequenos comentários que faz.

Penso agora nesse mundo virtual, loucamente virtual. Os contatos acabam sendo mais próximos com gente que está a continentes de distância do que com as pessoas mais próximas. A solidão se amplia cada vez mais nos grandes centros, onde existem milhares de pessoas reclamando do vazio que sentem (eu me incluo nesse meio). É mais fácil saber o que seu colega de trabalho, seu vizinho ou um conhecido pensa e sabe através do que ele coloca em seu blog, dos seus comentários no Orkut, ou Facebook, ou Twitter ou qualquer outro grupo social virtual do que numa conversa ao vivo.

No passado já disseram que o telefone afastava as pessoas, o tempo provou que não era bem assim. Vieram os celulares e cada vez mais gente se comunicando. A internet criou uma nova forma de se relacionar. Nos comunicamos cada vez com mais gente e cada vez conhecemos menos pessoas. Sintomas dessa loucura virtual em que vivemos. Onde eu declaradamente me sinto encantado por alguém que leio e não consigo expressar isso ao vivo de forma clara. Onde pessoas de vários lugares lêem o que eu escrevo e até se encontram nos meus textos e fotos, mas mesmo me conhecendo não tem coragem de discutir ao vivo aquilo que pensam.

Levar essas relações do virtual para o real seria o ideal, mas isso raramente ocorre. Seja pela distância física, seja pela falta de tempo, seja por medo (talvez esse seja o meu caso). Pouco realmente fazemos para possibilitar contatos humanos reais e verdadeiros. Até por isso eu escolhi a música do Jamiroquai que dá título ao post. Adoro a banda e essa é minha música predileta. Virtual Insanity (clique para ouvir), fala da loucura virtual que a tecnologia traz, de como isso afeta as diversas relações humanas.

Afeta tanto para o bem quanto para o mal, mas afeta. Muda o olhar que temos sobre o mundo que nos cerca. O bairrismo perde sentido, parece que finalmente todos somos cidadãos do mundo, entretanto, essa comunicação toda também acentua as diferenças. As línguas passam a ter valor de união entre as pessoas. Muitos falam mais de uma língua, a sua local e alguma língua universal (principalmente inglês). Muitos escrevem suas ideias em várias línguas assim como possuem acesso a informações do mundo todo.

Eu tenho que agradecer a existência dessa loucura virtual porque ela me permite conhecer gente e situações que levando em conta a forma como vivo e minhas limitações pessoais, com certeza eu não teria acesso. Sou muito mais sociável do que seria sem a internet, mas e as pessoas que se isolam mais e mais por causa da rede? A discussão sobre se isso vale ou não a pena é grande, eu por enquanto evito tomar partido de um lado. Só procuro usar o que tenho a disposição para me comunicar. Aliás, se alguém quiser me seguir no twitter, está ai meu endereço http://twitter.com/alexmartinsfoto





Muros e Grades – Engenheiros do Hawaii

4 04 2010

nós criamos nossa própria prisão e jogamos a chave fora

No meu último post eu comecei a fazer uma leitura pessoal do filme Rain Man. Como escrevi, este é provavelmente o filme que mais me toca e talvez seja o filme que mais tem coisas que me tocam. No último post, eu tratei do fato de sentir-me usado em alguns momentos. Nada contra a necessidade do outro ser chamada a conversa principal. O problema é quando você percebe que a importância de sua existência reside no fato de você ser necessário em algum momento para o outro. Quando não está sendo necessário, muitas vezes sua presença sequer é tolerada. Eu de certa forma estou cortando esse tipo de contato da minha vida.

O de certa forma acontece justamente pelo tema do post de hoje. Algo que eu a uma semana tinha me proposto a escrever, mudei de ideia no meio do caminho e fiquei assim, sem saber se escrevia ou não por dias a fio. Talvez por tratar de assuntos mais pessoais do que eu gostaria, talvez por expor de direta demais alguns medos e sentimentos que eu tenho. Enfim, depois desse tempo todo remoendo, acabei decidindo ao menos dar uma pincelada no tema, da forma como eu conseguir tratar. Provavelmente isso sirva como forma de desabafo ou até como uma justificativa real para aqueles que eu simplesmente deixei de manter contato pelos motivos descritos no post anterior.

