Tento Entender – Otto

18 01 2010

As vezes criamos um personagem que nos protege do mundo exterior

Tento entender o que se passa nesse mundo que me cerca. Talvez essa frase seja a melhor forma de se definir Rorschach. O personagem obstinado em fazer valer um tipo de ideal de justiça que acredita. Meio maluco, o personagem transformou-se no maior temor dos bandidos do submundo, mesmo depois da proibição dos super-heróis. A música do Otto (Tento Entender – clique para ouvir) pra mim traduz a essência do personagem com todos os seus conflitos

Rorschach me encanta por ser o oposto total do Ozymandias, é alguém que defende suas ideias até o fim e que faz de si mesmo o responsável por levar essas ideias. Se tiver que se sacrificar pelo que acredita, ele fará isso. Eu penso de forma parecida. Acredito que é nossa a responsabilidade por nossos sonhos e se alguém tiver que sofrer para que um sonho meu se realize esse alguém sou eu.

A moral excessiva de Rorschach vem de dois eventos pesados ocorridos em sua vida. Primeiro a sua infância/adolescência, onde conviveu com sua mãe (até agora não entendi bem se ela era prostituta ou apenas digamos assim volúvel), sendo totalmente rejeitado. Já adulto e com a vida de herói iniciada. Ele investiga o sequestro de uma menina, crime que infelizmente termina de forma trágica e faz surgir a versão final e mais violenta do herói. Que não desiste do combate ao crime mesmo quando a atividade se torna ilegal.

Esse é um ponto interessante. Penso que a permanência de Rorschach no combate ao crime se deve a forma como ele passou a encarar a própria existência após esse crime. Walter Kovacs passou a ser a fantasia e Rorschach passou a ser o indivíduo. Aqui mais um paralelo com o mundo real. Quantas pessoas não esquecem quem realmente são e, por motivos diversos, passam a agir apenas em parte de sua vida? São profissionais que abrem mão da vida pessoal por não saberem lidar com elas. Profissionais em tempo integral. Atletas que não conseguem parar, artistas que só existem em sua obra, casais que só existem um no outro.

A anulação do lado Kovacs foi traumática e fácil de ser percebida. A elevação da face Rorschach parece até óbvio. Mas isso é ficção, me pergunto o motivo de fazermos isso tantas vezes também na vida real, com um motivo semelhante, como não temos maturidade suficiente para resolver determinados aspectos de nossa existência, simplesmente os deixamos de lado e damos ênfase para aquilo que fazemos com mais facilidade.

Num primeiro momento, pode até parecer interessante. A produção parece aumentar, nos tornamos realmente confiantes naquilo que fazemos bem. Mas e quando o lado frágil começa a fazer falta? Como retomar? Rorschach não viveu o suficiente para ter a oportunidade de retomar esse lado. Porém, nós vivemos. Saber lidar com isso é sempre complexo e doloroso.

Eu admito muitas vezes agir assim como Rorschach. Isso nos dois aspectos mais marcantes do personagem. Sim, deixo de lado alguns lados meus que não domino e parto com tudo para aquilo que é certo. Tenho medo de arriscar em campos que não tenho controle, por mais importante que isso acabe sendo pra minha vida. Fujo. Esse é o lado ruim.

O lado bom é a perseverança. Eu defendo meu senso de justiça e acredito sim que eu sou o responsável por aquilo que desejo ver acontecendo. Até existe acaso, mas eu tenho total responsabilidade pelo que minhas vontades causam ao mundo. A cena onde Rorschach é destruído pelo Doutor Manhattan deixa isso bem claro. Era contra seus princípios deixar o mundo iludido pelo sonho de Ozymandias, por mais que o resultado parecesse positivo, ele era contra matar milhares de pessoas inocentes e enganar todas as outras existentes no planeta.

Ai, vale a pena ressaltar que a discussão fica apenas num nível. Provavelmente Ozymandias se ache superior aos demais e por isso mais valioso. Eu me vejo como Rorschach, igual a todo mundo. Meu ideal não é melhor que o de ninguém. Existem regras e elas valem pra todo mundo, dentro delas eu luto por aquilo que acredito sendo eu o responsável total por isso. Digamos que alguns aspectos de minha vida sejam bastante semelhantes a escolha que Rorschach fez de manter-se na ativa mesmo sendo contra a lei. São pontos tão importantes dentro do que eu considero correto que coloco esses valores acima de tudo.

