What If – Coldplay

24 01 2010

E se eu tivesse tido coragem de falar o que sentia? O que ela teria dito? Nunca mais vou saber...

Eu tinha prometido parar de utilizar Watchmen como referência. Porém, uma conversa que tive ontem me fez mudar de ideia. Um longo papo no MSN onde alguns porquês vieram a baila sem que eu pudesse responder, apenas pensar como poderia ser um mundo alternativo, onde aquelas perguntas pudessem ser a realidade vivída.

Como o mundo de Watchmen, onde pequenas coisas causariam uma imensa mudança na história americana, o que aconteceria em nossa realidade com pequenas mudanças em pontos chave? Se você não tivesse ido naquela festa, se ela não tivesse atendido o telefone, se tivesse aceitado aquela proposta de emprego?

Tem uma música do Coldplay que brinca um pouco com isso. What If (clique aqui para ver um clipe). Vale a pena ver um trecho da letra traduzida logo abaixo

E se não houvesse nenhuma mentira

Nada errado, nada certo

E se não houvesse tempo

Nenhuma razão ou rima

E se você decidir

Que você não me quer ao seu lado?

Que você não me quer na sua vida?

É bem essa a linha de pensamento. O que aconteceria se pequenas coisas mudassem? Eu fiquei os dias de ontem e hoje pensando nisso. Lembrei de momentos cruciais da minha existência, das dúvidas que eu tive e de como essas dúvidas me machucaram. Do efeito que cada escolha teve em mim. Lembrei de cada noite que passei em claro tentando decidir o que escolher. Também me veio a cabeça o quanto eu tentei descobrir o que cada uma das minhas escolhas me levaria a fazer e ser.

Lembro também de umas revistas que eu lia quando moleque. As da Marvel Comics, hoje leio mais as da Vertigo e da DC, vez ou outra compro algo da Marvel, confesso que a morte do Capitão América, duas equipes de Vingadores e a invasão dos Skrulls foram séries meio sem graça. Mas voltando a essas histórias. Era comum surgirem vez ou outra histórias com o título o que aconteceria se… Nessas histórias, os roteiristas escolhiam momentos importantes da cronologia de alguns personagens e mudavam fatos, como a morte de alguém, um casamento, a vitória ou derrota numa disputa, encontrar ou não determinado artefato. A partir dessa premissa uma história era escrita dizendo o que aconteceria na cronologia do personagem com aquela simples alteração.

Quem nunca pensou assim? Quem nunca se questionou se fez a melhor escolha? Quem não gostaria de ter mudado uma decisão imaginando que face ao que ocorreu em sua vida após aquela escolha, a outra alternativa com certeza seria melhor. É claro que tudo isso é apenas mais uma forma que a gente cria pra tentar se reconfortar em situações adversas.

Mesmo sabendo que é puro exercício maluco. Eu queria sim mudar algumas coisas que eu fiz. Ou melhor, eu gostaria que fosse possível analisar de forma correta até onde cada linha de decisão nos levaria no futuro. Por outro lado. Muitas vezes me pergunto se vale a pena esperar o futuro, a dúvida, por mais ridículo que possa parecer, é um dos motivos que me mantém vivo. Essa esperança no desconhecido e a frágil crença de que talvez as escolhas que eu faça hoje possam criar para mim em algum momento um futuro agradável. Assim, toda vez que eu me pergunto se valeu a pena não ter encerrado minha vida ainda. A dúvida me mantém.

E você? Como reage as escolhas? Tem alguma que gostaria de mudar? Gostaria de saber até onde outra linha te levaria? Conte pra gente.

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Long Long Journey – Enya

21 01 2010

Hora de parar de chorar e tentar mudar esse mundo que eu odeio

Para encerrar as minhas impresses sobre Watchmen, vale a pena falar do meu herói favorito na história. Nite Owl, na pele de Dan Dreiberg, é o personagem que mais me agrada, principalmente pela fragilidade. Confesso que fiquei pensando no que escrever sobre o personagem, em que música utilizar. Acabei optando por uma música da Enya Long Long Journey (clique para ouvir). Ando bastante triste e queria também demonstrar isso, até porque o personagem tem uma tristeza parecida com a minha.