A música que eu escolhi é uma música dos Engenheiros do Hawaii, chamada Muros e Grades (clique para ouvir). A letra fala que o medo que sentimos acaba levando toda a nossa essência, nossos sonhos e desejos se perdem nessa disputa entre o medo e a vontade. Eu entendo bem isso, afinal, certamente nessa disputa entre medos e desejos, o medo está ganhando de goleada e a tempos. Meus medos mais banais definem de forma clara a forma como eu atuo em cada momento da minha vida.

Voltando ao filme, o personagem de Dustin Hoffman, acometido por comportamento autista, acaba agindo de forma parecida. Vive encarcerado em seu mundo. Tudo o que escapa de sua compreensão é visto como estímulo aversivo grave. É sentido como algo doloroso, um ataque a sua segurança. De certa forma é assim que eu vivo. Aliás, de certa forma não. De todas as formas possíveis e imagináveis.

Nesses tempos sombrios pra mim, eu tenho pensado muito em minhas atitudes. Percebo que me enclausurei numa prisão pessoal. Por opção e por incapacidade minha acabei sim me isolando do mundo. Até ai, nada demais nisso. Afinal, é preciso ser honesto, que mal existe nisso? Se foi uma opção pessoal, qual o drama da história? O drama reside na percepção tardia disso.

Sabe quando você fica grande parte de sua vida procurando algo e de repente percebe que não existe uma possibilidade real de atingir isso? É dessa forma que eu estou me sentindo agora. Pelo menos o personagem de Dustin Hoffman nunca se preocupou com o que faltava, apenas se prendia a aquilo que estava ao seu alcance em todos os momentos e refutava cada contato diferente.

Como qualquer pessoa normal, tem coisas que eu consigo fazer e tem coisas que eu não consigo. O que me incomoda é não conseguir fazer coisas extremamente simples socialmente falando. Ter um baita medo absurdo das pessoas, ter medo de situações sociais e me ver livre apenas quando estou produzindo algo que eu consiga entender (ou seja trabalho). Ir a uma festa chega a ser doloroso, ver um filme sem ter que relacioná-lo com algo que eu vá produzir depois é impossível, tudo tem que estar ligado a tudo e dessa forma eu acabo me vendo cercado por muros e grades dentro de um recinto que eu mesmo criei e me aceito. A vida só existe pra mim se fizer sentido. Isso não chega a ser ruim, também não é bom, isso é óbvio.

Conviver com essa limitação social é o problema, decidir se vale a pena aceitar viver dessa forma limitada é que torna a questão interessante. Eu juro que não sei até que ponto esse tipo de coisa vale a pena. Ter desejos e vontades que não compreendo e justamente por isso não consigo sanar é onde a coisa aperta. Entender o motivo que me leva a enjoar de determinadas situações comuns e me entregar facilmente a coisas que com certeza causam desgosto a maioria das pessoas parece ter explicação.

Explicação também surge para outro fato. Agora faz sentido a dificuldade que eu tenho de agir quando saio de minha zona de conforto profissional. Trabalhar sempre foi a parte fácil. Viver a impossível. Toda vez que eu tentei viver algo, me atrasei em todo o resto, pela simples incapacidade de entender o que exatamente é viver e sentir. Eu não sei ler sentimentos.

Por enquanto sigo no dilema, sem no entanto me irritar mais com isso. Sigo fazendo aquilo que eu sei fazer e provavelmente agora devo fugir mais ainda daquilo que não entendo. Como já disse diversas vezes, nada é para todos e entender e aceitar isso torna a nossa existência bem mais calma. Viver, trabalhar, sentir, falar, gritar, andar, existir, amar, odiar qualquer ação humana exige uma certa dose de habilidade individual, se você não possui essa habilidade, deve recolher-se a sua insignificância e não se martirizar por isso. Devemos nesse ponto ser como foi o personagem de Dustin Hoffman





What If – Coldplay

24 01 2010

E se eu tivesse tido coragem de falar o que sentia? O que ela teria dito? Nunca mais vou saber...