Quem não tem valores assim?

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Early to Bed – Morphine

30 11 2009

O urubu-rei pode até ser rei, mas nunca deve esquecer que antes de tudo é um urubu

 

Hoje continuo falando do livro do Nick Hornby. Continuo falando dos personagens principais, da forma como eles foram parar no topo do edifício e de como isso pode a meu ver se refletir em mim e até em outras pessoas. O nome de hoje é Martin Short. Homem famoso, bem sucedido, pai de duas filhas, casado, apresentador de TV, figura para lá de pública. Tinha tudo para ter uma vida boa e tranqüila até que jogou tudo pela janela.

Não agüentou as investidas de uma menina de 15 anos, foi pra cama com ela e nessa mesma cama deixou toda a sua vida. E segundo falas do personagem, apenas por sexo. Não existia nenhum tipo de sentimento, apenas desejo e tesão. Martin perdeu emprego, amigos, família, foi preso e nem podia sair às ruas após, alvo que era de olhares e comentários das pessoas.

Fico imaginando o personagem caminhando por Londres ao som de alguma das músicas da banda que acho que melhor traduz o livro, Morphine. Um grupo norte-americano formado por bateria, baixo de duas cordas e sax, sem guitarra que infelizmente terminou em 1999 com a morte do band leader Mark Sandman num palco em Roma, vítima de infarto fulminante. Vasculhando as músicas da banda (que voltará nos demais personagens daqui pra frente), encontrei uma que acho que traduz bem isso Early to Bed (clique no nome da música para ver um clipe), que diz que dormir e acordar cedo limita a vida noturna das pessoas, limita a vida social, limita a própria pessoa a um microverso onde a companhia acaba sendo a tela da TV.

No fundo isso realmente aconteceu com Martin e provavelmente o peso disso tudo é que fez com que ele tivesse a idéia de se matar. Entretanto, é nesse ponto que vale a pena começar a brincadeira com as palavras. Uma análise mais rápida pode nos levar a um caminho mais rápido e simplista. Ele cometeu um erro e merece pagar, ele é o único culpado por seus atos. Até certo ponto isso é verdade, mas e o julgamento do crime? Até falei sobre o tema neste post de maio. Temos pesos e medidas diferentes para cada pessoa.

Talvez Martin tenha sofrido um pouco disso, o peso do julgamento me pareceu muito mais forte do que seria se ele fosse uma pessoa comum e desconhecida. É claro que isso não apaga a canalhice que ele cometeu. Pensando ainda nessa linha, talvez o fato dele não ser alguém comum também tenha criado em sua cabeça a falsa aura de proteção para qualquer ato imbecil que ele viesse a cometer.

Procurando ser mais claro. É comum vermos pessoas com algum tipo de pequeno poder, e ai chamo de pequeno poder coisas simples como um chefe de setor, um recém-promovido, uma pessoa desejada por várias outras, um aluno popular, um cantor de bairro, até os extremamente populares. Em uma ou outra instância, aliás, todo mundo é poderoso em algum ponto. O que pode causar problema é esse poder se tornar mais forte do que a razão, e a pessoa faz uso desse poder como se ele fosse uma capa protetora que o livrasse de qualquer besteira.

Quando a pessoa percebe que não possui esse poder todo, ou em alguns casos a importância que acredita ter naquele pequeno círculo, seu mundo cai. Tudo parece desabar e a sensação de desespero pode ser fatal. Procurando me colocar no lugar do Martin, provavelmente não seriam as perdas que me fariam querer pular do prédio, mas sim a descoberta de que depois de tantos anos me enganando eu não era nem 10% do que acredita ser. Era tudo uma fantasia criada por meia dúzia de bajuladores e principalmente pela cabeça do personagem.