Dan Dreiberg herdou uma fortuna de seus pais e usou seu conhecimento para criar um maquinário baseado nas corujas para combater o crime. Com a proibição ele abandonou a vida heróica e pela forma como se apresenta, abandonou a própria vida. Não se matou, mas estagnou, seu único compromisso era o de visitar o primeiro Nite Owl uma vez por semana.

Muitas vezes penso que minha vida travou em alguns pontos como o de Dan Dreiberg. Na verdade a vida de todo mundo trava em alguns pontos, mas aqui estou para escrever de semelhanças minhas. Eu também sou fanático por corujas. No tempo da faculdade era notório o fascínio que esses animais de sistema sensorial fantástico despertavam (e despertam) em mim. Sou talvez mais tímido do que o Nite Owl e também alguém que tem um gosto latente pela ciência e de certa forma se refugia em alguns tipos de conhecimento.

Isso me ligou bastante ao personagem, tanto no filme quanto na primeira vez que li a história na minha adolescência, época em que minha adoração pelas corujas era mais evidente (não maior). O jeito triste e resignado, a necessidade de sempre agradar ao próximo de forma quase subserviente e a falta de grandes sonhos são outras características marcantes do personagem que talvez eu tenha também.

O fato mais interessante é que Dan Dreiberg só se sentia realizado vestindo uniforme e saindo a caça de criminosos. Era seu momento. As vezes penso que tenho que encontrar o meu momento. Conheço e vejo muita gente assim. Gente que como eu vive, faz as coisas que tem que fazer, mas nunca encontra esse momento, essa fagulha que faz com que tudo pareça interessante mesmo que o mundo esteja acabando diante dos seus olhos.

Aliás, essa busca por prazer é a grande busca humana. Encontrar aquilo que nos faça realmente felizes, aquilo que nos mantém vivos além de todas as conquistas. Pode ser ver o sol nascer, ter um filho, casar-se, ter um grande amor, fazer uma viagem. Cada um tem a sua motivação, por mais simples que possa parecer aos olhos de outrem, cada um sabe o que sente.

Este é, inclusive, um ponto que merece uma breve discussão. Nessa semana ouvi uma pessoa me dizer que tenho medo e sou mimado. Palavras ditas numa conversa em que eu disse de que forma encaro a vida. Pra mim ela não é realmente tudo isso. De início confesso que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Depois resolvi realmente pensar sobre o assunto (até por isso atrasei este texto) e tirei algumas conclusões. Discordo totalmente do mimado, o medroso aceito sob alguns aspectos.

Eu tenho medo sim, muito medo de assumir algumas coisas que deveria assumir. Deveria sim deixar mais claro aquilo que penso. Devo ir atrás dos meus sonhos, por mais absurdos que eles sejam. Eu acho mesmo esse nosso planeta podre, acho sim que nós seres humanos não valemos nada e o que tenho feito pra mudar isso? Pouco, muito pouco.

Eu dou aulas, ensino jovens, mas será que estou fazendo isso direito? Será que o que eu transmito a esses jovens os faz pessoas melhores? Provavelmente as aulas sirvam mais ao meu bolso do que a uma real mudança no lugar onde eu vivo. Fora do ambiente de trabalho, vivo, vejo e convivo com gente extremamente medíocre. A maioria das pessoas querem apenas o seu bem estar. Reclamam do que lhes faz mal, mas esquecem que seus atos acabam prejudicando também os outros.

Eu confesso tenho medo dessa gente. Tenho muito medo também de muita gente que trabalha comigo. Tenho paúra da grande maioria das pessoas e sou obrigado ainda a assumir que por vezes tenho medo de perder algumas pessoas que eu sei que nada valem. Pessoas que ligam pra você apenas quando é necessário, quando o calo aperta, mas quando você precisa de um sorriso que seja, está pedindo demais. Pessoas assim, aliás somos todos nós. A humanidade é assim. Eu não consigo me acostumar com isso. Sei que por vezes devo ser assim, mas isso me incomoda e muito.

Por isso, a tal bronca talvez consiga algum efeito e eu mude. Vá atrás do sonho máximo que é viver como se deve. Tentar transformar esse mundo cão nessa viagem longa, muito longa. Eu sei que vou morrer, mas que morra fazendo algo que eu realmente acredite. Que eu faça isso até cansar e quando cansar pare de reclamar da possibilidade da morte. Aliás morrer tentando criar um lugar em que eu acredite não será má ideia.

