Pose – Engenheiros do Hawaii

13 03 2010

existem coisas invisíveis mesmo diante dos nossos olhos

Estou ainda numa fase complexa da minha vida. Pensamentos malucos me fazem escrever sobre coisas malucas. Eu até ia brincar um pouco mais com o tempo e a forma louca como me relaciono com ele, mas eu acabo sempre falando disso e de forma até repetitiva. Mas como minha mente está confusa e eu acho que posso falar algo novo mesmo na eterna repetição, resolvi seguir adiante com o último post e retomar alguns posts antigos.

Para começar, parte da história me lembra muito um pouco um personagem do Quarteto Fantástico. Pra quem não curte quadrinhos de super-herói, existem dois filmes com os personagens, até certo ponto bem interessantes. São 4 pessoas que adquiriram superpoderes após uma problemática viagem ao espaço. Um consegue gerar chamas e calor com seu corpo (o Tocha-Humana), outro transformou-se num monstro de pedra (o Coisa), a mulher do grupo consegue ficar invisível e criar campos de força (a Mulher-Invisível) e o líder do grupo que tem o poder de modificar e esticar seu corpo (Senhor Fantástico).

O líder do grupo é meu foco. O Senhor Fantástico é um dos maiores gênios do seu universo de histórias. Cientista famoso e bastante renomado. Porém, percebe-se que relacionamentos interpessoais não são exatamente o forte dele. Quem leu as histórias do início do namoro com a sua esposa Sue (mulher-invisível) e mesmo as que contam o relacionamento do casal, percebe isso de forma clara e até certo ponto divertida.

A outra parte da equação do texto de hoje é a música que dá título ao post. Pose (clique para ouvir) dos Engenheiros do Hawaii tem uma coisa que serve para justificar o que eu penso. A música é agradável, mas sua letra é quase um nonsense total. Uma sequência de frases aparentemente sem nexo que de certa forma tentam dar um up nas pessoas que estão ouvindo. O importante é ir atrás de tudo o que se possa imaginar.

Dois posts antigos meus servem de base para o que eu quero dizer, eu quero retomar as ideias discutidas em High (clique para ler) e principalmente em Too old to rock’nroll too Young to die (clique para ler). Além do óbvio post anterior a este que escrevo hoje. A ideia é falar um pouco de pessoas que nos encantam. Gente que faz diferença em nossas vidas e nos faz tentar se aproximar e principalmente tentar tomar cuidado com nossas ações.

Hoje tive uma tarde extremamente agradável. Um restaurante exótico ao lado de alguém que obviamente faz a diferença para mim. Uma sensação estranha. Um misto de satisfação, receio, medo e principalmente dúvidas. Por isso a música, minha cabeça viaja tentando juntar as diversas peças desse quebra-cabeça que tenho total consciência de que apenas eu montei. Procuro fazer uma leitura racional dos fatos, mas de que forma?

É justamente nessa busca racional que aparece o Senhor Fantástico na história. Ser racional é sempre a parte mais fácil da vida. Algumas coisas são óbvias e fáceis de ler e compreender. Eu diria que para pessoas como eu, um gráfico resolve muita coisa. Porém, outras são extremamente sutis e tentadoras. Um exemplo disso é essa notícia (clique, vale a pena). A distância entre a arte e a ciência pode muito bem ser tênue, mas infelizmente nem sempre isso é percebido. Ao ouvir sobre essa exposição, parte de mim pensou no belo, mas confesso que parte ficou procurando formas de repetir isso, entender o processo físico da coisa. E isso, é chato, até porque eu sou um cara que realmente adora poesia, poxa, escrever poesia e fazer fotos é o que mais me relaxa.

Essa pequena dificuldade de sentir ou perceber esses pequenos nuances é o que torna minha mente enevoada. Eu sei o que penso e sinto. Sei que essa pessoa não passa indiferente por mim e não consegui ainda descobrir se hoje fui chato, causei medo, afastei ou o que eu posso realmente representar para essa pessoa. Coisa simples e até certo ponto óbvia de fazer, mas pra mim parece física quântica, se bem que nesse ponto eu estou mais para o Senhor Fantástico, conheço mais sobre física quântica do que sobre o que se passa com as pessoas.

Hoje percebi da forma mais dolorida possível que isso é um grande erro, infelizmente não sei ainda como corrigir isso.

Anúncios




Receita Para se Fazer um Herói – Ira!

