Paperback Writer – The Beatles

4 08 2010

São as palavras que me mantém nos trilhos


As férias acabaram a alguns dias. Não fiz metade do planejado, aliás os planos pra variar mudaram durante o percurso e como sempre nem no velho nem no novo planejamento as coisas planejadas pras férias deram certo, mas isso acontece sempre. Hora de mudar o foco de novo.

Falo em mudar o foco porque agora não sobra mais muito tempo pras lamúrias e reclamações. É trabalho direto até dezembro, coisas que com certeza vão cair do nada e precisarão de resolução, nem reclamo disso, no fundo essa é a parte legal do trabalho, a sensação de que sou realmente necessário em algum lugar fazendo alguma coisa. É a total falta de amor próprio provavelmente minha terapeuta vá dizer, mas é verdade, no fundo o legal do trabalho é me fazer sentir-se útil.

Não que eu fuja do padrão de querer coisas novas. Não que eu não diga que hoje ao final do expediente faltavam dois dias a menos para as próximas férias. Mas, estranhamente, mesmo os receios profissionais que eu tenho, mesmo o cansaço da atividade e outros problemas que surgem pra todo mundo, mesmo tudo isso acaba sendo recompensado pelo fato de me sentir útil.

Se perguntar diretamente a mim se realmente sinto prazer trabalhando, se faço aquilo que mais me dá prazer. Não conseguirei mentir e dizer que faço. Eu não desgosto do que faço, muito pelo contrário até, mas confesso que preferia fazer algo mais intimista, com menos gente, menos contato com aquilo que no fundo mais me assusta.

Se eu pudesse escolher e tivesse habilidade suficiente, gostaria de viver apenas escrevendo e fotografando, até por isso coloquei a música dos Beatles no título deste tópico. Me imaginando escrevendo livros de bolso, roteiros de cinema, romances best seller, poesias de qualidade, enfim, gostaria sim de ser um grande autor. Até tem gente que vai falar que eu já sou um autor, tenho este blog, escrevo de vez em quando em outro, o Devaneios Lúcidos, tenho um livro publicado e agora brigo com a falta de capacidade de concentração para escrever meu próximo livro de fotos e poesias. Pensando assim, eu sou mesmo um autor, mas não um grande autor.

Para chegar lá, ainda tenho que melhorar muito, ler muito, estudar muito e me manter fazendo diversas outras coisas, inclusive dar aulas. Não que seja ruim viver das aulas, mas seria mais divertido e interessante conseguir ser um autor tempo integral. Assim como alguns músicos caseiros gostariam de viver de música, alguns jogadores de fim de semana gostariam de viver do esporte e por ai vai.

Não vivo meu sonho ainda de modo pleno, mas confesso que estou em busca. E justamente é esse o momento chato do fim das férias. Falta tempo para escrever do jeito que eu gostaria. As responsabilidades agora são outras e os textos ainda não pagam minhas contas. Falta tempo para ler os livros que gostaria, os blogs que gosto de seguir e até tempo para descobrir coisas novas. Atrasar essa parte da minha vida por seis meses causa uma dor quase física.

E aqui quando falo da escrita, por incrível que pareça, tem muito menos a ver com os textos que mostro e mais a ver com os textos que me libertam. É claro que a gente sempre escreve pro outro, mas sempre tem os textos que eu nem faço pensando em mostrar pra alguém e sim pra mim. Textos que funcionam de maneira quase tão intensa quanto as sessões de terapia (se eu falar que eles tem a mesma força a terapeuta vai brigar comigo…rs). E principalmente textos que no fundo trazem prazer. Escrever é hoje o principal prazer que eu tenho, aliás acho que escrever sempre foi o maior prazer em toda minha vida.

Esse prazer vem do fato de que só quando escrevo eu me percebo realmente autêntico. Só com as palavras eu me sinto realmente livre. Parece que cada palavra carrega um pouco dos meus medos pra fora de mim.

Aliás, é engraçado, dos meus medos do fim das férias, o único que realmente me magoou e que ainda dói é perceber que terei menos tempo pra escrever. Eu até escrevo mais da minha fase encalhado, dos medos diversos que eu tenho na vida e tudo mais. Mas o que me incomoda é a escrita. Sei que provavelmente continuarei encalhado por muito e muito tempo. Faço piada com isso, como faço com muita coisa. As vezes me sinto sozinho. Sei que tenho um monte de medos, como o medo de lugares cheios (apesar de dar aulas), tenho medo de diversos lugares (que sou até obrigado a visitar) e tudo mais, mas se posso escrever sobre, me sinto muito mais forte.