Eu tinha prometido parar de utilizar Watchmen como referência. Porém, uma conversa que tive ontem me fez mudar de ideia. Um longo papo no MSN onde alguns porquês vieram a baila sem que eu pudesse responder, apenas pensar como poderia ser um mundo alternativo, onde aquelas perguntas pudessem ser a realidade vivída.

Como o mundo de Watchmen, onde pequenas coisas causariam uma imensa mudança na história americana, o que aconteceria em nossa realidade com pequenas mudanças em pontos chave? Se você não tivesse ido naquela festa, se ela não tivesse atendido o telefone, se tivesse aceitado aquela proposta de emprego?

Tem uma música do Coldplay que brinca um pouco com isso. What If (clique aqui para ver um clipe). Vale a pena ver um trecho da letra traduzida logo abaixo

E se não houvesse nenhuma mentira

Nada errado, nada certo

E se não houvesse tempo

Nenhuma razão ou rima

E se você decidir

Que você não me quer ao seu lado?

Que você não me quer na sua vida?

É bem essa a linha de pensamento. O que aconteceria se pequenas coisas mudassem? Eu fiquei os dias de ontem e hoje pensando nisso. Lembrei de momentos cruciais da minha existência, das dúvidas que eu tive e de como essas dúvidas me machucaram. Do efeito que cada escolha teve em mim. Lembrei de cada noite que passei em claro tentando decidir o que escolher. Também me veio a cabeça o quanto eu tentei descobrir o que cada uma das minhas escolhas me levaria a fazer e ser.

Lembro também de umas revistas que eu lia quando moleque. As da Marvel Comics, hoje leio mais as da Vertigo e da DC, vez ou outra compro algo da Marvel, confesso que a morte do Capitão América, duas equipes de Vingadores e a invasão dos Skrulls foram séries meio sem graça. Mas voltando a essas histórias. Era comum surgirem vez ou outra histórias com o título o que aconteceria se… Nessas histórias, os roteiristas escolhiam momentos importantes da cronologia de alguns personagens e mudavam fatos, como a morte de alguém, um casamento, a vitória ou derrota numa disputa, encontrar ou não determinado artefato. A partir dessa premissa uma história era escrita dizendo o que aconteceria na cronologia do personagem com aquela simples alteração.

Quem nunca pensou assim? Quem nunca se questionou se fez a melhor escolha? Quem não gostaria de ter mudado uma decisão imaginando que face ao que ocorreu em sua vida após aquela escolha, a outra alternativa com certeza seria melhor. É claro que tudo isso é apenas mais uma forma que a gente cria pra tentar se reconfortar em situações adversas.

Mesmo sabendo que é puro exercício maluco. Eu queria sim mudar algumas coisas que eu fiz. Ou melhor, eu gostaria que fosse possível analisar de forma correta até onde cada linha de decisão nos levaria no futuro. Por outro lado. Muitas vezes me pergunto se vale a pena esperar o futuro, a dúvida, por mais ridículo que possa parecer, é um dos motivos que me mantém vivo. Essa esperança no desconhecido e a frágil crença de que talvez as escolhas que eu faça hoje possam criar para mim em algum momento um futuro agradável. Assim, toda vez que eu me pergunto se valeu a pena não ter encerrado minha vida ainda. A dúvida me mantém.

E você? Como reage as escolhas? Tem alguma que gostaria de mudar? Gostaria de saber até onde outra linha te levaria? Conte pra gente.