Que todos sejamos como Nite Owl, encontremos nosso caminho e sigamos por ele até o fim, de forma honesta e verdade com a única pessoa que importa. Nós mesmo.





Tento Entender – Otto

18 01 2010

As vezes criamos um personagem que nos protege do mundo exterior

Tento entender o que se passa nesse mundo que me cerca. Talvez essa frase seja a melhor forma de se definir Rorschach. O personagem obstinado em fazer valer um tipo de ideal de justiça que acredita. Meio maluco, o personagem transformou-se no maior temor dos bandidos do submundo, mesmo depois da proibição dos super-heróis. A música do Otto (Tento Entender – clique para ouvir) pra mim traduz a essência do personagem com todos os seus conflitos

Rorschach me encanta por ser o oposto total do Ozymandias, é alguém que defende suas ideias até o fim e que faz de si mesmo o responsável por levar essas ideias. Se tiver que se sacrificar pelo que acredita, ele fará isso. Eu penso de forma parecida. Acredito que é nossa a responsabilidade por nossos sonhos e se alguém tiver que sofrer para que um sonho meu se realize esse alguém sou eu.

A moral excessiva de Rorschach vem de dois eventos pesados ocorridos em sua vida. Primeiro a sua infância/adolescência, onde conviveu com sua mãe (até agora não entendi bem se ela era prostituta ou apenas digamos assim volúvel), sendo totalmente rejeitado. Já adulto e com a vida de herói iniciada. Ele investiga o sequestro de uma menina, crime que infelizmente termina de forma trágica e faz surgir a versão final e mais violenta do herói. Que não desiste do combate ao crime mesmo quando a atividade se torna ilegal.

Esse é um ponto interessante. Penso que a permanência de Rorschach no combate ao crime se deve a forma como ele passou a encarar a própria existência após esse crime. Walter Kovacs passou a ser a fantasia e Rorschach passou a ser o indivíduo. Aqui mais um paralelo com o mundo real. Quantas pessoas não esquecem quem realmente são e, por motivos diversos, passam a agir apenas em parte de sua vida? São profissionais que abrem mão da vida pessoal por não saberem lidar com elas. Profissionais em tempo integral. Atletas que não conseguem parar, artistas que só existem em sua obra, casais que só existem um no outro.

A anulação do lado Kovacs foi traumática e fácil de ser percebida. A elevação da face Rorschach parece até óbvio. Mas isso é ficção, me pergunto o motivo de fazermos isso tantas vezes também na vida real, com um motivo semelhante, como não temos maturidade suficiente para resolver determinados aspectos de nossa existência, simplesmente os deixamos de lado e damos ênfase para aquilo que fazemos com mais facilidade.

Num primeiro momento, pode até parecer interessante. A produção parece aumentar, nos tornamos realmente confiantes naquilo que fazemos bem. Mas e quando o lado frágil começa a fazer falta? Como retomar? Rorschach não viveu o suficiente para ter a oportunidade de retomar esse lado. Porém, nós vivemos. Saber lidar com isso é sempre complexo e doloroso.

Eu admito muitas vezes agir assim como Rorschach. Isso nos dois aspectos mais marcantes do personagem. Sim, deixo de lado alguns lados meus que não domino e parto com tudo para aquilo que é certo. Tenho medo de arriscar em campos que não tenho controle, por mais importante que isso acabe sendo pra minha vida. Fujo. Esse é o lado ruim.

O lado bom é a perseverança. Eu defendo meu senso de justiça e acredito sim que eu sou o responsável por aquilo que desejo ver acontecendo. Até existe acaso, mas eu tenho total responsabilidade pelo que minhas vontades causam ao mundo. A cena onde Rorschach é destruído pelo Doutor Manhattan deixa isso bem claro. Era contra seus princípios deixar o mundo iludido pelo sonho de Ozymandias, por mais que o resultado parecesse positivo, ele era contra matar milhares de pessoas inocentes e enganar todas as outras existentes no planeta.