20 02 2010

Quando aprenderemos a ver o melhor das coisas mais comuns?

Primeiro post pós carnaval, hoje falo da construção do herói. Penso um pouco ainda no Forrest Gump, Forrest foi construído. O homem comum que foi feito famoso e tomou parte de grandes acontecimentos. Seja na guerra, seja pescando camarões seja correndo. Forrest apenas viveu. Como todo mundo vive.

Pensando exatamente nesse ponto, hoje eu 3 blogs que visito de vez em quando. São de amigos. Pessoas comuns, mas que de certa forma poderiam ser feitas heróis, por se destacarem em alguns aspectos. Por fazerem bem algumas coisas e justamente por quererem mesmo ser pessoas comuns, com defeitos como qualquer um tem.

A música escolhida também tem uma forte razão de escolha. Receita para se fazer um herói (clique para ouvir) é uma música do disco Psicoacústica. Na época o Ira! Fazia a cabeça da juventude, seus dois primeiros discos venderam muito, mas esse terceiro trazia uma forma diferente da banda tocar e justamente por isso (apesar de ser muito bom) foi um fracasso de vendas. Ser um herói de certa forma também significa responder aquilo que se espera de você, não sair de uma determinada linha.

Criamos heróis o tempo todo. Modelos de destaque em áreas que de alguma forma são importantes para nós. Buscamos referência em alguém que nos pareça comum o suficiente e ao mesmo tempo destacado naquilo que observamos. Alguns podem dizer que não precisamos de ídolos. Eu dentro da minha linha de raciocínio discordo totalmente disso.

Nos momentos de maior crise interna, esses modelos de superação que são os heróis servem para fazer com que possamos sonhar em vencer nossos medos momentâneos. Não falo da idolatria doentia, do deixar de viver a própria vida para tentar viver a vida de um ídolo, mas sim a busca por inspiração e a sensação de que os medos podem sim ser vencidos.

Nessa linha de raciocínio, o herói é formado simplesmente pela observação e inspiração, ou como canta o Ira!,

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.

Pegamos um homem comum, de estatura moral comum e vemos o que ele faz melhor do que os outros, mesmo sendo normal e comum. E o idolatramos exatamente por isso, por se tornar um bom modelo de homem bom.

Parece estranho, mas eu separei 3 modelos dessa minha forma de pensar pra deixar claro o que eu quero dizer. O primeiro exemplo vem do primeiro blog que eu passei a realmente acompanhar. O Desculpe Não Ouvi (clique para ver o blog), da Lak, uma amiga deficiente auditiva que até fez um blog que gira sim em torno disso, mas que principalmente trata do assunto com um bom humor e leveza louváveis. Impossível não idolatrar alguém que leva seus problemas a um nível quase caricato e sério ao mesmo tempo. Por mais que ela negue é um exemplo a ser seguido e idolatrado. Alguém que se quer copiar nos bons exemplos. Na maneira de levar a vida.

Nessa mesma linha, tem outro blog o da Dona Flor (clique para visitá-lo). Uma amiga que depois de várias peripécias em sua vida, acabou casando com um alemão e se mudando pra um pequeno vilarejo na Alemanha. Imagine como seria repensar todos os seus sonhos e forma de viver, saindo de uma cidade grande e se mudando pra um local onde não tem nada. Onde não se conhece a língua, onde todos de olham de maneira estranha. Bom ela enfrentou tudo isso. Enfrenta na verdade. Seu blog é a melhor forma de perceber isso. No começo trazia pequenas reclamações do modo de vida novo. Agora traz textos de alguém que está refazendo a própria vida e sonhos. Algo que todo mundo deveria fazer, parar de reclamar dos problemas e buscar soluções dentro de nossas possibilidades.

O terceiro blog é de um amigo fotógrafo, o Fernando Paes (clique para ver seu blog). Todo mundo que me conhece sabe que eu abomino fotos de casamento. Nem considero esse tipo de foto arte ou algo parecido com isso. Vejo como uma cerimônia falsa e as fotos como algo mais falso ainda. Esse amigo meu vê isso de forma totalmente diversa. Ele realmente adora isso, tanto que reestruturou toda a sua vida profissional pra poder se dedicar ao máximo a aquilo que acredita, fotos de casamento. Nesse ponto o que interessa é a forma como ele vê esse trabalho. Ele realmente acredita que ao fazer isso estará fazendo algo de bom para os noivos, é quase como se seu trabalho fosse um presente. Ele faz porque acredita e acredita que é algo importante para outra pessoa. Quem não quer fazer algo que seja importante para o outro? Quem não quer ir além da própria necessidade e suprir a necessidade do outro?