Perder essa força justo agora é que está sendo difícil de engolir. Eu já estava me acostumando a todo dia ter um certo tempo pra falar com o computador, a folha de papel e a caneta sobre minhas dores. Pena que agora será raro. Prometo atualizar sempre o blog, estes textos eu sei que farei, mas já sinto falta dos textos que eu faço e nunca mostro pra ninguém. E você exorciza as pequenas dores do cotidiano?

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Let it Be – Across the Universe

1 07 2010

Quem não se encanta com um belo sorriso como esse?

Essa semana foi corrida a maluca, mas as ferias chegaram, finalmente chegaram, eu preciso e muito delas pra tentar colocar a cabeça no lugar e mesmo tentar produzir algo diferente (tudo bem que mais de uma semana já me cansa, mas isso é pro próximo post). Eu até poderia continuar falando do Saramago, mas as férias me fazem falar de outra coisa. Não só as férias, mas também algumas conversas que tive nessa reta final.

Tenho conversado com bastante gente nesses dias e invariavelmente eu vejo várias delas tristes, cansadas, desanimadas. Excesso, esse seria o primeiro movimento a se pensar, certo? Foi a minha primeira ideia também, e achei que isso resumia tudo, mas na verdade, a coisa só toma esse caminho até a página 2. A coisa é bem mais profunda e dolorosa.

Uma pessoa não cansa de me dizer que somos o reflexo daquilo que o outro enxerga. Já tivemos discussões a respeito disso, na maioria das vezes eu discordo. Confesso, entretanto que nesse caso sou obrigado a dar mão a palmatória e admitir que realmente estava enganado. É justamente isso que vejo nessas pessoas o tempo todo. E só cheguei a essa conclusão quando percebi que isso acontecia claramente comigo, a partir deste ponto, extrapolar foi algo bastante simples.

Eu falei com gente que se dizia cansada e desmotivada por não saber se seu trabalho realmente está bem feito. Por não ter qualquer sinal do mundo que indique que a coisa está andando na direção certa. Eu vi muita gente perdendo o humor por ter a percepção (talvez falsa) de que aquilo que se faz com mais empenho e importância acaba tendo menos importância do que papéis que na verdade todos sabem que não levam a lugar nenhum, pelo menos na parte do processo em que se atua. Enquanto tudo o que se desdobra pra se fazer bem feito porque é onde realmente a coisa acontece, nem é levado em consideração.

Sem pequenas respostas positivas do que nos cerca, a nossa confiança vai sendo pouco a pouco destruída, perguntamos a nós mesmos para que seguir adiante, ou mesmo se temos capacidade para tanto. Os questionamentos muitas vezes acabam sendo mais dolorosos do que a realidade e isso traz uma forte depressão e medo. Temos medo de qualquer pequeno passo, qualquer ação passa a parecer irrelevante demais ou o que é pior, passa a ser vista como algo além das nossas necessidades. Eu tenho pontos em minha vida em que me sinto exatamente assim. Algumas coisas parecem não fazerem parte daquilo que eu posso alcançar.

Nessa linha e até pensando na música que escolhi e principalmente na foto que ilustra este post. Semanas atrás fiz um trabalho que de certa me reconfortou. Eu sou professor, apesar de um imenso medo de gente, eu trabalho com pessoas e por menos que se possa parecer. Eu realmente me importo com algumas pessoas que convivem comigo. Ver algumas delas sucumbindo diante de um monte de situações diversas, ver estas pessoas sentindo dificuldade pra realizar coisas que sabidamente elas realizariam em minutos, tanto por falta de confiança, quanto pelo excesso, me incomodou.

Surgiu, meio por acaso, a chance de fazer um “pequeno agrado” a algumas pessoas. Fiz fotos com um objetivo muito claro pra mim (que era diferente da de quem me propôs a atividade). Eu só queria mostrar numa fotografia que as pessoas fotografadas eram muito mais belas, inteligentes e especiais do que imaginavam naquele momento de desgaste físico e emocional causado pelo sistema maluco em que estavam inseridas.