Ai, vale a pena ressaltar que a discussão fica apenas num nível. Provavelmente Ozymandias se ache superior aos demais e por isso mais valioso. Eu me vejo como Rorschach, igual a todo mundo. Meu ideal não é melhor que o de ninguém. Existem regras e elas valem pra todo mundo, dentro delas eu luto por aquilo que acredito sendo eu o responsável total por isso. Digamos que alguns aspectos de minha vida sejam bastante semelhantes a escolha que Rorschach fez de manter-se na ativa mesmo sendo contra a lei. São pontos tão importantes dentro do que eu considero correto que coloco esses valores acima de tudo.

Quem não tem valores assim?





O Homem é esperto, mas a morte é mais – Ira

30 12 2009

Fugir é mais corajoso do que fazer o outro pagar por seus erros

Teve gente que me perguntou porque eu estava demorando tanto pra escrever. A bem da verdade era pra este ser meu último texto, mas algumas coisas (in)felizmente mudaram. Continuo falando da minha visão a partir da observação dos personagens de Watchmen. Hoje é a vez de Ozymandias, o tal homem mais inteligente do mundo. Enquanto escrevo, três músicas tocam alternadamente e uma delas dá nome ao post. O homem é esperto mas a morte é mais do Ira (clique para ver e ouvir), Trip at the brain do Suicidal Tendencies (clique para ver e ouvir) e a bastante divertida e mordaz(quase virou título do tópico) Elza dos Mulheres Negras (clique para ver e ouvir).

Tendo largado a vida heróica antes da proibição governamental e sendo extremamente rico, Adrian Veidt sempre se vendeu como o homem mais inteligente do mundo, com total controle do seu corpo era tão veloz que conseguiu até pegar balas com as mãos. Uma figura estranha e bastante manipuladora. No fundo Adrian é o grande vilão da história, vai aos poucos caçando (e desacreditando) aqueles que ele julga poderem atrapalhar seu plano de “salvamento” do mundo.

Para ele, desastres globais fariam o homem deixar suas diferenças de lado e levariam ao fim das guerras, no caso da história, a Guerra Fria seria findada e o mundo entraria num período de paz. Mas a que custo? Ao custo de milhares de vidas que nem saberiam o que estava acontecendo, tudo porque Adrian Veidt acreditava ser este o caminho.

Por acaso a sua forma de ação acaba funcionando, pelo menos até certo ponto, e isso até onde a história termina. O leitor é levado à dúvida pela cena final. Mas confesso que isso não importa. A análise que quero fazer aqui é outra. Quero levar a discussão para a pressunção de Veidt. Ele realmente acredita poder decidir por todo o mundo o que é certo e o que é errado. E nesse ponto consegue ser mais insensível que o Dr. Manhattan. Sua verdade está acima da verdade de todos os outros porque ele é mais inteligente do que todos os outros e ele carregará o fardo da escolha que não disponibilizou a mais ninguém.

Em uma escala menor, quantas vezes não agimos de forma parecida e a meu ver covarde? Quantas vezes não acreditamos que a nossa visão sobre determinado tema é a correta e o mundo todo deve acatar isso sem questionamento algum? Não sei se enxergo isso como prepotência ou covardia. Provavelmente um pouco dos dois e recheado com bastante medo, medo de ouvir uma opinião diferente da nossa num assunto que diga respeito a mais pessoas.

Porque falar disso agora? Eu sinceramente tinha em minha cabeça a idéia de me matar agora na virada do ano. Sem motivo especial para escolha da data mas com motivos pessoais mil pra encerrar uma situação que me incomoda a muito tempo. Vendo Ozymandias sacrificar outras pessoas ao invés de resolver o problema da forma mais honesta me pareceu covardia. Se ele (assim como eu) não se acostuma e nem gosta do mundo em que está inserido mas percebe que as pessoas ao seu redor gostam, quem deve se retirar do mundo? As pessoas que gostam dele? Óbvio que não.