Reparem são 3 pessoas comuns, com defeitos como qualquer um. Porém, cada um deles tem algo a ser copiado. Algo a ser idolatrado. Qualquer um dos 3 pode sim ser considerado um herói em algum aspecto. Heróis não precisam de super poderes, precisam de boas ações e principalmente parecerem com aquilo que a gente conhece. Herói tem que ser alguém comum, afinal, são os heróis de carne e osso que realmente idolatramos.





My Generation – The Who

7 02 2010

Quando o nosso futebol vai ser tão grande quanto o americano?

Volto hoje pra mais um post pensado em cima do Forrest Gump. Hoje é dia so Superbowl, provavelmente o maior evento esportivo mundial no que tange a marketing. Talvez maior do que a Copa do Mundo. Até hoje eu não consigo entender como um esporte que só é praticado num lugar do mundo consegue movimentar tanta grana e tantas pessoas em locais tão diversos do globo.

Se você perguntar pras pessoas próximas a você quantas já jogaram futebol americano, provavelmente a resposta será zero ou perto disso. Mesmo assim, os jornais todo ano trazem notícias o evento, a televisão paga mostra o jogo e o show do intervalo (esse ano é do The Who) é super comentado. Amanhã provavelmente vou ouvir e fazer comentários da partida na escola. Talvez mais comentários do que sobre o retorno do Robinho ao Santos com gol de calcanhar em cima do São Paulo.

Mas o que isso tudo tem a ver com o Forrest Gump? Pra quem viu o filme, Forrest tem um emprego como aparador da grama do time de futebol americano de sua escola. É um cargo honorário por ser um herói local. E é justamente nesse ponto que quero centrar minha análise. A capacidade norte-americana de gerar ídolos e a capacidade brasileira de destruir ídolos nacionais. Forrest tornou-se um herói de guerra, foi tratado como herói o tempo todo mesmo tendo graves limitações. Duvido que aqui ocorresse o mesmo.

Não sou um defensor da cultura norte-americana, mas acho interessante essa coisa de tentar sempre ser o melhor em algo e lutar por isso. Mais interessante é valorizar isso. Penso agora no The Who e na música My Generation (clique para ouvir), (aqui uma versão engraçada da música, cantada por idosos) espero que toquem no intervalo do Super Bowl hoje. A música fala de uma rebeldia jovem, de uma luta constante na geração e contra a geração. Fala da ideia de se morrer jovem, e ai eu penso na juventude mental e não na juventude etária.

Vejo essa gana da música como principal motivo pra se criarem heróis e estes serem idolatrados. Alguém que se destaque no meio da massa por algum motivo merece ser idolatrado e não invejado. Infelizmente é a inveja que impera aqui em nosso país nesse aspecto. Já falei que exigimos de atletas mais do que eles podem oferecer, que um músico não pode só tocar seu instrumento e um ator além de atuar deve mudar o mundo. Coisa que o cidadão médio nem liga, apenas cobra.

Forrest de certa forma mudou parte de seu mundo e tomou parte de acontecimentos importantes. Por isso, mesmo mentalmente debilitado, sempre foi visto como herói. Assim como hoje deve acontecer no Super Bowl. Esse evento merece mais linhas de discussão.

O principal enfoque desse evento é criar heróis. Mais do que definir quem é a melhor equipe de futebol americano, serve para definir novos heróis nesse esporte. As entrevistas prévias, a maneira como tudo é levado faz-nos enxergar o evento como uma fábrica de ídolos. Nesse ano, por exemplo, vende-se a disputa entre o candidato a melhor jogador da história e o time da cidade que mais sofreu com o Katrina (aliás cidade de onde saiu Payton Manning o tal candidato a melhor da história que era torcedor do time de New Orleans).

A disputa toda parece resumida a essa disputa e a questões familiares, com a amizade entre o quarter-back dos Saints e o irmão do Manning que joga nos Colts. O drama é elevado ao máximo. No ano passado exploraram a idade dos quarter-backs, em anos anteriores histórias de vida de atletas ou mesmo histórias das cidades dos times.