Fiz assim algumas fotos das pessoas e um deles é o que ilustra o post. Foi divertida a percepção do trabalho. No início a grande maioria das pessoas estava com medo da câmera, uma insegurança forte diante do que seria feito. Após verem as imagens, gostaram do que viram. Isso me alegrou, até porque era o que eu queria. Fazer algo que mesmo que momentaneamente alegrasse as pessoas que eu cliquei.

A escolha da música também partiu disso. Eu estava na dúvida, confesso. Mas dois dias atrás tive acesso ao pendrive de uma das pessoas que cliquei e vi ali as músicas do filme Across the Universe. Eu adorei o filme (tenho em casa) e gosto pra caramba dos Beatles. Logo buscar uma música no filme foi até uma atividade divertida. Chegar a “Let it be” foi assim parte do processo e o vídeo é de uma cena do filme.

A escolha de “Let it be”, tem a ver com a forma como muitas vezes nos apresentamos. Necessitados de uma palavra sábia num momento de escuridão. Um afago vindo de alguma “mother Mary”,  que nesse caso específico eu tentei sei, não sei se consegui, mas ao menos alguns sorrisos mesmo que contidos eu consegui, como esse belo sorriso ai da foto.

É normal perceber que cada pessoa tem seu calcanhar de Aquiles. Um ponto onde se mostra mais frágil e que precisa sim de mais estímulo para acreditar que pode. Um ponto onde sua auto confiança parece menor, na maioria dos casos por besteira, mas essa besteira nos impede de agir. É como o atleta que rende mais se o técnico diz que ele pode fazer, o aluno que precisa da confirmação do professor a cada questão respondida ou o namorado que precisa a todo momento de alguma confirmação dos sentimentos da pessoa amada.

Tudo isso, é claro, fez-me pensar também na minha situação e assumir que ainda não sei se o que acontece comigo é falta de capacidade ou falta de retorno do meu entorno. Assunto pra muitas sessões de terapia e de certa forma um pequeno alento, vai que sou menos incapaz do que eu me imagino?

OBSERVAÇÃO:  Eu começo agora a também escrever em um outro espaço, um blog coletivo iniciado pela minha grande amiga Lak. Lá eu devo colocar um tipo diferente de textos, provavelmente mais poesia, já que estou disposto a publicar um novo livro de fotos e poesias ainda neste ano.

O link do blog está aqui (www.devaneioslucidos.wordpress.com) e também nos sites que indico

http://www.youtube.com/watch?v=7gPjGuC6CFQ





Penny Lane – The Beatles

28 01 2010

assim como a flor precisa da abelha, a abelha precisa da flor

Ainda pensando em Forrest Gump, no que escrevi no último texto, eu retomo um antigo post meu o Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Quero retomar essa ideia relacionando isso com a responsabilidade dos nossos atos. Se da outra vez eu falava de um coração amargurado (o meu), hoje eu quero voltar ao tema pensando na responsabilidade dos atos.

Talvez a música que mais próximo se aproxime do que eu quero falar seja Penny Lane, principalmente nesse desenho animado que eu uso como referência (clique para ver). Nessa história os rapazes de Liverpool falam de situações comuns, de pessoas comuns de sua vida. Acontece que como pode ser facilmente visto no desenho, essas pessoas comuns possuem comportamentos comuns que interferem na vida de outras pessoas.

Até ai nada novo, eu escrevi exatamente isso no texto passado. O que muda aqui é a responsabilidade. Pensando em Forrest, ele de certa forma fez uso de seu jeito simplório (me falaram abobalhado, mas não penso dessa forma) e marcou todo mundo que passou por sua vida de uma forma positiva, só com existência em primeira instância e companhia em segundo estágio.

Vendo essas coisas me lembro também de um ditado batido, fazer o bem sem olhar a quem. Acho que ele faz sentido quando visto sob o olhar de quem lidera algo. Quando você faz algo e percebe que alguém fica feliz por suas ações, você sente uma leveza. Esse talvez seja o pagamento por fazer algo de bom. Ninguém é bom por ser, mas sim porque o prazer que se recebe por um ato bom é uma sensação maior do que a ofertada.

Nós costumamos cativar pessoas esperando esse tipo de sensação. É um mimo num aniversário, um jantar especial ou simplesmente um bom dia sorrindo. Ações comuns que fazemos para de certa forma não passarmos despercebidos. Eu atuo como professor, confesso que gosto quando percebo que uma ação minha faz diferença em algum aluno. Tenho a impressão de ter feito a coisa certa e uma sensação de dever cumprido.