Já deve ter dado pra perceber nos diversos posts desse blog que eu não consigo me sentir a vontade aqui. E confesso que não culpo ninguém por isso. O problema é apenas meu, o lugar não me agrada eu deveria ter o direito de me retirar dele e deixar espaço pra quem se sente confortável e adora isso aqui. Afinal as escolhas deveriam ser sempre pessoais. No meu caso, pelo menos por enquanto tenho que abortar o projeto, algumas pessoas precisam de mim nesse momento e simplesmente não posso cair fora como gostaria. O jeito é tentar me incomodar o mínimo possível com a forma como esse mundo e eu nos relacionamos. Depois de quase 35 anos, acho pouco provável começar a apreciar a vida de forma plena como vejo a maioria das pessoas fazendo, então é fazer o que deve ser feito da melhor maneira possível enquanto o tempo passa.

Aqui vale retornar ao pensamento maluco do Adrian Veidt. Ele escolheu um modelo, acreditava que poderia ser até maior do que ele e de certa forma foi a única pessoa com quem se relacionou. Eu não sou nem tão pirado e muito menos tão “inteligente” quanto Ozymandias, me relaciono com mais gente, interajo mais, só não me sinto feliz com isso. Poucas vezes fui feliz, pra ser bem honesto.

Talvez a nossa maior diferença seja o fato de que eu não consiga ver as pessoas de cima (e nem poderia fazer isso, sou como qualquer um). Esse achar-se superior a mim parece mais uma defesa do que realidade. Uma forma de fugir do seu verdadeiro mundo é tentar controlar o mundo dos outros, não aceitando as falhas que se tem e muito menos reconhecendo os diversos erros que cometemos.

O problema maior é conviver com a nossa pequenez diante de tudo o que nos cerca. Situações corriqueiras nos mostram que simplesmente aquela situação não é para nós e o máximo que podemos fazer é sairmos da situação ou aceitarmos o meio e apesar de toda dor sentida continuarmos existindo dentro desse mundo. Cada um faz as suas opções. Eu tive que refazer as minhas.





Who Wants to Live Forever – Queen

23 12 2009

não adianta ver uma bela paisagem é preciso saber senti-la, e isso infelizmente é mais difícil do que parece

Hoje é dia de falar do único personagem da história que realmente tem superpoderes, o dr. Manhattan. Um físico fica preso dentro de uma máquina que não pode ser desligada e seu corpo é destruído. Tempos depois ele reaparece como um ser com o poder de controlar os átomos, alguém que pode fazer praticamente qualquer coisa.

Nessa realidade alternativa, a presença do Dr. Manhattan faz com que a Guerra do Vietnã seja vencida pelos americanos, que Nixon seja reeleito e se torne uma espécie de herói popular, a Guerra Fria alcança níveis terríveis e a antiga U.R.S.S não invadiu o Afeganistão. Com todo esse poder geopolítico em suas mão, entretanto, o personagem em questão parece cada vez mais alheio a esse mundo onde está inserido. Aliás a cada momento ele parece cada vez menos humano.

Tendo conhecimento sobre seu futuro, ele simplesmente ignora o que acontece ao seu redor. Sentimentos, pessoas, sensações não passam de fatos diante dos seus olhos. Ele enxerga tudo como átomos interagindo, apenas isso. É imortal e me fica a pergunta, será que ele quer isso ou se toca a respeito disso? Por isso a música do Queen, who wants to live forever (clique aqui para ver o clipe) faz parte da trilha de Highlander, um filme que traz homens que são imortais a menos que lhes arranquem as cabeças.

Dr. Manhattan não corre nem esse risco. Na verdade, acredito que mesmo que corresse não faria diferença alguma. Essa sua postura meio autista em relação a tudo o que o cerca, essa sua visão limitada a aquilo que ele quer e consegue perceber e entender não é algo totalmente estranho ao ser humano. Eu mesmo já me peguei diversas vezes fugindo do mundo que me cerca, tendo uma visão totalmente limitada sobre o que acontece e acreditando que aquilo que eu via era o suficiente para entender e viver bem no mundo em que estou.

Aliás, acho que isso acontece comigo o tempo todo. Tenho uma visão muito pessoal e particular da vida e muitas vezes acabo, como o Dr. Manhattan, me fechando dentro desse pequeno universo particular e deixando de lado sensações e emoções simplesmente por não entendê-las de forma clara e coerente. Faço das minhas limitações um recurso para isolar-me ainda mais do resto. Não tenho uma “Silk Spectre” ao meu lado para magoar com minha postura muitas vezes absurda. Mas convivo com pessoas e estas pessoas acabam vendo-se afastadas de mim, ou pelo menos de aspectos importantes de minha vida simplesmente pelo meu jeito peculiar de ser e agir.