Aqui no Brasil a gente mal consegue divulgar um Corinthians x Palmeiras e olha que existe muito mais história nesse confronto do que nas partidas do futebol americano. Isso acontece a meu ver, em grande parte, pelo fato de que não respeitamos o tamanho do adversário. Nós procuramos defeitos em tudo que não nos pertence e nunca idolatramos alguém só por aquilo que esse alguém tem de bom. Quem sabe mudamos isso um dia? Garanto que teríamos muito menos confusão e muito mais alegrias como brasileiro do que temos hoje, sem falso populismo, até porque infelizmente só os políticos são impunes nesse país. Eles nunca são cobrados e são sempre premiados.

Eu torço para o dia em que uma final de campeonato brasileiro de futebol ou de qualquer outro esporte tenha o mesmo peso que tem a final da NFL e seu SuperBowl





What If – Coldplay

24 01 2010

E se eu tivesse tido coragem de falar o que sentia? O que ela teria dito? Nunca mais vou saber...

Eu tinha prometido parar de utilizar Watchmen como referência. Porém, uma conversa que tive ontem me fez mudar de ideia. Um longo papo no MSN onde alguns porquês vieram a baila sem que eu pudesse responder, apenas pensar como poderia ser um mundo alternativo, onde aquelas perguntas pudessem ser a realidade vivída.

Como o mundo de Watchmen, onde pequenas coisas causariam uma imensa mudança na história americana, o que aconteceria em nossa realidade com pequenas mudanças em pontos chave? Se você não tivesse ido naquela festa, se ela não tivesse atendido o telefone, se tivesse aceitado aquela proposta de emprego?

Tem uma música do Coldplay que brinca um pouco com isso. What If (clique aqui para ver um clipe). Vale a pena ver um trecho da letra traduzida logo abaixo

E se não houvesse nenhuma mentira

Nada errado, nada certo

E se não houvesse tempo

Nenhuma razão ou rima

E se você decidir

Que você não me quer ao seu lado?

Que você não me quer na sua vida?

É bem essa a linha de pensamento. O que aconteceria se pequenas coisas mudassem? Eu fiquei os dias de ontem e hoje pensando nisso. Lembrei de momentos cruciais da minha existência, das dúvidas que eu tive e de como essas dúvidas me machucaram. Do efeito que cada escolha teve em mim. Lembrei de cada noite que passei em claro tentando decidir o que escolher. Também me veio a cabeça o quanto eu tentei descobrir o que cada uma das minhas escolhas me levaria a fazer e ser.

Lembro também de umas revistas que eu lia quando moleque. As da Marvel Comics, hoje leio mais as da Vertigo e da DC, vez ou outra compro algo da Marvel, confesso que a morte do Capitão América, duas equipes de Vingadores e a invasão dos Skrulls foram séries meio sem graça. Mas voltando a essas histórias. Era comum surgirem vez ou outra histórias com o título o que aconteceria se… Nessas histórias, os roteiristas escolhiam momentos importantes da cronologia de alguns personagens e mudavam fatos, como a morte de alguém, um casamento, a vitória ou derrota numa disputa, encontrar ou não determinado artefato. A partir dessa premissa uma história era escrita dizendo o que aconteceria na cronologia do personagem com aquela simples alteração.

Quem nunca pensou assim? Quem nunca se questionou se fez a melhor escolha? Quem não gostaria de ter mudado uma decisão imaginando que face ao que ocorreu em sua vida após aquela escolha, a outra alternativa com certeza seria melhor. É claro que tudo isso é apenas mais uma forma que a gente cria pra tentar se reconfortar em situações adversas.

Mesmo sabendo que é puro exercício maluco. Eu queria sim mudar algumas coisas que eu fiz. Ou melhor, eu gostaria que fosse possível analisar de forma correta até onde cada linha de decisão nos levaria no futuro. Por outro lado. Muitas vezes me pergunto se vale a pena esperar o futuro, a dúvida, por mais ridículo que possa parecer, é um dos motivos que me mantém vivo. Essa esperança no desconhecido e a frágil crença de que talvez as escolhas que eu faça hoje possam criar para mim em algum momento um futuro agradável. Assim, toda vez que eu me pergunto se valeu a pena não ter encerrado minha vida ainda. A dúvida me mantém.

E você? Como reage as escolhas? Tem alguma que gostaria de mudar? Gostaria de saber até onde outra linha te levaria? Conte pra gente.