Afinal, sejamos honestos. Temos orgulho das coisas que fazemos. As pequenas conquistas e muitas vezes gostamos de ser reconhecidos pelas nossas vitórias ou ações que acreditamos ser importantes. O problema muitas vezes está em reconhecer que essas situações só são verdadeiramente importantes para nós. Todo o resto do universo segue seu curso sem se importar muito com o que fazemos. Recolher-se a própria insignificância é algo extremamente difícil.





Eu tô voando – Karnak

7 07 2009
Vemos muita coisa diante dos nossos olhos e temos medo de agir

Vemos muita coisa diante dos nossos olhos e temos medo de agir

Depois de ficar duas semanas falando de internet, é momento de falar desse mundão real. Nessa semana pretendo falar da relação causa e efeito que temos nesse mundo. As escolhas que fazemos podem alterar o destino de outras pessoas? Até que ponto é viagem o tal efeito borboleta (eu sei que não é ciência, mas é engraçado como tem gente que vende isso como artigo científico)?

O tema nasceu de uma conversa breve com a amiga Lak do blog Desculpe, não ouvi. Ela contou de um filme que assistiu a um tempo e que mexeu com ela. Fala de um jovem que se mata e a sua morte influencia a vida de seus amigos durante um longo tempo. Enfim, uma idéia interessante para se discutir.

Mas por onde começar? Essa foi a questão inicial. Confesso que fiquei matutando sobre isso enquanto tentava dirigir no pesado trânsito paulistano num mês de férias. Acabei fazendo a opção mais lógica. Começar pelo medo de assumir qualquer responsabilidade que paira sobre muitos de nós em algum momento da vida. A vontade que às vezes paira sobre nós de ser apenas meros observadores do mundo que nos cerca. Eu tinha até a música perfeita para isso. Ano passado, fui ao teatro depois de um longo e tenebroso inverno (vergonha, preciso voltar a ver peças), fui assistir uma peça do Karnak e da Companhia Fractais chamada Universo Umbigo, muito boa por sinal. Numa das cenas, o André Abujamra é levantado por cabos e começa a cantar que do céu dá pra ver tudo, gente triste, gente feliz, passarinho voando, vendaval, cachorro, cabrito, etc.

Na letra ele é apenas espectador, fui atrás da música, se chama Eu to voando, para ver uma filmagem de parte da cena, clique aqui, se quiser ver um clipe completo da música, clique aqui pra ver uma apresentação do Karnak no Sesc Pompéia. Mas voltando, na cena o ator/cantor é apenas espectador e se sente maravilhado por aquilo. Tudo passa diante de seus olhos,  mas ele não tem vontade, coragem ou desejo de interferir nos atos.

Até que ponto nós somos assim? Assistimos a tudo o que passa diante dos nossos olhos sem ter a coragem de interferir. Seja um assalto na rua, uma pessoa que leva um tombo ou alguém que precisa de ajuda? E os mendigos invisíveis? Parece que temos medo de tomar parte, de assumir a nossa parcela de culpa e responsabilidade pelos atos da nossa sociedade.

Não é raro dizermos que isso não é culpa nossa, que não nos atinge ou que honestamente não vimos mesmo o que estava se passando diante dos nossos olhos. E assim a vida segue, elegemos pessoas e delegamos a elas todo o poder e responsabilidade por algo que também deveria ser de nossa responsabilidade. Damos o nosso apoio no momento positivo, em caso de derrota a culpa é sempre do outro (vide os atletas que só são valorizados em caso de sucesso, mas ninguém vê o quanto ralam pra competir em alto nível).

Cobramos de pessoas com um poder aquisitivo maior que ajudem a sociedade, sejam socialmente ativas, distribuam parte de sua fortuna, principalmente celebridades esportivas e artísticas, mas muitas vezes não fazemos nada. Julgamos o mundo que passa diante dos nossos olhos da janela que abrimos para ele e se algo ameaça respingar em nosso rosto, simplesmente fechamos a janela e continuamos julgando através da vidraça.

Por que temos esse medo? Eu imagino que esse medo surja por duas diferentes situações, a primeira é a falta de confiança em nós mesmos, o peso da decisão pode parecer forte demais para alguns. A segunda situação aparentemente parece ligada a primeira, mas não é. Não é o peso da responsabilidade, mas sim a sequência de ações que virão decorrentes de cada escolha feita.