O padrão de comportamento robótico, ou multifuncional como sou chamado pela psicóloga…rs é real e é a forma mais segura que eu encontrei para não sucumbir a loucura e tornar-me um Comediante, mas eu estou longe de ser um Dr. Manhattan, não tenho saberes e nem poderes que me tornem acima ou mesmo capaz de estar realmente isolado e a parte do resto da população.

Sei de diversas outras pessoas que também são assim, presas em seu mundo, sem conseguir perceber coisas simples que se situam ao alcance de seus olhos. Gente que como eu não consegue ainda entender o que está fazendo neste planeta, gente que vive e faz aquilo que acha certo dentro do seu padrão, sem entender os padrões e funcionamento dos outros. Gente que parece não ter sentimento algum. Mas que infelizmente chora e muito por não entender os sentimentos mais simples que tem.

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Jokerman – Bob Dylan

21 12 2009

As vezes só uma piada nos mantém a sanidade

 

Continuando a saga dos Watchmen, hoje falo do Comediante, Eddie Blake com certeza é o personagem que melhor encarna a preocupação da população que picha paredes com a frase Who Watches the Watchmen (traduzindo como algo parecido com quem vigia os vigilantes). Até a escolha de seu codinome é ácida. O tal senso de humor desse comediante é corrosivo e perigoso. A forma como ele vê o mundo funciona como uma caricatura de tudo o que acontece.

Partindo para uma linha mais popular de quadrinhos, alguns aspectos do Comediante lembram o Batman pós Cavaleiro das Trevas (lançado no mesmo ano, 1986). Uma tentativa de tentar criar um tipo de entretenimento mais adulto. O Comediante tem um quê de Batman e um quê de Coringa. O sarcasmo é forte, o riso apocalíptico escondido em seus comentários lembra bastante o palhaço do crime. A trilha sonora escolhida segue essa linha. O bardo Bob Dylan cantando Jokerman (clique aqui para ver e ouvir). Os versos parecem traduzir a mente tortuosa do Comediante. Alguém que conhece tão bem o lado obscuro da alma humana que se vale do sarcasmo para manter o que lhe resta de sanidade.

O único momento em que ele parece sucumbir ao peso que carrega e ao olhar questionador que tem do mundo. Quando visita seu antigo inimigo Moloch. O seu choro sincero e o aparente desespero (mais visíveis nos quadrinhos do que no filme) o tornam mais real e factível. Não diria mais humano, porque encaro o seu sarcasmo violento como uma leitura totalmente humana e válida da sociedade.

Ao rir da sociedade doente, o Comediante não está fazendo nada diferente do que fazer uma análise crítica também do mundo em que nós vivemos. Uma sociedade em que notícias como essa (clique para ler) aparecem. Alguém é atacado numa livraria sem qualquer motivo e sem ter tempo algum para reagir. Coisas de um mundo doente que me fazem acreditar mesmo que momentaneamente, numa frase do Comediante: “Nós os protegemos deles mesmos.”

Entrei em férias a poucos dias e tirando a minha famosa fobia social do centro da conversa, caminhei por alguns locais perto de casa. Fui ao mercado para ser mais exato. No caminho, fui hostilizado devido a camisa que eu vestia. E vendo o rosto das pessoas, percebia-se o medo estampado em alguns e o desejo de violência em outros, esperando que eu respondesse algo para que existisse na mente tacanha de alguns, motivo suficiente para se iniciar uma briga.

É nesse mundo pesado que estamos inseridos. Vale a pena viver nele? Esse é um questionamento maluco, mas que merece ser feito. Vale a pena existir num lugar assim tão opressivo? Vale a pena cuidar de um grupo para que ele não se mate? Vale a pena investir nosso esforço nisso?

A sensação que muitas vezes tenho é a de que só sendo meio pirado como o Comediante é para conseguir manter-se minimamente tranqüilo nessa nossa realidade torpe. Você tem que fazer aquilo que tem que ser feito e não se envolver emocionalmente com nada. Você observa gente que poderia fazer (falo de uma cena específica da história, quando você ver vai se lembrar) acaba se omitindo por motivos diversos.