O problema é que não somos como o Forrest, nem todas as nossas ações são positivas. Vale voltar ao desenho, o desejo do Paul por fama cria certa confusão. Pequenas ações cotidianas nossas possuem efeito parecido. É uma frase mal colocada, um olhar desviado que fazem alguém se sentir mal.

Claro que preciso entender que isso é fruto do fato da nossa espécie ser sociável. Cada pessoa reage de forma diferente ao que se apresenta aos seus olhos. Mas tomar certo cuidado com a forma como se age deveria ser a tônica de todos, e não o oposto como geralmente ocorre. Esse movimento de perceber até onde nossas ações afetam os outros e pesar os efeitos de cada ato ainda é pouco comum. Vemos isso profissionalmente, mas e nas relações interpessoais?

Nesse ponto, algo que muito me chateia é perceber como pessoas que nitidamente se amam se machucam tanto. É comum ver como pessoas extremamente próximas perdem seu auto controle e partem deliberadamente para a agressão ao outro. Quem ama é justamente quem mais fere. E a ferida acaba sendo mais profunda porque nunca esperamos esse tipo de ação, além do agressor conhecer com bastante propriedade os nossos pontos mais frágeis e dolorosos.

Nessas ações, invariavelmente após os momentos de raiva doentia, tanto agredido quanto agressor sentem a dor do ato. O efeito nunca fica apenas numa pessoa. Por mais que um dos lados afirme que não sente nada, nunca vi um caso onde isso realmente tenha acontecido. Por vezes os lados chegam a um meio termo e a boa convivência volta, mas algumas feridas infelizmente não se fecham nunca.





The Long And Winding Road – The Beatles

15 11 2009
foto7mini

a beleza das estradas sinuosas está nas coisas que se escondem em cada curva

Fecho hoje o tema das saudades. A última delas nem é tão saudade assim, é mais uma sensação pessoal de orgulho e dever cumprido. Quem nunca se sentiu a pior das pessoas por não ter conseguido levar adiante uma história importante em sua vida? Quem nunca se culpou e acreditou que cometeu todos os erros do mundo, fazendo com que toda a culpa realmente residisse em suas costas?

Eu vivi isso por um longo tempo. Achei-me incapaz de acertar. Diziam-me que o tempo cura tudo. Confesso que não me curou. A cura veio de outras fontes, bem menos nobres e muito mais interessantes. A verdadeira cereja do bolo, entretanto, veio de outro local. Surgiu da percepção real de que sou importante, quando o calo aperta, a coisa complica, é meu telefone que toca, mesmo com certo receio, é meu auxílio que é solicitado.

Percebo as vezes um leve mal estar em me procurar. Sinto o peso, como se fosse sempre a última opção. Ai me vem a cabeça uma canção dos Beatles. The Long and Winding Road, o caminho até mim se tornou uma estrada longa e sinuosa, dolorida, mas necessária em alguns momentos.

Uma lida rápida pode parecer que eu esteja saboreando algum tipo torpe de vingança. Nada a ver com isso. Até tenho sim meus senãos com algumas histórias, entretanto, hoje o que mais quero é escrever outras. Meu último post deixa isso bem claro, aliás, o último post tornou-se quase um mantra. O que vale ressaltar aqui, é que sim, me sinto bem em perceber que não errei. E principalmente, me sinto ótimo em saber que eu perdi bastante, mas honestamente teve gente que perdeu mais do que eu.

Reconhecer que tenho algum tipo de valor está fazendo um bem danado pro minha auto-estima falida. Eu sempre assumi que sou muito bom em algumas coisas e que sou péssimo em diversas outras. No geral o peso das diversas outras é maior do que as algumas coisas. Típico de quem não tem muito amor próprio.

Talvez semana que vem eu volte em textos novamente mais gerais, com mais opiniões minhas sobre o mundo, temas realmente substanciais e fora desse meu universinho podre e depressivo. Até porque pouca gente leu ou comentou o que escrevi. Mas tenho que admitir que precisava desabafar ou então ruiria de vez. Assim, se quiser, deixe ai um comentário, dê uma sugestão de tema que eu prometo ler e responder já nessa semana que se inicia.