Isso decorre do fato de em muitas de nossas escolhas sempre alguém sai machucado. Quando se faz a coisa certa pesa-se a dor causada ao outro e principalmente a força interior que temos para agüentar a responsabilidade de causar essa dor. Porque milhares de ações sempre acabam interligadas e julgar tudo o que está envolvido em cada ação é complexo e cansativo demais. Talvez por isso, em vários casos preferimos atuar como espectadores e repetir um bordão clássico de quem sempre espera: A VIDA SEGUE…





“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

15 05 2009
nunca cause dor no outro por descaso

nunca cause dor no outro por descaso

Tem situações em que nós ficamos tomados pela raiva. Loucos de desejo de vingança. Algumas ações nos tiram do sério de tal forma que acabam expondo nosso pior lado. O bom senso se perde, junto com ele toda a tão bem desejada boa índole e respeito ao próximo somem de forma rápida e direta.

A sensação de sentir-se traído é uma dessas situações. Sentir-se enganado é terrível. E é justamente assim que tenho me sentido a alguns dias. Na verdade essa sensação incômoda vem e vai a algum tempo. antes das piadinhas maldosas, não é a típica dor de corno, afinal um solteiro não pode sentir esse tipo de dor.

Tem dias em que dói muito, como hoje. Sinto-me traído no ponto mais íntimo. O descaso as vezes é o que mais incomoda. É claro que fazer qualquer coisa esperando uma resposta específica de alguém é no mínimo burro e totalmente imbecil, mas algumas coisas são realmente padronizadas.

Espera-se encontrar carinho como resposta para carinho, respeito como resposta para o respeito e descaso como resposta para o descaso. Sei que essa linha é totalmente pavloviana, mas a não ser que ações absurdas tenham sido condicionadas no ser, a resposta padrão esperada é essa. Você não trata com descaso quem te trata com respeito. Ao menos eu não espero isso de ninguém que eu realmente respeite.

É ai que eu vejo traição. Falo da traição existente na quebra desse protocolo social. Me sinto traído algumas vezes por causa disso. Tem gente que se sente usado, eu nunca me sinto usado. Faço algo por alguém porque quero bem essa pessoa, faço algo por alguém porque de certa forma me faz bem ver o outro bem. O que incomoda muitas vezes é um tipo velado de descaso.

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

Até entendo o motivo deste descaso, dos tais sumiços e de certa forma respeito isso. é um direito de cada um agir como quiser, fazer o que quiser e buscar aquilo que lhe é necessário nos momentos em que surgem os problemas. A forma como isso é feito também é uma arma de cada um, cada pessoa faz o que acha justo e correto.

Se eu entendo a ação, por que me sinto traído? Nunca esperei prontidão, o carinho, ou o desapego com que trato algumas questões, isso é a forma como eu atuo, cada um tem a sua. Mas respeito é algo simples. Alguns sentimentos são absurdamente primários, principalmente os meus, eu sou sentimentalmente primário, não acesso sentimentos mais complexos em relação ao outro, vou pouco além do gosto e não gosto. Queria apenas saber o que realmente acontece, me sinto jogado no vazio muitas vezes.

ações simples podem salvar alguém

ações simples podem salvar alguém

E pior do que a traição do outro é a minha própria traição. Viver já não é fácil. Se traindo fica mais difícil ainda. E nesse aspecto eu me traio muito. Parece que acredito em contos de fadas que eu mesmo crio como falsas esperanças para um mundo aparentemente melhor, que na verdade não é melhor. Sei que deveria dizer não algumas vezes, mas também assumo que nunca vou fazer isso. Se assim o fizer fica a sensação de saber que poderia ter feito algo simples pra alguém que faria a diferença e não fiz, por mais que isso me magoe (e magoa no final), fazer é muito mais prático.

Nesse desabafo todo, no fundo eu acho que só queria que as pessoas todas se lembrassem da frase escrita por Saint-Exupéry (eu odiei ler o Pequeno Príncipe, mas tenho que admitir que ele merece ser lido): “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”