Tento Entender – Otto

18 01 2010

As vezes criamos um personagem que nos protege do mundo exterior

Tento entender o que se passa nesse mundo que me cerca. Talvez essa frase seja a melhor forma de se definir Rorschach. O personagem obstinado em fazer valer um tipo de ideal de justiça que acredita. Meio maluco, o personagem transformou-se no maior temor dos bandidos do submundo, mesmo depois da proibição dos super-heróis. A música do Otto (Tento Entender – clique para ouvir) pra mim traduz a essência do personagem com todos os seus conflitos

Rorschach me encanta por ser o oposto total do Ozymandias, é alguém que defende suas ideias até o fim e que faz de si mesmo o responsável por levar essas ideias. Se tiver que se sacrificar pelo que acredita, ele fará isso. Eu penso de forma parecida. Acredito que é nossa a responsabilidade por nossos sonhos e se alguém tiver que sofrer para que um sonho meu se realize esse alguém sou eu.

A moral excessiva de Rorschach vem de dois eventos pesados ocorridos em sua vida. Primeiro a sua infância/adolescência, onde conviveu com sua mãe (até agora não entendi bem se ela era prostituta ou apenas digamos assim volúvel), sendo totalmente rejeitado. Já adulto e com a vida de herói iniciada. Ele investiga o sequestro de uma menina, crime que infelizmente termina de forma trágica e faz surgir a versão final e mais violenta do herói. Que não desiste do combate ao crime mesmo quando a atividade se torna ilegal.

Esse é um ponto interessante. Penso que a permanência de Rorschach no combate ao crime se deve a forma como ele passou a encarar a própria existência após esse crime. Walter Kovacs passou a ser a fantasia e Rorschach passou a ser o indivíduo. Aqui mais um paralelo com o mundo real. Quantas pessoas não esquecem quem realmente são e, por motivos diversos, passam a agir apenas em parte de sua vida? São profissionais que abrem mão da vida pessoal por não saberem lidar com elas. Profissionais em tempo integral. Atletas que não conseguem parar, artistas que só existem em sua obra, casais que só existem um no outro.

A anulação do lado Kovacs foi traumática e fácil de ser percebida. A elevação da face Rorschach parece até óbvio. Mas isso é ficção, me pergunto o motivo de fazermos isso tantas vezes também na vida real, com um motivo semelhante, como não temos maturidade suficiente para resolver determinados aspectos de nossa existência, simplesmente os deixamos de lado e damos ênfase para aquilo que fazemos com mais facilidade.

Num primeiro momento, pode até parecer interessante. A produção parece aumentar, nos tornamos realmente confiantes naquilo que fazemos bem. Mas e quando o lado frágil começa a fazer falta? Como retomar? Rorschach não viveu o suficiente para ter a oportunidade de retomar esse lado. Porém, nós vivemos. Saber lidar com isso é sempre complexo e doloroso.

Eu admito muitas vezes agir assim como Rorschach. Isso nos dois aspectos mais marcantes do personagem. Sim, deixo de lado alguns lados meus que não domino e parto com tudo para aquilo que é certo. Tenho medo de arriscar em campos que não tenho controle, por mais importante que isso acabe sendo pra minha vida. Fujo. Esse é o lado ruim.

O lado bom é a perseverança. Eu defendo meu senso de justiça e acredito sim que eu sou o responsável por aquilo que desejo ver acontecendo. Até existe acaso, mas eu tenho total responsabilidade pelo que minhas vontades causam ao mundo. A cena onde Rorschach é destruído pelo Doutor Manhattan deixa isso bem claro. Era contra seus princípios deixar o mundo iludido pelo sonho de Ozymandias, por mais que o resultado parecesse positivo, ele era contra matar milhares de pessoas inocentes e enganar todas as outras existentes no planeta.

Ai, vale a pena ressaltar que a discussão fica apenas num nível. Provavelmente Ozymandias se ache superior aos demais e por isso mais valioso. Eu me vejo como Rorschach, igual a todo mundo. Meu ideal não é melhor que o de ninguém. Existem regras e elas valem pra todo mundo, dentro delas eu luto por aquilo que acredito sendo eu o responsável total por isso. Digamos que alguns aspectos de minha vida sejam bastante semelhantes a escolha que Rorschach fez de manter-se na ativa mesmo sendo contra a lei. São pontos tão importantes dentro do que eu considero correto que coloco esses valores acima de tudo.

Quem não tem valores assim?