O Homem é esperto, mas a morte é mais – Ira

30 12 2009

Fugir é mais corajoso do que fazer o outro pagar por seus erros

Teve gente que me perguntou porque eu estava demorando tanto pra escrever. A bem da verdade era pra este ser meu último texto, mas algumas coisas (in)felizmente mudaram. Continuo falando da minha visão a partir da observação dos personagens de Watchmen. Hoje é a vez de Ozymandias, o tal homem mais inteligente do mundo. Enquanto escrevo, três músicas tocam alternadamente e uma delas dá nome ao post. O homem é esperto mas a morte é mais do Ira (clique para ver e ouvir), Trip at the brain do Suicidal Tendencies (clique para ver e ouvir) e a bastante divertida e mordaz(quase virou título do tópico) Elza dos Mulheres Negras (clique para ver e ouvir).

Tendo largado a vida heróica antes da proibição governamental e sendo extremamente rico, Adrian Veidt sempre se vendeu como o homem mais inteligente do mundo, com total controle do seu corpo era tão veloz que conseguiu até pegar balas com as mãos. Uma figura estranha e bastante manipuladora. No fundo Adrian é o grande vilão da história, vai aos poucos caçando (e desacreditando) aqueles que ele julga poderem atrapalhar seu plano de “salvamento” do mundo.

Para ele, desastres globais fariam o homem deixar suas diferenças de lado e levariam ao fim das guerras, no caso da história, a Guerra Fria seria findada e o mundo entraria num período de paz. Mas a que custo? Ao custo de milhares de vidas que nem saberiam o que estava acontecendo, tudo porque Adrian Veidt acreditava ser este o caminho.

Por acaso a sua forma de ação acaba funcionando, pelo menos até certo ponto, e isso até onde a história termina. O leitor é levado à dúvida pela cena final. Mas confesso que isso não importa. A análise que quero fazer aqui é outra. Quero levar a discussão para a pressunção de Veidt. Ele realmente acredita poder decidir por todo o mundo o que é certo e o que é errado. E nesse ponto consegue ser mais insensível que o Dr. Manhattan. Sua verdade está acima da verdade de todos os outros porque ele é mais inteligente do que todos os outros e ele carregará o fardo da escolha que não disponibilizou a mais ninguém.

Em uma escala menor, quantas vezes não agimos de forma parecida e a meu ver covarde? Quantas vezes não acreditamos que a nossa visão sobre determinado tema é a correta e o mundo todo deve acatar isso sem questionamento algum? Não sei se enxergo isso como prepotência ou covardia. Provavelmente um pouco dos dois e recheado com bastante medo, medo de ouvir uma opinião diferente da nossa num assunto que diga respeito a mais pessoas.

Porque falar disso agora? Eu sinceramente tinha em minha cabeça a idéia de me matar agora na virada do ano. Sem motivo especial para escolha da data mas com motivos pessoais mil pra encerrar uma situação que me incomoda a muito tempo. Vendo Ozymandias sacrificar outras pessoas ao invés de resolver o problema da forma mais honesta me pareceu covardia. Se ele (assim como eu) não se acostuma e nem gosta do mundo em que está inserido mas percebe que as pessoas ao seu redor gostam, quem deve se retirar do mundo? As pessoas que gostam dele? Óbvio que não.

Já deve ter dado pra perceber nos diversos posts desse blog que eu não consigo me sentir a vontade aqui. E confesso que não culpo ninguém por isso. O problema é apenas meu, o lugar não me agrada eu deveria ter o direito de me retirar dele e deixar espaço pra quem se sente confortável e adora isso aqui. Afinal as escolhas deveriam ser sempre pessoais. No meu caso, pelo menos por enquanto tenho que abortar o projeto, algumas pessoas precisam de mim nesse momento e simplesmente não posso cair fora como gostaria. O jeito é tentar me incomodar o mínimo possível com a forma como esse mundo e eu nos relacionamos. Depois de quase 35 anos, acho pouco provável começar a apreciar a vida de forma plena como vejo a maioria das pessoas fazendo, então é fazer o que deve ser feito da melhor maneira possível enquanto o tempo passa.

Aqui vale retornar ao pensamento maluco do Adrian Veidt. Ele escolheu um modelo, acreditava que poderia ser até maior do que ele e de certa forma foi a única pessoa com quem se relacionou. Eu não sou nem tão pirado e muito menos tão “inteligente” quanto Ozymandias, me relaciono com mais gente, interajo mais, só não me sinto feliz com isso. Poucas vezes fui feliz, pra ser bem honesto.