Eu nesse contexto me sinto um completo inútil e assumo que não gosto de viver num lugar como esse. As opções pra pessoas que pensam como eu são duas. Desistir e abraçar o suicídio (ou a vida suicida que o Comediante de certa forma adotou) ou tentar mudar, o problema é descobrir como mudar  e principalmente o pior é descobrir que a maioria não quer que nada muda.





The Sound of Silence – Simon & Garfunkel

20 12 2009

Quando o som do silêncio nos traz medo e desespero é sinal de que o limite está chegando

Hora de buscar outras fontes pra escrever. Infelizmente acabou a sequência em cima do Uma Longa Queda do Nick Hornby. Agora as ideias estão fluindo a partir de uma história em quadrinhos que virou filme. Eu adoro quadrinhos, acho uma linguagem super divertida. E como gosto de ver filmes, quando juntam as duas linguagens geralmente procuro saber qual foi o resultado final.

Só consegui assistir Watchmen hoje, e isso porque o final já saiu em DVD a um certo tempo (quase um mês). Eu adorei a história criada por Alan Moore, junto com Sandman e talvez Hellblazer é o que eu já li de mais interessante no universo dos quadrinhos. Confesso que fiquei com medo do filme. Fiquei imaginando se iriam dar uma pasteurizada nos personagens, tirar muito peso da história ou se a mesma perderia a magia ao mudar de mídia.

O bom disso é que o resultado foi em grande parte satisfatório, gostei tanto que pretendo usar o filme e os quadrinhos pra mais uma sequência de posts aqui no blog. Começo de onde terminei a sequência anterior. O tema suicídio e morte ainda vai pairar por aqui um tempo. Talvez por ser um tema que me chame bastante a atenção, talvez pela insuspeita falta de criatividade que surge em alguns momentos na criatividade de qualquer pessoa.

Para começar, escolhi uma das músicas da trilha sonora, a música que toca durante o enterro do Comediante Sound of Silence de Simon & Garfunkel (clique aqui para ver um clipe da música). Aqui já surge algo divertido, durante o filme, a versão que toca é a original da dupla dos anos 60/70, mas no Youtube você vê e ouve a versão de uma banda de Death Metal chamada Atrocity (clique para ver essa versão) com várias cenas do filme. Vale ouvir as duas e comparar, gostei das duas.

Apesar de ter citado a morte do Comediante, não é ele que começa essa série. Prefiro primeiro dar uma geral sobre como enxergo essa história. Situando o povo, numa realidade alternativa onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Nixon não passou pelo Watergate, tendo se mantido popular como presidente até 1985 pelo menos, ano em que a maior parte da história se passa.

Existe um cenário bastante apocalíptico, com a Guerra Fria chegando ao limite máximo e o medo rondando a população. Nesse mundo, os heróis são seres comuns, sem super poderes, inicialmente policiais mascarados que faziam uso desse artefato para caçar os bandidos que se mascaravam para não serem reconhecidos. Depois surgiu uma nova geração de heróis que aparentemente se divertia com isso. Porém, a população pediu o fim desses heróis e o presidente assinou um decreto onde todos foram proibidos de agir.

Três deles mantiveram suas atividades. O Comediante, que trabalhava para o governo, o Dr. Manhattan, único com super poderes e no caso dele poderes praticamente divinos, também trabalhando para o governo e Rorschach que se manteve o tempo todo no submundo.

Viver nesse sistema é complicado. Todos os personagens parecem oprimidos. Todo mundo parece a beira da loucura, a população parece precisar ser protegida dela mesma. É como se todo mundo estivesse esperando a morte chegar de alguma forma e procurando levar as sensações sempre ao extremo e sempre da pior forma possível. Essa loucura e medo fazem você esperar uma morte a todo instante. A mensagem mais clara de toda a história é a de que não existe esperança. Justamente o que a meu ver é o suficiente para fazer com que alguém se mate. Por outro lado, essa sociedade doente não é muito diferente da que vivemos hoje, talvez a grande diferença seja a possibilidade de sonhos que ainda nos mantém vivos. Quando os sonhos deixam de existir, o peso da realidade cai nos ombros e o som do silêncio nos leva a perceber que a morte pode sim ser um caminho razoável.