O Homem é esperto, mas a morte é mais – Ira

30 12 2009

Fugir é mais corajoso do que fazer o outro pagar por seus erros

Teve gente que me perguntou porque eu estava demorando tanto pra escrever. A bem da verdade era pra este ser meu último texto, mas algumas coisas (in)felizmente mudaram. Continuo falando da minha visão a partir da observação dos personagens de Watchmen. Hoje é a vez de Ozymandias, o tal homem mais inteligente do mundo. Enquanto escrevo, três músicas tocam alternadamente e uma delas dá nome ao post. O homem é esperto mas a morte é mais do Ira (clique para ver e ouvir), Trip at the brain do Suicidal Tendencies (clique para ver e ouvir) e a bastante divertida e mordaz(quase virou título do tópico) Elza dos Mulheres Negras (clique para ver e ouvir).

Tendo largado a vida heróica antes da proibição governamental e sendo extremamente rico, Adrian Veidt sempre se vendeu como o homem mais inteligente do mundo, com total controle do seu corpo era tão veloz que conseguiu até pegar balas com as mãos. Uma figura estranha e bastante manipuladora. No fundo Adrian é o grande vilão da história, vai aos poucos caçando (e desacreditando) aqueles que ele julga poderem atrapalhar seu plano de “salvamento” do mundo.

Para ele, desastres globais fariam o homem deixar suas diferenças de lado e levariam ao fim das guerras, no caso da história, a Guerra Fria seria findada e o mundo entraria num período de paz. Mas a que custo? Ao custo de milhares de vidas que nem saberiam o que estava acontecendo, tudo porque Adrian Veidt acreditava ser este o caminho.

Por acaso a sua forma de ação acaba funcionando, pelo menos até certo ponto, e isso até onde a história termina. O leitor é levado à dúvida pela cena final. Mas confesso que isso não importa. A análise que quero fazer aqui é outra. Quero levar a discussão para a pressunção de Veidt. Ele realmente acredita poder decidir por todo o mundo o que é certo e o que é errado. E nesse ponto consegue ser mais insensível que o Dr. Manhattan. Sua verdade está acima da verdade de todos os outros porque ele é mais inteligente do que todos os outros e ele carregará o fardo da escolha que não disponibilizou a mais ninguém.

Em uma escala menor, quantas vezes não agimos de forma parecida e a meu ver covarde? Quantas vezes não acreditamos que a nossa visão sobre determinado tema é a correta e o mundo todo deve acatar isso sem questionamento algum? Não sei se enxergo isso como prepotência ou covardia. Provavelmente um pouco dos dois e recheado com bastante medo, medo de ouvir uma opinião diferente da nossa num assunto que diga respeito a mais pessoas.

Porque falar disso agora? Eu sinceramente tinha em minha cabeça a idéia de me matar agora na virada do ano. Sem motivo especial para escolha da data mas com motivos pessoais mil pra encerrar uma situação que me incomoda a muito tempo. Vendo Ozymandias sacrificar outras pessoas ao invés de resolver o problema da forma mais honesta me pareceu covardia. Se ele (assim como eu) não se acostuma e nem gosta do mundo em que está inserido mas percebe que as pessoas ao seu redor gostam, quem deve se retirar do mundo? As pessoas que gostam dele? Óbvio que não.

Já deve ter dado pra perceber nos diversos posts desse blog que eu não consigo me sentir a vontade aqui. E confesso que não culpo ninguém por isso. O problema é apenas meu, o lugar não me agrada eu deveria ter o direito de me retirar dele e deixar espaço pra quem se sente confortável e adora isso aqui. Afinal as escolhas deveriam ser sempre pessoais. No meu caso, pelo menos por enquanto tenho que abortar o projeto, algumas pessoas precisam de mim nesse momento e simplesmente não posso cair fora como gostaria. O jeito é tentar me incomodar o mínimo possível com a forma como esse mundo e eu nos relacionamos. Depois de quase 35 anos, acho pouco provável começar a apreciar a vida de forma plena como vejo a maioria das pessoas fazendo, então é fazer o que deve ser feito da melhor maneira possível enquanto o tempo passa.

Aqui vale retornar ao pensamento maluco do Adrian Veidt. Ele escolheu um modelo, acreditava que poderia ser até maior do que ele e de certa forma foi a única pessoa com quem se relacionou. Eu não sou nem tão pirado e muito menos tão “inteligente” quanto Ozymandias, me relaciono com mais gente, interajo mais, só não me sinto feliz com isso. Poucas vezes fui feliz, pra ser bem honesto.