Talvez a nossa maior diferença seja o fato de que eu não consiga ver as pessoas de cima (e nem poderia fazer isso, sou como qualquer um). Esse achar-se superior a mim parece mais uma defesa do que realidade. Uma forma de fugir do seu verdadeiro mundo é tentar controlar o mundo dos outros, não aceitando as falhas que se tem e muito menos reconhecendo os diversos erros que cometemos.

O problema maior é conviver com a nossa pequenez diante de tudo o que nos cerca. Situações corriqueiras nos mostram que simplesmente aquela situação não é para nós e o máximo que podemos fazer é sairmos da situação ou aceitarmos o meio e apesar de toda dor sentida continuarmos existindo dentro desse mundo. Cada um faz as suas opções. Eu tive que refazer as minhas.





Who Wants to Live Forever – Queen

23 12 2009

não adianta ver uma bela paisagem é preciso saber senti-la, e isso infelizmente é mais difícil do que parece

Hoje é dia de falar do único personagem da história que realmente tem superpoderes, o dr. Manhattan. Um físico fica preso dentro de uma máquina que não pode ser desligada e seu corpo é destruído. Tempos depois ele reaparece como um ser com o poder de controlar os átomos, alguém que pode fazer praticamente qualquer coisa.

Nessa realidade alternativa, a presença do Dr. Manhattan faz com que a Guerra do Vietnã seja vencida pelos americanos, que Nixon seja reeleito e se torne uma espécie de herói popular, a Guerra Fria alcança níveis terríveis e a antiga U.R.S.S não invadiu o Afeganistão. Com todo esse poder geopolítico em suas mão, entretanto, o personagem em questão parece cada vez mais alheio a esse mundo onde está inserido. Aliás a cada momento ele parece cada vez menos humano.

Tendo conhecimento sobre seu futuro, ele simplesmente ignora o que acontece ao seu redor. Sentimentos, pessoas, sensações não passam de fatos diante dos seus olhos. Ele enxerga tudo como átomos interagindo, apenas isso. É imortal e me fica a pergunta, será que ele quer isso ou se toca a respeito disso? Por isso a música do Queen, who wants to live forever (clique aqui para ver o clipe) faz parte da trilha de Highlander, um filme que traz homens que são imortais a menos que lhes arranquem as cabeças.

Dr. Manhattan não corre nem esse risco. Na verdade, acredito que mesmo que corresse não faria diferença alguma. Essa sua postura meio autista em relação a tudo o que o cerca, essa sua visão limitada a aquilo que ele quer e consegue perceber e entender não é algo totalmente estranho ao ser humano. Eu mesmo já me peguei diversas vezes fugindo do mundo que me cerca, tendo uma visão totalmente limitada sobre o que acontece e acreditando que aquilo que eu via era o suficiente para entender e viver bem no mundo em que estou.

Aliás, acho que isso acontece comigo o tempo todo. Tenho uma visão muito pessoal e particular da vida e muitas vezes acabo, como o Dr. Manhattan, me fechando dentro desse pequeno universo particular e deixando de lado sensações e emoções simplesmente por não entendê-las de forma clara e coerente. Faço das minhas limitações um recurso para isolar-me ainda mais do resto. Não tenho uma “Silk Spectre” ao meu lado para magoar com minha postura muitas vezes absurda. Mas convivo com pessoas e estas pessoas acabam vendo-se afastadas de mim, ou pelo menos de aspectos importantes de minha vida simplesmente pelo meu jeito peculiar de ser e agir.

O padrão de comportamento robótico, ou multifuncional como sou chamado pela psicóloga…rs é real e é a forma mais segura que eu encontrei para não sucumbir a loucura e tornar-me um Comediante, mas eu estou longe de ser um Dr. Manhattan, não tenho saberes e nem poderes que me tornem acima ou mesmo capaz de estar realmente isolado e a parte do resto da população.

Sei de diversas outras pessoas que também são assim, presas em seu mundo, sem conseguir perceber coisas simples que se situam ao alcance de seus olhos. Gente que como eu não consegue ainda entender o que está fazendo neste planeta, gente que vive e faz aquilo que acha certo dentro do seu padrão, sem entender os padrões e funcionamento dos outros. Gente que parece não ter sentimento algum. Mas que infelizmente chora e muito por não entender os sentimentos mais simples que tem.

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Jokerman – Bob Dylan

21 12 2009

As vezes só uma piada nos mantém a sanidade

 

Continuando a saga dos Watchmen, hoje falo do Comediante, Eddie Blake com certeza é o personagem que melhor encarna a preocupação da população que picha paredes com a frase Who Watches the Watchmen (traduzindo como algo parecido com quem vigia os vigilantes). Até a escolha de seu codinome é ácida. O tal senso de humor desse comediante é corrosivo e perigoso. A forma como ele vê o mundo funciona como uma caricatura de tudo o que acontece.

Partindo para uma linha mais popular de quadrinhos, alguns aspectos do Comediante lembram o Batman pós Cavaleiro das Trevas (lançado no mesmo ano, 1986). Uma tentativa de tentar criar um tipo de entretenimento mais adulto. O Comediante tem um quê de Batman e um quê de Coringa. O sarcasmo é forte, o riso apocalíptico escondido em seus comentários lembra bastante o palhaço do crime. A trilha sonora escolhida segue essa linha. O bardo Bob Dylan cantando Jokerman (clique aqui para ver e ouvir). Os versos parecem traduzir a mente tortuosa do Comediante. Alguém que conhece tão bem o lado obscuro da alma humana que se vale do sarcasmo para manter o que lhe resta de sanidade.

O único momento em que ele parece sucumbir ao peso que carrega e ao olhar questionador que tem do mundo. Quando visita seu antigo inimigo Moloch. O seu choro sincero e o aparente desespero (mais visíveis nos quadrinhos do que no filme) o tornam mais real e factível. Não diria mais humano, porque encaro o seu sarcasmo violento como uma leitura totalmente humana e válida da sociedade.

Ao rir da sociedade doente, o Comediante não está fazendo nada diferente do que fazer uma análise crítica também do mundo em que nós vivemos. Uma sociedade em que notícias como essa (clique para ler) aparecem. Alguém é atacado numa livraria sem qualquer motivo e sem ter tempo algum para reagir. Coisas de um mundo doente que me fazem acreditar mesmo que momentaneamente, numa frase do Comediante: “Nós os protegemos deles mesmos.”

Entrei em férias a poucos dias e tirando a minha famosa fobia social do centro da conversa, caminhei por alguns locais perto de casa. Fui ao mercado para ser mais exato. No caminho, fui hostilizado devido a camisa que eu vestia. E vendo o rosto das pessoas, percebia-se o medo estampado em alguns e o desejo de violência em outros, esperando que eu respondesse algo para que existisse na mente tacanha de alguns, motivo suficiente para se iniciar uma briga.

É nesse mundo pesado que estamos inseridos. Vale a pena viver nele? Esse é um questionamento maluco, mas que merece ser feito. Vale a pena existir num lugar assim tão opressivo? Vale a pena cuidar de um grupo para que ele não se mate? Vale a pena investir nosso esforço nisso?

A sensação que muitas vezes tenho é a de que só sendo meio pirado como o Comediante é para conseguir manter-se minimamente tranqüilo nessa nossa realidade torpe. Você tem que fazer aquilo que tem que ser feito e não se envolver emocionalmente com nada. Você observa gente que poderia fazer (falo de uma cena específica da história, quando você ver vai se lembrar) acaba se omitindo por motivos diversos.

Eu nesse contexto me sinto um completo inútil e assumo que não gosto de viver num lugar como esse. As opções pra pessoas que pensam como eu são duas. Desistir e abraçar o suicídio (ou a vida suicida que o Comediante de certa forma adotou) ou tentar mudar, o problema é descobrir como mudar  e principalmente o pior é descobrir que a maioria não quer que nada muda.