Talvez a nossa maior diferença seja o fato de que eu não consiga ver as pessoas de cima (e nem poderia fazer isso, sou como qualquer um). Esse achar-se superior a mim parece mais uma defesa do que realidade. Uma forma de fugir do seu verdadeiro mundo é tentar controlar o mundo dos outros, não aceitando as falhas que se tem e muito menos reconhecendo os diversos erros que cometemos.

O problema maior é conviver com a nossa pequenez diante de tudo o que nos cerca. Situações corriqueiras nos mostram que simplesmente aquela situação não é para nós e o máximo que podemos fazer é sairmos da situação ou aceitarmos o meio e apesar de toda dor sentida continuarmos existindo dentro desse mundo. Cada um faz as suas opções. Eu tive que refazer as minhas.





Who Wants to Live Forever – Queen

23 12 2009

não adianta ver uma bela paisagem é preciso saber senti-la, e isso infelizmente é mais difícil do que parece

Hoje é dia de falar do único personagem da história que realmente tem superpoderes, o dr. Manhattan. Um físico fica preso dentro de uma máquina que não pode ser desligada e seu corpo é destruído. Tempos depois ele reaparece como um ser com o poder de controlar os átomos, alguém que pode fazer praticamente qualquer coisa.

Nessa realidade alternativa, a presença do Dr. Manhattan faz com que a Guerra do Vietnã seja vencida pelos americanos, que Nixon seja reeleito e se torne uma espécie de herói popular, a Guerra Fria alcança níveis terríveis e a antiga U.R.S.S não invadiu o Afeganistão. Com todo esse poder geopolítico em suas mão, entretanto, o personagem em questão parece cada vez mais alheio a esse mundo onde está inserido. Aliás a cada momento ele parece cada vez menos humano.

Tendo conhecimento sobre seu futuro, ele simplesmente ignora o que acontece ao seu redor. Sentimentos, pessoas, sensações não passam de fatos diante dos seus olhos. Ele enxerga tudo como átomos interagindo, apenas isso. É imortal e me fica a pergunta, será que ele quer isso ou se toca a respeito disso? Por isso a música do Queen, who wants to live forever (clique aqui para ver o clipe) faz parte da trilha de Highlander, um filme que traz homens que são imortais a menos que lhes arranquem as cabeças.

Dr. Manhattan não corre nem esse risco. Na verdade, acredito que mesmo que corresse não faria diferença alguma. Essa sua postura meio autista em relação a tudo o que o cerca, essa sua visão limitada a aquilo que ele quer e consegue perceber e entender não é algo totalmente estranho ao ser humano. Eu mesmo já me peguei diversas vezes fugindo do mundo que me cerca, tendo uma visão totalmente limitada sobre o que acontece e acreditando que aquilo que eu via era o suficiente para entender e viver bem no mundo em que estou.

Aliás, acho que isso acontece comigo o tempo todo. Tenho uma visão muito pessoal e particular da vida e muitas vezes acabo, como o Dr. Manhattan, me fechando dentro desse pequeno universo particular e deixando de lado sensações e emoções simplesmente por não entendê-las de forma clara e coerente. Faço das minhas limitações um recurso para isolar-me ainda mais do resto. Não tenho uma “Silk Spectre” ao meu lado para magoar com minha postura muitas vezes absurda. Mas convivo com pessoas e estas pessoas acabam vendo-se afastadas de mim, ou pelo menos de aspectos importantes de minha vida simplesmente pelo meu jeito peculiar de ser e agir.

O padrão de comportamento robótico, ou multifuncional como sou chamado pela psicóloga…rs é real e é a forma mais segura que eu encontrei para não sucumbir a loucura e tornar-me um Comediante, mas eu estou longe de ser um Dr. Manhattan, não tenho saberes e nem poderes que me tornem acima ou mesmo capaz de estar realmente isolado e a parte do resto da população.

Sei de diversas outras pessoas que também são assim, presas em seu mundo, sem conseguir perceber coisas simples que se situam ao alcance de seus olhos. Gente que como eu não consegue ainda entender o que está fazendo neste planeta, gente que vive e faz aquilo que acha certo dentro do seu padrão, sem entender os padrões e funcionamento dos outros. Gente que parece não ter sentimento algum. Mas que infelizmente chora e muito por não entender os sentimentos mais simples que tem.

BlogBlogs.Com.Br